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Aposentadoria: um novo horizonte para o trabalho

Muitos contam os dias para a chegada da aposentadoria, o descanso tão merecido. Já outros - e eles são cada vez mais numerosos - fazem dela o trampolim para outra fase da vida, onde a busca por novos desafios profissionais e experiências são a tônica. Ess

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Muitos contam os dias para a chegada da aposentadoria, o descanso tão merecido. Já outros - e eles são cada vez mais numerosos - fazem dela o trampolim para outra fase da vida, onde a busca por novos desafios profissionais e experiências são a tônica. Esse novo perfil da maturidade é o tema de mais uma matéria da série ‘Agente do Bem’, que o Projeto Orgulho de Ser do Pará veicula ao longo de 45 dias no jornal DIÁRIO DO PARÁ e na RBATV.

Ao todo, são 24 matérias tratando do universo da terceira idade e também das pessoas com deficiência no Estado, enfocando contextos de urbanidade e ações positivas de personagens inspiradores e agentes que promovem a inclusão e o acesso aos direitos e à cidadania. O objetivo é engajar mais paraenses em ações que construam cidades melhores, combatendo problemas que estão ao alcance de todos, muito além da ação do poder público. Assim, o Grupo RBA trava uma campanha para formar um exército de ‘Agentes do Bem’ que ajude a transformar o Pará e suas cidades.

Novo horizonte

A idade não é sinônimo de limitação. É assim que pensa o empresário Luiz Olavo Jorge de Campos, 63 anos. “Eu sou idoso, não sou velho. Na década de 1950, havia um comportamento que é diferente do que se vê hoje. Eu jamais vou me sentir velho, mesmo que tenha 120 anos. A juventude está na cabeça”.

Foi com essa visão de mundo que o engenheiro eletrônico abriu, há menos de um ano, o próprio negócio: um ponto de recepção de aparelhos auditivos com defeito. A sugestão de uma amiga deu ao aposentado a perspectiva de empreender em uma área nova. O engenheiro trabalhou 25 anos em uma única empresa. Depois de aposentado, Luiz Olavo ainda prestou serviços temporários em outros locais. Por um ano e meio também se dedicou aos estudos, ao curso de engenharia de segurança do trabalho – área na qual nunca trabalhou. “As empresas querem gente com experiência e eu não tenho nesse ramo da engenharia. Até podem admitir alguém sem experiência, mas que seja novo”, pondera.

Da negativa veio a oportunidade. “Foi aí que resolvi abrir um negócio. Hoje, estamos em processo de ampliação. Temos todos os equipamentos necessários para começar as manutenções e fazer também a revenda de aparelhos”, orgulha-se. A empresa foi criada também por uma questão financeira. “Só com o INSS, a minha renda ficou aquém do meu padrão de vida”.

Luiz Olavo faz questão de ir à empresa até no sábado, quando não há expediente. “Estou apto ao trabalho, disposto. Não estou querendo ficar velho, sentado na poltrona e vendo televisão. Foi por isso que eu não vesti o pijama”, enfatiza. Todos os dias guardam um novo aprendizado. “Essa não é a atividade para a qual eu dediquei todos os anos de faculdade”, assume.

Mas a descoberta é o combustível da empreitada. “É o desafio que mais me fascina. É um negócio novo. E, além disso, você vai atendendo, conhecendo, tem contato com novas pessoas, representantes, clientes”. Luiz Olavo hoje tem a ajuda do filho mais velho e de uma funcionária. A empresa conta também com uma fonoaudióloga para fazer os atendimentos especializados.

O engenheiro reconhece que algumas coisas já não são mais como eram antes. O corpo já não obedece tanto como gostaria quando vai fazer algum movimento, mas isso não é problema. “Eu quero dar um salto mortal para trás na piscina, mas não dá. Nem por isso eu me considero velho”, brinca.

