Internado há mais de 20 dias no Hospital de Pronto-Socorro Municipal (HPSM) Humberto Maradei, no Guamá, a espera de Luiz Otávio Monteiro da Silva, 54 anos, é vivenciada há poucos metros da entrada da rua.
Deitado sobre a maca acomodada no corredor de uma área de trânsito de pacientes e enfermeiros, o paciente sofria com as dores provocadas pela úlcera no estômago, enquanto sua condição podia ser vista, na manhã da última terça-feira, por qualquer pessoa que andasse pela Passagem Onze Bandeirinhas, onde fica uma das portas laterais que dão acesso ao hospital. “Desde que chegou ele tá num lugar desse exposto aí”.
Preocupado com a condição de saúde do irmão, Jorge Luiz Monteiro expressa em palavras a total falta de estrutura que fica nítida, logo à primeira vista, até mesmo por quem está do lado de fora.
Sem que seja necessário entrar no hospital, da rua é possível ver sem esforço a condição do homem encolhido sobre a maca instalada no corredor. Enquanto tenta descansar, passam ao lado do paciente pessoas com produtos de limpeza, remédios, alimento. “Quer ver de noite que passam até com lixo por aqui. Eu penso que o certo era ter um leito pro paciente”, explica Jorge Luiz.
Suficiente para sensibilizar qualquer um, o olhar mais atento por entre a grade deixa ver que a mesma situação é compartilhada por pelo menos mais dois pacientes. Sem qualquer privacidade quanto à situação vivenciada dentro do hospital público, Luiz Otávio não estava sozinho. “Meu marido está aí nesse corredor também. A maca dele é aquela alí”, aponta, do lado de fora, Raimunda Lima.
À espera que um funcionário aparecesse para abrir a grade e lhe deixar voltar para o lado do marido, a mulher explicou que a saída foi necessária para pudesse comprar água mineral. “A água daí tem um gosto ruim. Eu prefiro comprar mineral mesmo”.
Acompanhando o marido internado em uma maca no mesmo corredor que Luiz Otávio, Raimunda não esconde que, depois de já ter vivenciado situação parecida outras vezes, já encara com certa naturalidade as condições nada adequadas do atendimento. “Isso aqui já é praxe, gente internada no corredor. O dia que não tiver isso nesse Pronto-Socorro eu vou até estranhar”, considera.
ENTRADA
Da entrada principal do PSM, agora pela Passagem São Miguel, a situação vivenciada pela grande quantidade de pacientes que entravam e saíam na manhã da última terça-feira não é nada diferente. Ditas por quem deixava o hospital, a expressão usada para descrever o cenário presenciado das portas de ferro para dentro era quase sempre a mesma. “Está um caos!”, indignava-se a cabeleireira Elizabeth Paes, 64 anos. “Tá tão cheio que desse jeito a gente só ia conseguir ser atendido lá pro final da tarde”.
Acompanhando o marido que se queixava de dores na mão visivelmente inchada, Elizabeth acabou desistindo do atendimento diante da grande quantidade de pessoas que aguardavam do lado de dentro do hospital de pronto atendimento. “Diante dessa situação aí, a gente desistiu. Vamos voltar pra casa sem ter visto o médico, sem remédio, sem nada”, constatava. “Isso aqui tá um absurdo. Não dá pra entender essa situação”.
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(Diário do Pará)
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