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Parentes de vítimas de chacina vivem com medo

Basta mencionar os fatos que mancharam de sangue algumas ruas da Terra Firme nos dias 4 e 5 de novembro de 2014 para a conversa emudecer. Os olhos se arregalam, as expressões dão lugar à preocupação e o assunto é encerrado antes mesmo de iniciar. Envolven

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Basta mencionar os fatos que mancharam de sangue algumas ruas da Terra Firme nos dias 4 e 5 de novembro de 2014 para a conversa emudecer. Os olhos se arregalam, as expressões dão lugar à preocupação e o assunto é encerrado antes mesmo de iniciar. Envolvendo outros três bairros da capital paraense, o terror provocado pela onda de assassinatos que resultou na morte de um cabo da Polícia Militar e dez jovens ainda percorre, sete meses depois, as ruas da periferia de Belém.

Diferente da movimentação intensa das demais ruas do bairro da Terra Firme, na estreita rua Andiroba - onde um dos jovens foi assassinado na frente de casa por homens encapuzados que chegaram no início da madrugada do dia 5 - o clima de tensão pode ser percebido sempre que qualquer pessoa estranha se aproxima. Em constante alerta, todos mantêm gravada na memória a sucessão de mortes em vários pontos da cidade. Não há, porém, quem tenha coragem de passar qualquer informação sobre o assunto. “A gente vive numa situação de violência constante, mas tem até medo de falar porque acontece tanta coisa...”, pondera uma moradora da rua, visivelmente preocupada com o rumo da conversa. “Aqui nessa rua morava uma das vítimas desse caso. Na época, a família dele recebeu a imprensa, conversou, mas hoje até a família tem medo de falar qualquer coisa sobre isso, imagina a gente...”.

Sem saber em que condições se encontra hoje o inquérito que investiga as responsabilidades sobre os assassinatos ocorridos há praticamente sete meses, pelas ruas mais movimentadas do bairro, a vida continua frente ao cotidiano agitado por bicicletas, motocicletas e pedestres. Rotina dividida diariamente, porém, com o medo de se tornar a próxima vítima. “Tá péssima a situação!”, é só o que se permite dizer o morador que aguarda o ônibus em uma parada da rua São Domingos, já próximo à fronteira com o bairro do Guamá. “O medo silencia, né?”

Sem deixar de citar os recentes crimes que no período de apenas quatro dias resultaram na morte de dois jovens universitários, um jovem eletricista e uma criança de oito anos em Belém, Antônio – como se identifica o morador de outra rua da Terra Firme – faz questão de reafirmar que, no bairro onde mora, a violência já é companhia constante. “Há muito tempo que a insegurança tá demais aqui. Casos como desses jovens assassinados agora esses dias não são novidade aqui pra gente, infelizmente...”, comenta, até onde o bom senso lhe permite falar sobre o tema. Quando perguntado sobre o caso que ficou conhecido como ‘Chacina da Terra Firme’, a pouca disponibilidade se encerra em uma única frase. “Aqui estamos em situação de salve-se quem puder!”.

Apesar de a maior parte das vítimas identificadas ter sido morta no bairro da Terra Firme, na noite do dia 4 e madrugada do dia 5 de novembro, também foram registrados assassinatos nos bairros do Jurunas, Sideral e Tapanã. Aos 22 anos de idade, Márcio dos Santos Rodrigues foi executado por homens que chegaram de moto ao bairro do Tapanã. Morto por volta das 2h, quase em frente à casa de seus avós, o jovem foi alvejado enquanto voltava de uma pizzaria.

RESPOSTAS

Incansável na difícil missão de exigir punição aos culpados, a mãe de Márcio ainda aguarda por respostas. “A gente segue em busca desse resultado que não chega. A gente não vê punição pros que fizeram isso. Fizeram investigação, mas a gente não vê nada acontecer”, indigna-se Suzana dos Anjos Amaral, abalada pela perda do filho. “Quando a gente cobra da polícia, eles dizem que é uma investigação muito complexa, mas a gente se pergunta então para que serve o serviço de inteligência da polícia?”.

Organizando um protesto que deve cobrar celeridade nas investigações, familiares das vítimas pretendem se unir no próximo dia 4 – quando completam sete meses do ocorrido – em caminhada pelo bairro do Jurunas. “Isso é consequência da omissão do Estado. Quando o Estado falha, a milícia funciona”.

Provocada a partir da série de matanças desencadeadas em novembro do ano passado, uma Comissão Parlamentar de Inquérito instalada na Assembleia Legislativa do Estado do Pará apurou a existência de milícias no Pará. Divulgado no dia 30 de janeiro de 2015, o relatório da CPI reconheceu a existência de pelo menos quatro grupos de extermínio no Estado.

(Diário do Pará)

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