Na rodovia Perna Sul, no Complexo da Alça Viária, uma placa improvisada de compensado e escrita à mão indica o início da Vicinal dos Quilombolas, no município de Moju, região nordeste do Pará. A estrada faz parte de um investimento de mais de R$ 2,5 milhões e já deveria ter sido concluída. Porém, no lugar de asfalto e pavimentação, há o castigo da poeira e da lama -de acordo com o clima. Com 52 quilômetros, a via de piçarra contrasta com o verde das árvores cobertos de poeira. Ao entrar no ramal, aos poucos vão surgindo pequenas casas de madeira, divididas em 15 vilarejos de quilombolas. São famílias esquecidas no meio do nada, sofrendo pelo abandono do poder público.
Com a quebra da quarta ponte da Alça Viária, sobre o rio Moju, em março deste ano, muitos condutores utilizam como via de escape a rodovia Perna Sul, que começa um pouco antes da ponte quebrada, e interliga vários municípios. Logo após o início da Perna Sul, pode-se acessar a Vicinal dos Quilombolas, que dá acesso ao município de Moju, e passou a ser usada por muitos veículos, principalmente caminhões, que fazem o escoamento da produção regional. Acostumados com uma via pacata, os moradores das comunidades quilombolas agora enfrentam as dificuldades causadas pelo excesso de tráfego, o que já gerou três manifestações na última semana.
O mototaxista Ivanildo Moraes, morador há dois anos da comunidade Envirateua, com cerca de 100 famílias, reclama da situação da estrada. “Já fizemos vários protestos fechando a rua, para pedir melhoras. Disseram que iam asfaltar, mas até agora nada de asfalto. Como os caminhões passam muito por aqui, a poeira ficou insuportável”.
O produtor rural Edilson Conceição dos Santos conta que uma leve camada de asfalto foi colocada apenas na frente das casas. “Ficou difícil. Nós pensávamos que ia acontecer uma coisa boa, mas o governo só colocou uma capa, quando teve dinheiro para asfaltar toda a estrada. Quando chove, fica um lamaçal”. Com o movimento intenso, o asfalto já está cedendo, já tendo a terra batida visível em alguns trechos.
Moradores da comunidade Bacuri reclamam que o excesso de poeira tem causado doenças nas crianças. Shirley Paes da Silva mudou-se há poucos meses com o filho recém-nascido para a casa de sua mãe, que fica às margens da estrada. Ela conta que, devido à poeira, a criança desenvolveu uma alergia. “Desde que eu me mudei para a casa da minha mãe, o rosto do meu filho ficou todo empolado. O pior é que não há posto de saúde por aqui e essa poeira tem deixado muita gente doente. As crianças são as mais prejudicadas”. A mãe de Shirley, Ivaneide Paes, sempre teve esperança de que a estrada tivesse condições melhores. “Sempre foi um sonho ver os carros passando por aqui, mas não levantando todo esse poeiral, que tem feito adoecer muita gente. O pior é que, se alguém passar muito mal, ambulância não entra aqui”.
A via estreita e perigosa não tem iluminação, o que dificulta a trafegabilidade no período da noite. Outro problema da falta de pavimentação é a ausência de sinalização. Para evitar que os veículos trafeguem muito rápido, os moradores tiveram que fazer lombadas, assim como placas indicando a presença das lombadas, e também das pontes, que encontram-se em condições precárias. O estopim para o início dos protestos foi quando um ônibus escolar quase caiu ao passar pela ponte sobre o rio Jambuaçu, uma das muitas pontes de madeira que, segundo a população, não recebem manutenção.
ATOS
Na última semana, os moradores das comunidades quilombolas fizeram três protestos, bloqueando as vias de acesso a Moju, mas até o momento não tiveram nenhuma resposta do poder público sobre a conclusão das obras. Populares da localidade de São Bernardino denunciam abuso de poder da polícia na última manifestação, quando, de acordo com eles, um jovem foi preso injustamente.
Maria do Carmo Amaral, moradora da comunidade, reclama da situação da estrada. “Só fizeram uma abertura e uma raspagem. Era para terem feito muito mais, pois dinheiro havia para isso. Quando pensávamos que a obra estava no início, os caminhões e tratores já estavam indo embora, por isso fizemos o protesto. Queremos resposta, pois o governo não está cumprindo o que foi dito. Depois que a ponte caiu, a situação ficou pior. Os carros agora só passam por aqui”.
A líder comunitária Maria de Nazaré foi uma das organizadoras do movimento. Ela diz que os quilombolas querem respeito. “Se o governo investiu mais de dois milhões e meio de reais, por que a obra não foi concluída? Queremos respeito. Somos quilombolas, trabalhadores, lidamos com a terra e temos família para sustentar. Essa poeira tem deixado nossos companheiros doentes, e é incômodo respirar assim. Isso não é uma questão política, e sim uma questão de cidadania. Não queremos ofender ninguém, mas sim uma melhor qualidade de vida”.
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(Diário do Pará)
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