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Lixo lançado nas águas afeta comunidades em ilhas

A visão da Baía do Guajará, na ilha do Combu, em frente à casa do aposentado Manoel Renato Carvalho, 84 anos, poderia ser mais bonita, se não fosse o lixo que insiste em acumular ao redor da palafita. São garrafas de refrigerante, óleo, cerveja, detergent

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A visão da Baía do Guajará, na ilha do Combu, em frente à casa do aposentado Manoel Renato Carvalho, 84 anos, poderia ser mais bonita, se não fosse o lixo que insiste em acumular ao redor da palafita. São garrafas de refrigerante, óleo, cerveja, detergente, inseticidas, caixa de leite, sacos plásticos, entre outros. Segundo denúncia dos próprios ribeirinhos, o lixo descartado em Belém é trazido pela correnteza até as comunidades nas ilhas.

Os resíduos se aproximam quando a maré começa a baixar. “O lixo chega de acordo com a água. É na vazante que encosta’’, diz Manoel.

Por causa da idade, não tem condições de recolher o lixo. A consequência é o número de mosquitos em frente à casa. Manoel precisou reconstruir a morada por três vezes devido à erosão causada no solo. “Quando cheguei aqui, a minha casa era na cabeceira da ponte, e ainda tinha um espaço de 10 metros que os meninos brincavam de bola. O lixo e a maré vão encostando e vai quebrando tudo. E com os anos eu tive que reconstruir minha casa por três vezes’’, conta.

Em meio aos descartáveis na água, a neta de Manoel, de 8 anos, faz coleção de brinquedos. . A menina mostra duas bonecas e um boneco encontrados. Para as pessoas da cidade é lixo. Para ela, se tornou diversão. “Já achei boneca, bola, louças de cozinha de brinquedo. Eu pego pra brincar. Acho ruim isso, porque jogam lixo e vem tudo pra frente da nossa casa’’, diz.

A família do aposentado sobrevive da pesca. Entretanto, com o decorrer dos anos, segundo ele, houve redução de peixes no rio. A gente coloca a rede e não vem mais peixe como antes. Eu vim de Bragança pra cá faz 40 anos. Logo quando chegamos aqui, pegávamos muito peixe. Agora não’’, ressalta.

Situação parecida vive a ribeirinha Cristalvinda de Jesus da Silva, 73 anos, na ilha do Muritucum. “Agora tá até difícil pra pescar. A gente pescava na beira do rio e agora tem todo esse lixo. Os peixes vão embora. Morrem. A gente se matinha da água do rio. Agora não dá mais. Tá poluído. Tenho até medo de tomar banho aqui’’.


A ribeirinha Cristalvinda Silva, 73 anos, da ilha do Muritucum. "Agora tá até difícil pra pescar"

SEM GARIS

Segundo a moradora, a prefeitura já visitou a comunidade, mas até agora nenhuma solução para o lixo foi apresentada. “O pessoal da prefeitura vem e não adianta nada. Não fazem nada. Tem muita gente que bebe dessa água do rio. Eu tenho medo. Os candidatos só querem voto. Nas eleições tem bandeira que nem presta nessas casas. Eu vejo cheio de lixo isso aqui. Carrego e queimo tudinho’’.

“Muitos igarapés estão sendo tapados por lixo. É por isso que a cidade pode acabar indo pro fundo’’, teoriza o lavrador Domingos Guerreiro, 58 anos.

A afirmativa dele é comprovada pelo professor do Programa de Mestrado em Ciências Ambientais da Universidade do Estado do Pará (UEPA), Hélio Ferreira. “A previsão futura é a pior possível. Lixo jogado na Baía do Guajará não tem destino. São as marés que vão direcionar, o que acaba chegando e causando problemas’’, explica.

Primeiro os ribeirinhos. Depois, reflexo será em Belém.

(Diário do Pará)

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