Com apenas um ano e três meses de vida, um bebê internado com cardiopatia congênita já passou pelo cateterismo, mas ainda está à espera de um novo procedimento que já estava marcado, mas não foi realizado. A mãe, que não quis se identificar com receio de alguma retaliação que possa comprometer o atendimento, contou à reportagem que o filho está gripado porque o aparelho de ar condicionado não funciona.
“O ar condicionado opera a 220 v, mas a tomada é para 110 v. O problema é que, sem o equipamento, as crianças ficam com muito calor e não conseguem dormir à noite: choram e ficam muito agoniadas com o suor. As telas das janelas estão furadas e à noite os carapanãs invadem o quarto. É o único hospital que possui referência neste tipo de tratamento, mas a estrutura é deficiente. Não tem a estrutura adequada para funcionar e atender pacientes cardiopatas”, disse a mãe.
Depois de 25 dias na enfermaria, Jociele Cristine Silva Vasconcelos, de 9 meses, que tem síndrome de down e foi internada com cardiopatia congênita, está na UTI, após ter passado pelo cateterismo e por uma cirurgia de correção. O pai, Joab Vasconcelos, 29 anos, disse, no entanto, que só conseguiu a realização dos procedimentos depois de muita insistência e de muita briga com o hospital.
“Aqui, os bebês chegam bem porque não podem ser internados com alguma doença viral. Mas é só chegar e gripam. Depois de ouvir a mãe dela dizer como era à noite, testemunhei o sofrimento que as crianças passam com o calor. Para mim, é irônico ver os médicos e enfermeiros em salas com ar condicionado, enquanto as crianças passam mal com o calor em excesso”, disse Joab. Depois de sair da UTI, não havendo nenhuma intercorrência, Jociele deverá ter alta e então poderá usufruir de sala com central de ar, segundo Joab.
DENÚNCIAS
As denúncias foram constatadas pelo DIÁRIO a partir de imagens feitas por parentes de pacientes na última semana e enviadas à redação. Nas fotografias aparecem uma acompanhante abanando uma criança deitada em uma cama, fiação exposta em outra sala, as camas com estrutura de ferro enferrujadas, lajotas e torneiras quebradas no banheiro. As gavetas são forradas com papelão porque não possuem fundo, destruídas por traça e mofo.
A mãe da criança disse que a alimentação é precária. “Os pediatras dizem pra gente seguir uma dieta rigorosa, mas aqui não é assim que funciona. Até caramujo já foi encontrado na comida de um dos acompanhantes. O meu filho não comia nada adoçado e já veio suco de caixa adocicado. Quando falei com a nutricionista, ela justificou dizendo que a comida é terceirizada”.
Em nota, a direção da Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna afirma que é a única instituição de saúde no Pará a realizar cirurgia cardíaca em crianças pequenas e que, nos últimos 5 anos, duplicou o número de procedimentos de cirurgias cardíacas realizadas e que a demanda continua bem superior à capacidade de realização de procedimentos.
Sobre a instalação dos aparelhos de ar condicionado, a direção diz que está sendo feita dentro de programação elaborada pela engenharia hospitalar, uma vez que as obras para a troca da fiação estão sendo realizadas com os pacientes dentro dos ambientes. Por esse motivo, segundo a direção em nota enviada pela assessoria de imprensa, em alguns pontos a troca da referida fiação pode levar mais tempo para ser concluída do que em outros. Foi informado ainda ao DIÁRIO que a alimentação servida aos pacientes e servidores do hospital é fornecida por empresa terceirizada e que fará a apuração de qualquer irregularidade detectada.
(Diário do Pará)
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