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Traumas da violência ficam para o resto da vida

A violência que se tornou um problema crônico no Pará passou por mais uma de suas crises agudas na semana passada, quando a Região Metropolitana se tornou uma espécie de campo de guerra com mais de duas dezenas de vítimas em apenas três dias. Entre os ca

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A violência que se tornou um problema crônico no Pará passou por mais uma de suas crises agudas na semana passada, quando a Região Metropolitana se tornou uma espécie de campo de guerra com mais de duas dezenas de vítimas em apenas três dias.

Entre os casos registrados, o menina Ana Caroline Siqueira, 8 anos, morta em uma festa de aniversário durante uma troca de tiros entre um policial e assaltantes. No sábado, 23, o estudante de Fisioterapia Lucas Costa foi morto durante assalto ao ônibus em que viajava com colegas da faculdade.

Na segunda, 25, outro Lucas foi vítima. Desta vez, o também estudante Lucas Batulevicius Pereira Menezes foi encontrado morto dentro do carro na avenida Centenário.

A sucessão de casos aumentou o medo da população, mudou rotinas, foi amplificada nas redes sociais e fez crescer o tom das cobranças ao governo, acusado de se manter inerte diante dos índices alarmantes da violência em Belém.

“É preciso reagir. Quando ocorrem casos isolados, as pessoas parecem não enxergar, mas, quando acontece assim, todo dia um, a população arregala os olhos”, diz a bancária aposentada Iranilde Russo.

Ela mesma é guardiã de dolorosas lembranças da violência em Belém. Há seis anos, Iranilde perdeu o filho Gustavo Russo, assassinado durante uma troca de tiros entre policiais e assaltantes.

Marcada pela dor, a aposentada se tornou uma militante antiviolência. Foi uma das fundadoras do “Movimento Pela Vida (Movida), que ajuda famílias das vítimas a acompanhar os casos na Justiça e funciona como um grupo de apoio. “A nossa vida nunca mais será a mesma. A gente vai se recolhendo, mudando os horários, passa a se sentir preso”, diz.

Além de perder o filho, Iranilde foi vítima de quatro assaltos em Belém, o último há cerca de um mês. “Levaram meu carro, meus pertences. A gente não se recupera”, afirma.

MEDO BATE À PORTA

A dona de casa LMS evita se identificar, tem medo de sair à noite de casa e fica em pânico toda vez que o telefone toca. “Tenho medo de ter acontecido algo com meus filhos”, diz. O medo se instalou na vida dela depois ter a casa invadida e ficar várias horas sob a mira de um revólver.

Recém-casados, o bancário Elmar Roque Costa e a estudante Taiany curtiam o que pensavam ser apenas uma noite tranquila de Belém. Foram ao cinema e depois aproveitaram para jantar em um restaurante na avenida Doca de Souza Franco.

Na saída, foram abordados por ladrões, jogados no carro e ficaram várias horas em poder dos assaltantes, que queriam ir até a casa do bancário. Após muita conversa e nervosismo, foram abandonados e só dias depois o carro foi encontrado.

Seis meses depois, o casal agradece por ter saído com vida do sequestro que poderia ter consequências mais graves, mas as lembranças daquela noite não serão apagadas.

“Quando alguém chega perto, a gente já considera suspeito. Já não se tem a mesma tranquilidade”, diz Elmar Roque, contando que a mulher evita lugares abertos e ficou com medo de passar pela avenida Doca de Souza Franco, considerado um dos points da noite paraense, mas que para ela remete apenas à violência sofrida na cidade.

Entidades elaboraram carta

Dezesseis entidades da sociedade civil elaboraram, a partir de uma série de debates, uma carta com sugestões para tentar reduzir a violência no Estado. O documento deve ser entregue nesta semana às autoridades do Judiciário, Ministério Público e ao Executivo.

Entre as propostas está, por exemplo, a criação de uma entidade para acompanhar os egressos do sistema penal (chamada de Patronado) para evitar reincidências.

Hoje, os dados oficiais são de que 80% dos egressos voltam a cometer crimes. Outras ações propostas são o fortalecimento da política de educação, melhoria na atenção à saúde de dependentes químicos e a criação e fortalecimento de conselhos de segurança nas comunidades.

No próximo dia 25 de junho, a Ordem dos Advogados realizará nova audiência pública com entidades da sociedade civil para voltar a avaliar o assunto que será também tema de uma sessão especial na Assembleia Legislativa do Pará, ano dia 11 de junho.

“O que está acontecendo é um drama que vem sendo anunciado há muito. O Pará em especial a Região Metropolitana de Belém se tonou território controlado por narcomilícias”, diz o deputado Carlos Bordalo (PT).

Ele presidiu a Comissão Parlamentar de Inquérito que apurou a atuação de milícias no Estado após a chacina de 11 pessoas na madrugada do dia 5 de novembro do ano passado. A maioria dos mortos era formada por jovens da periferia da cidade e até hoje as circunstâncias das mortes não foram plenamente esclarecidas.

Além de Bordalo, o requerimento com pedido da sessão especial na AL foi assinado pelos deputados Iran Lima (PMDB) e Lélio Costa (PC do B).

(Diário do Pará)

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