De volta à economia

O prazer de trabalhar e se sentir útil fez com que sete milhões de aposentados voltassem ao mercado de trabalho, conforme dados de 2011. O crescimento, em 2010, do número de assalariados com 65 anos ou mais, foi de 12% - o dobro da média dos últimos anos, segundo o Ministério do Trabalho. Seja retornando ao mercado de trabalho, dando continuidade ao exercício da profissão ou abrindo o próprio negócio, os idosos não querem mais ficar em casa somente recebendo a aposentadoria.

Na esquina da rua Farias de Brito com a avenida José Bonifácio, José Xavier, 69 anos, viu Belém mudar. Nos 42 anos que trabalha ali vendendo livros e revistas em um dos sebos mais antigos da capital, seu Zé, como é conhecido, lembra como eram as proximidades do Mercado de São Brás na década de 1970. “A José Bonifácio só tinha paralelepípedo e por lá passavam os trilhos do bonde. A Farias de Brito era de piçarra. No fim, tinha a baixada da feira. A gente olhava e via os vagões dos trens estacionados”.

O cenário mudou, mas ele continua ali, envolto em páginas de exemplares que são trocados e vendidos e de outros que chegam por meio de doações. O que vende? “É como se diz, aqui é uma clínica geral. Se vende de tudo, desde o quadrinho mais baratinho ao livro de medicina. Tudo o que o sebo permite vender a gente vende”.

Os romances “Sabrina”, “Júlia” e “Bianca” são os mais procurados. O primeiro alvará da Banca de Revista São Brás é de 1986 e está guardando junto com os demais, na pasta azul que seu Zé faz questão de mostrar. Aos 69 anos, o ex- gari não aparenta a idade que tem. “Tem gente que olha e pensa que eu tenho 50, 55, mas a identidade e a carteira de idoso não negam”.

Os olhos azuis observam quem chega. Se é cliente, já conhece as preferências e vai logo anunciando as novidades. É uma bagunça organizada. “Pelo pouco espaço, não dá para catalogar tudo direitinho”, justifica. Mas o proprietário do sebo sabe o que tem e faz questão de trabalhar e conversar com a freguesia. “Não penso só em vender, mas em ajudar. É um prazer servir meus clientes”. Foi pedindo autorização das “madames” que ele começou a juntar os exemplares que achava no lixo. “Quando juntei uns 500 números diferentes, entre livros e revistas, fiz um tabuleiro com quatro rodinhas e vim pra esquina. Hoje tá esse mundão de livros e revistas”, compara.

Seu Zé não pensa em largar a atividade que exerce há tanto tempo e que já rendeu muito aprendizado nas leituras à espera de clientes. “Só no dia que Deus me chamar eu paro. Enquanto eu tiver saúde, eu vou continuar trabalhando. Gosto muito daqui, da minha profissão, do diálogo com os meus fregueses”.

Continuar na ativa no mercado de trabalho traz vantagens que vão além da remuneração salarial e da satisfação pessoal. Na carreira pública, o primeiro critério de desempate em concurso é o da idade, com preferência para os candidatos com idade mais avançada, conforme determina o Estatuto do Idoso, que também proíbe a discriminação por idade e a fixação de limite máximo de idade na contratação de empregados.

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2011, 57,2% dos homens de 60 a 64 anos ainda participavam ativamente das atividades econômicas. A expectativa de vida do brasileiro aumentou 5,3 anos entre 1994 e 2010 – passando de 68,1 para 73,4 anos. Esse prolongamento se reflete na força de trabalho na terceira idade.

Para a psicóloga, doutora em psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) e professora de psicologia na UFPA Hilma Khoury, o advento dos direitos trabalhistas e previdenciários, como a redução das horas de trabalho e o direito a férias anuais; licença saúde e aposentadoria, permitiram aos trabalhadores melhores condições de vida e garantia de alimentação e medicação na velhice.

“A despeito do natural desgaste biológico que acompanha o envelhecimento, os idosos de hoje são mais saudáveis, independentes, ativos, engajados em movimentos sociais, em universidades da terceira idade, na luta por seus direitos e em diversas atividades socioculturais, inclusive no mercado de trabalho”.

(Diário do Pará)

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