A violência desenfreada afeta as vítimas, os familiares e altera também toda uma cidade que, sob o signo do medo, muda suas relações pessoais, sua rotina, seu olhar sobre o mundo. Mas é preciso reagir, ocupar os espaços públicos, lutar por políticas sociais, cobrar das autoridades e evitar que o medo nos torne reféns. É o que afirma, nesta entrevista ao DIÁRIO, a psicóloga Rafaele Aquime, do Grupo de Trabalho de Infância e Juventude, do Conselho Regional de Psicologia do Pará.
Ela ressalta: é preciso estar atento para as reações emocionais causadas por casos como da menina Ana Carolina Siqueira, assassinada durante uma troca de tiros, dentro de um bufê infantil. A cena chocante foi presenciada por adultos e crianças.
“Depois de um caso assim, é normal a pessoa querer ficar mais recolhida, mas isso não pode levar a um isolamento total”, diz a psicóloga.
Para ela, longe de tornar os cidadãos prisioneiros na sua própria cidade, os casos trágicos registrados nos últimos dias na Região Metropolitana de Belém devem servir de combustível para uma reação da sociedade contra a omissão do Estado no combate à violência - e por uma cultura de paz. Confira:
Diário do Pará: Do ponto de vista emocional, que consequências esses casos gritantes de violência, como a morte de uma menina em uma festa de aniversário, podem ter para os cidadãos do Pará?
Rafaele Aquime: É uma situação muito complicada. Pessoas que passam por essas situações podem desenvolver - dependendo do estado emocional em que a pessoa se encontra, da vida dela, do seu histórico de vida - estresse pós-traumático. Podem desenvolver transtorno do pânico, medo até de sair de casa, tudo isso por conta dos acontecimentos. A violência impacta não só na vítima, mas na família da vítima e da população, que acaba sentindo esse medo produzido pelas situações de violência recorrente. É um impacto muito grande na vida da pessoa, no social, no âmbito familiar.
Diário do Pará: No caso das crianças, deve haver alguma atenção especial?
Rafaele Aquime: A infância é uma fase muito peculiar. É nessa fase que a pessoa está desenvolvendo sua autoestima, sua autoconfiança, fazendo acordos sociais, relações sociais, descobrindo o mundo. É uma fase que a gente pode considerar diferenciada das outras. Um trauma é diferente para cada pessoa. Cada um vai reagir diferentemente, porque é uma subjetividade diferente, é um modo de subjetivação diferente que é produzido para cada pessoa. Mas podemos destacar que, na infância, é preciso um alerta um pouco especial nesse sentido, porque estão se desenvolvendo todas essas questões sociais, emocionais, na família, de estar descobrindo um pouco essas relações. E isso pode impactar de uma forma especial.
Diário do Pará: A que sinais os pais têm que ficar atentos no sentido de observar se a criança precisa de ajuda mais especializada?
Rafaele Aquime: É importante ficar bem atento para as relações que a criança mantém. Se você percebe que ela está tendo um comportamento diferente do que tinha, é importante ficar alerta. O medo um pouco excessivo de ir para a escola, de brincar com outras crianças, já pode ser um alerta de que algo está errado. Medo excessivo de sair de casa, de interagir com outras crianças, desejo de ficar um pouco isolada, ficar mais retraída. Esses são fatores que, se não foram observados antes no repertório comportamental da criança, devem ser levados em conta. É preciso buscar dialogar com essa criança, buscar compreender por que ela está assim, buscar ver na escola como é que está esse comportamento.
Diário do Pará: E no caso dos adultos? Que consequências a exposição à violência pode trazer à vida das pessoas? A gente ouve relatos de pessoas que deixaram de sair de casa em determinados horários, mudaram as rotinas...
Rafaele Aquime: É importante deixar claro para as pessoas que essas são situações de tragédias que não podem levar a isolamento total. É compreensível esse medo, essa vontade de ficar mais em casa, de repente se sentir inseguro por ter presenciado ou ter ouvindo notícias de violência, mas isso não pode ser algo que restrinja toda essa convivência social. É importante desenvolver o autocontrole. E a insegurança existe, é uma realidade, mas isso não pode impedir a nossa convivência social, pelo contrário: deve ocupar os espaços públicos, discutir essas questões, e não ficar apenas recebendo as informações. Devemos reagir. Devemos cobrar políticas públicas de segurança, vamos discutir a segurança pública. De que modo eu posso pressionar o Estado? Precisamos ter uma postura um pouco mais crítica em relação a essa realidade e realmente ter um compromisso político e social mais focado, nesse sentido.
Diário do Pará: Há pessoas que afirmam que a sociedade só reage quando a violência atinge a classe média porque todos os dias morrem jovens pobres da periferia e os casos não causam tanta comoção. Como a senhora avalia essa crítica?
Rafaele Aquime: A gente está acostumado a ver essas notícias da morte de jovens - alguns envolvidos com tráfico – e parece que a gente já se acostumou a isso e não se indigna tanto. Quando se vê um jovem de classe média que estava estudando, que estava passando ali na avenida, que recebeu um tiro parece que a gente se indigna mais. É como se houvesse uma seleção. A gente precisa se indignar. Todos os dias a gente tem vários casos de homicídios no nosso Estado. São dados alarmantes e há uma criminalização da juventude pobre, negra, da periferia, que tem seus direitos mínimos violados e a gente acaba não se indignando. A sociedade paraense precisa discutir isso. É preciso haver políticas públicas para essa juventude que é muito mais vitimada e, muitas vezes, a gente não dá a devida atenção.
Diário do Pará: Corremos o risco de ter uma geração inteira traumatizada pela violência destes tempos?
Rafaele Aquime: Estamos tendo cada vez mais crianças, adolescentes e jovens crescendo na linha de pobreza e vivenciando essas graves violações de direito. Sem educação, saúde, moradia digna, falta de saneamento básico. E a gente depois quer discutir de uma forma muito meritocrática porque esses jovens não estão inseridos no mercado de trabalho. Como uma pessoa que não tem uma educação de qualidade vai ter acesso a um emprego? É toda uma questão que está encadeada. Lá na frente, teremos jovens com dificuldade muito grande de ser inserido no mercado de trabalho, que está cada vez mais competitivo e exige gente cada vez mais qualificada. Às vezes, sem saída, a pessoa acaba buscando o tráfico de drogas. A gente vai ter a questão da ilegalidade muito presente nisso.
Diário do Pará: Os jovens da classe média, que não enfrentam esse problema da falta de condições diretamente, e que moram em condomínios fechados, não estão imunes às consequências dessa realidade...
Rafaele Aquime: A segurança de quem está nos condomínios fechados é um pouco ilusória. Existe uma rede de proteção maior para esss jovens, mas as consequências da omissão do Estado atingem a todos. Gera uma revolta muito grande ver o Estado não dando conta de discutir essas questões, de discutir segurança pública e outros direitos que estão atravessados. Então, a gente vê jovens que vão ter a convivência social cada vez mais restrita e muita gente acreditando que não tem mais jeito. Parece que a gente está entregue a essa insegurança, a esses casos de violência. Está refém disso, e a gente não pode fazer nada para contrapor e isso não é verdade. É preciso agir.
Diário do Pará: A cidade se tornou um lugar hostil?
Rafaele Aquime: Sim. E fica parecendo, por essa produção da violência, que não há alternativa para superá-la. A minha preocupação é justamente com esse sentimento de incapacidade, de pensar que não há o que fazer. É o contrário. A partir desses casos, a gente tem que pensar formas de enfrentamento da violência, de prevenção e se articular para reagir.
(Diário do Pará)
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