É através do conhecimento que o jovem Daniel Santos da Silva, 16 anos, também vem modificando a realidade da própria família. Atingido por outra iniciativa que vem, já há bastante tempo, ajudando a transformar a forma de atuação de pequenos produtores na região da Transamazônica, o estudante já colhe os resultados das orientações recebidas em sala de aula. “Antes a gente perdia mais ou menos 40% da produção [de hortaliças] por causa de doença e fungo”, recorda, ao comemorar a diminuição do prejuízo a partir da aplicação das técnicas aprendidas. “Consegui identificar a doença, ver por que ela era causada e eliminar. Agora a perda é de menos de 10%”. Filho mais velho de dois irmãos, Daniel começou a obter respostas para dúvidas antigas de toda a família há seis meses, quando começou a frequentar a Casa Familiar Rural (CFR) de Altamira, município de localização do assentamento PA Assurini, onde mora.
Com atuação em municípios da Transamazônica desde 1997, a CFR funciona a partir do modelo da pedagogia da alternância, onde os alunos passam parte do período recebendo aulas teóricas e práticas na escola e a outra parte em casa aplicando os conhecimentos apreendidos. “Dentro da proposta da Pedagogia da Alternância, a gente tem alguns instrumentos pedagógicos que são específicos”, explica o professor da CFR de Altamira, Édson Azevedo. “Entre eles, o mais importante que a gente identifica é o PE (Plano de Estudo), que é o diagnóstico antecipado que o aluno faz da propriedade dele com relação ao tema gerador que a gente vai estudar dentro da quinzena”.Ao longo das 28 escolas que funcionam integradas ao sistema de pedagogia do Estado, os alunos recebem, no período de dois a três anos, aulas que apresentam técnicas mais produtivas de criação de peixes, de aves, de fruticultura e olericultura. Feito o diagnóstico da propriedade de cada aluno e constatada a afinidade com a agricultura familiar, os estudantes levam um questionário de casa para a escola com as dúvidas da família referente a cada disciplina.
É na escola que os alunos discutem os problemas enfrentados com as produções e saem dali com algumas respostas para aplicar de forma correta em suas próprias terras. Iniciado pelo aluno, a difusão do conhecimento através da escola diferenciada já tem ajudado a modificar a realidade de muitas famílias e a gerar uma mudança de consciência com relação a real necessidade de se desmatar uma área.“Antigamente, a gente pensava em desmatar mais área para plantar alface porque a gente perdia muita produção”, recorda o estudante Daniel da Silva. “Agora, a gente não pensa mais em desmatar. Já pensa em plantar nas áreas já desmatadas porque o nosso lucro melhorou depois que controlou as doenças e fungos da produção. A gente também já pensa em plantar cacau, que, além de dar lucro, ainda ajuda no reflorestamento, porque ela precisa de outras árvores que façam sombra.”
Novas técnicas pecuárias reforçam serviços ambientais
Segundo a mesma lógica da preservação e da melhor utilização das áreas para o uso alternativo do solo, uma proposta desafiadora foi feita ao produtor Rogério Coimbra, morador do assentamento PA Bom Jardim, no município de Anapu. Acostumado com o cenário de pasto observado no lote desde a aquisição, no ano de 1984, o produtor que trabalha principalmente com o manejo de gado leiteiro foi apresentado a novas técnicas que possibilitam melhorar sua produção sem degradar mais áreas de floresta. “Antes era só pasto. Quando compramos, já era tudo capinado. Agora eles estão orientando como a gente faz. A mata que nós temos é pouca e não dá para abrir mais. Para mim tem dado certo porque eles sabem como tratar a gente”, dizem os técnicos do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). “Na minha ignorância, não dava para recuperar (o córrego que corta o lote seu terreno), mas com o estudo deles me convenceram que dá”.
Como parte da assistência oferecida pelo Ipam, Rogério aceitou o desafio de, entre outros compromissos, tentar recuperar o córrego que corta seu terreno e que, no período de sol mais intenso, seca por completo. Com apenas alguns meses de trabalho, a água que corre por entre o capim do solo já enche o produtor de esperança. “Vou plantar açaí na lateral todinha [da nascente]. Vou restaurar com açaí, aproximadamente 500 mudas”, confirma, agora entendendo a necessidade de recuperação e preservação das Áreas de Preservação Permanente (APP). “Se o córrego continuar no verão, é melhor porque enriquece a área, né?” Para além da recuperação das áreas de APP e da orientação para o desenvolvimento de técnicas da pecuária rotacionada – onde o gado pasta em piquetes menores e é transferido de forma rotativa de entre os piquetes até que o capim do pasto anterior se recupere, melhorando a produção com menor degradação das áreas de floresta -, o pequeno produtor ainda recebe R$140 por mês durante três meses pelo serviço prestado ao meio ambiente. “Temos um mecanismo que chamamos de Pagamento por Serviços Ambientais. É um acordo social feito entre uma família de assentados, sua organização, a FVPP [Fundação Viver, Produzir e Preservar] e o Ipam”, adianta Cássio Pereira, agrônomo e diretor adjunto do Ipam. “Os nossos técnicos chegam com o produtor e constroem um projeto de desenvolvimento desse lote com oito anos de duração. Nesses oito anos, ano após ano, temos um acordo no sentido de metas a serem cumpridas. Conforme os agricultores vão cumprindo o contrato, eles recebem uma remuneração pelo cumprimento da transição produtiva do seu lote”.
Servindo de exemplo para produtores vizinhos que já começam a perceber os resultados da mudança na forma de produção, o pagamento por serviços ambientais já é visto pelos governos como uma boa estratégia de política pública para a redução do desmatamento. “O sistema de pagamento por serviços ambientais não é um pagamento para o agricultor não fazer nada”, faz questão de ressaltar Cássio. “O que nós estamos falando e fazendo é o reconhecimento e valorização do esforço de um produtor para fazer uma transição produtiva do seu lote de uma situação onde ele ainda está produzindo com mais impactos ambientais para uma situação onde ele reduz os impactos ambientais do uso da terra para ter produtos para oferecer para a sociedade”.
(Diário do Pará)
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