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Ver-o- Peso: muito mais que um local de trabalho

Apresentado aos 14 anos às peculiaridades da feira que é considerada a maior a céu aberto da América Latina, aos 64 anos a vida do vendedor José de Ribamar Monteiro se desenrola debaixo das tendas do Ver-o-Peso. Com a rotina mantida no ponto turístico já

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Apresentado aos 14 anos às peculiaridades da feira que é considerada a maior a céu aberto da América Latina, aos 64 anos a vida do vendedor José de Ribamar Monteiro se desenrola debaixo das tendas do Ver-o-Peso.

Com a rotina mantida no ponto turístico já há 50 anos, foi da venda de sacos para peixe que o autônomo criou e formou a única filha em bioquímica. “Tudo que eu tenho tirei daqui. A gente tem é que comemorar esse aniversário”.

No aniversário do Ver-o-Peso, a história do local se mistura à de tantos que têm o espaço não apenas como um simples local de trabalho, mas também como cenário da própria vida. Protegido do sol apenas pelo chapéu que mantém sempre na cabeça, José de Ribamar rememora o cenário visto anos atrás.

Inaugurado em 27 de março de 1627, foram muitas as mudanças que ajudaram a compor o mercado, parte delas presenciadas com orgulho pelo vendedor.

“Essa parte aqui vendia garapa e pra lá pra aquele pedaço vendia planta, essas coisas. Na época do cruzeiro, isso aqui era cheio, a venda era muito boa”, aponta, como se revivesse o mesmo cenário da adolescência.

“Na época da maré alta, isso enchia tudo. A água ia subindo por debaixo. As barracas ficavam todas dentro d’água, quando dava aquelas marés grandes mesmo. Agora não mais, mudou”.

Envolvido pela agitação do Ver-o-Peso desde as 6h30, ao mesmo tempo em que garantia o sustento da família, José de Ribamar ajudava a manter viva uma das tradições mais conhecidas do grande mercado.

Com preços variando de acordo com o tamanho, o cliente que compra peixe sempre encontra as sacolas do vendedor à disposição para levar a aquisição para casa.

“Sempre trabalhei vendendo saco, é uma tradição que muita gente mantém. Foi com isso que eu trabalhei e criei minha filha. Ela é servidora pública, formada em bioquímica e tá fazendo pós-graduação em perícia criminal”, orgulha-se, considerando a educação da filha a principal conquista proporcionada pelo trabalho no mercado.

Junto com os cinco filhos e netos, Conceição Silva vende açaí na feira do Ver-o-Peso (Foto: Fernando Araújo)

HISTÓRIAS

À medida que se adentra a feira que chega a ocupar 30 mil metros quadrados de área, histórias como a de José de Ribamar apenas se multiplicam.

Empenhado na missão de produzir o tradicional tucupi que compõe muitas das comidas típicas do Estado, Rui Francisco Paes já cultiva uma relação de quase 40 anos com o famoso mercado.

“Eu comecei vendendo frutas, já fui carregador de camelô, já vendi bombons, mas aí levaram tudo que eu tinha”, recorda, destacando que, apesar das dificuldades, nunca abandonou o local de trabalho.

“Como eu tinha amigos, fiquei por aqui e fui ganhando a vida. Cheguei aqui com 11 anos e já estou para fazer 50”.

Também fazendo questão de destacar que do mercado conseguiu garantir a criação dos três filhos, o autônomo esperava ver o Ver-o-Peso mais valorizado não apenas no dia de seu aniversário.

“Falta uma organização melhor, precisa de uma reforma. Tinham que dar oportunidade para quem quer trabalhar”, disse. “Eu vivi boa parte da minha vida aqui e ainda vivo. Criei meus três filhos com o trabalho daqui, hoje eles estão adultos e donos da própria vida”.

Dos cinco filhos criados, a autônoma Maria da Conceição Silva compartilha a companhia de todos no trabalho desenvolvido desde 1988 na área do mercado que abriga a parte de refeições. Até que chegasse a vender o tradicional açaí com peixe no mercado, foi necessário que ela percorresse um longo caminho.

“Eu comecei aqui no Ver-o-Peso como carapirá (como são chamadas as pessoas que catam frutas e verduras descartadas, mas em boa condição), já vendi fruta e hoje trabalho com a venda de açaí com peixe frito, refeição”, afirmou, tendo o próprio Ver-o-Peso como principal testemunha de sua história. “Todos os meus filhos trabalham aqui comigo e mais quatro netos também”.

Do negócio cuidado em família, outra tradição se mantém viva no mercado de 388 anos. “Não tem hora pra tomar o açaí com peixe do Ver-o-Peso. O pessoal chega aqui e pede, tanto faz ser de manhã ou de noite”.

(Diário do Pará)

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