Além dos gastos básicos com alimentação, energia elétrica, abastecimento de água e medicamentos, o orçamento da dona de casa Teli Marques, de 81 anos, ainda tem que comportar o custo de R$50 mensais com a compra de água mineral. Ainda que pese no bolso, o gasto extra é indispensável para manter o consumo das quatro pessoas que vivem na casa dela, no bairro do Curió-Utinga, em Belém. “Essa água que chega na torneira não dá pra beber de jeito nenhum”, reclama.
Instalado na cozinha e sempre à mão quando se precisa cozinhar ou beber, o galão de água comprado por Teli Marques dura apenas 3 dias. É que, diante da qualidade duvidosa da água que chega às torneiras, ela usa a mineral para quase tudo dentro de casa. E mesmo com o orçamento apertado, ela não abre mão de comprar água mineral engarrafada. “A água da torneira é ruim até para lavar roupa, porque vem amarela. Imagina para beber” diz, lembrando que, de vez em quando, a família ainda enfrenta problemas com a falta de abastecimento. “Tem meses que a gente fica sem dinheiro pra comprar, porque ainda tem muito gasto com remédio para o meu marido. Nesses casos, a minha filha ajuda”.
A dona de casa, Edineide Moraes, 31, também tem receio de consumir a água que chega até o bairro da Pedreira. Nos dias em que o líquido que chega às torneiras está muito sujo ela afirma que fica impossível utilizar para beber ou cozinhar. “Às vezes, não tem condição. Nem colocando cloro (hipoclorito de sódio) dá pra beber”, conta. “A gente acaba comprando água mineral. Gasto R$4 por galão, mas não tomo da torneira de jeito nenhum”.
Mas há quem se dê bem com a péssima qualidade da água oferecida pela Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa). Proprietário de um depósito de bebidas há apenas um mês, o autônomo Vicente Barbosa, 32 anos, chega a vender de 40 a 45 galões de água mineral por semana, nas proximidades do bairro do Marco. “A procura por água mineral tem crescido muito”, comemora”.
COSANPA
Questionada se a água disponibilizada nas torneiras dos paraenses é própria para o consumo, a Cosanpa respondeu, em nota, que “de acordo com o monitoramento realizado no laboratório de ETA Bolonha, com frequência de duas em duas horas, na saída do tratamento (Port. 2914/2011-MS – Anexo I e VII), a água atende plenamente a padrão de potabilidade. A mesma nota, no entanto, acrescenta que, nas redes de distribuição, podem ocorrer inconformidades nas amostragens pontuais, nas proximidades dos vazamentos, ligações clandestinas, adutoras muito antigas, principalmente após interrupções de fornecimento de água, devido à pressão negativa gerada durante as interrupções.
Ainda em relação ao tratamento, a nota informa que “existe o tratamento convencional para as águas de mananciais superficiais, envolvendo a coagulação, floculação, decantação e adição de produtos químicos como cloro e flúor. Para as águas de mananciais subterrâneos, segundo a companhia, “é feita aeração, filtração e também adição de produtos químicos, entre eles cloro e flúor”. A nota diz, ainda, que a Cosanpa faz, diariamente, coletas em pontos da rede, para monitorar a qualidade na distribuição, e retira vazamentos que são potenciais pontos de contaminação da água.
ÁGUA MINERAL TAMBÉM SOB SUSPEITA
A água mineral, porém, também está sob suspeita, uma vez que o Ministério Público Federal (MPF) abriu inquérito civil e pediu à Universidade Federal do Pará (UFPA) cópias do estudo divulgado pela imprensa paraense que aponta que a água engarrafada comercializada no Pará não seria própria para o consumo.
Segundo o levantamento do laboratório de hidroquímica da UFPA, as sete empresas que comercializam água engarrafada no Pará não respeitam os níveis máximos de acidez recomendados pelo Ministério da Saúde.
Pela lei, a água só é mineral quando possui características físico-químicas especiais e consequente ação medicamentosa. E as marcas de água industrializadas do Pará se enquadram na classificação de água potável de mesa, sem qualquer diferencial terapêutico, segundo o MPF.
(Diário do Pará)
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