Tarde da última sexta-feira (24). Uma chuva torrencial desaba sobre Belém. Na passagem São Miguel, no bairro do Guamá, pacientes em busca de atendimento batem na porta de ferro pintada de amarelo que dá acesso a uma pequena sala. Estou entre eles. O que deveria ser a área de triagem do Pronto-Socorro Municipal (PSM) do Guamá se tornou uma enfermaria improvisada e sala de observação para pacientes já medicados. Nessa antessala para o caos, moradores de vários bairros da cidade chegam em busca de atendimento. Desde o dia 25 de junho, quando um incêndio atingiu o PSM da 14 - o maior pronto-socorro da capital-, o pequeno hospital do Guamá se tornou o principal destino de quem está em situação de urgência e emergência em Belém.
Na última sexta-feira, eu e o repórter fotográfico Marcelo Lelis entramos no local para ver e sentir o que realmente acontece aqui. A experiência é chocante, mesmo para quem está acostumado a imagens mais fortes.
CONFIRA O VÍDEO COM OS FLAGRANTES DOS HORRORES NO PSM DO GUAMÁ:
Na porta, um funcionário faz o controle de quem entra e sai. Indaga qual o problema e encaminha os pacientes a uma atendente que mede a pressão e a temperatura, lá mesmo, na entrada, em meio aos outros pacientes, sem qualquer privacidade. Tudo é muito rápido. Tão rápido que indica um sério problema. No afã de se livrarem dos pacientes, os atendentes passam os doentes para frente, como se estivessem na linha de montagem de uma fábrica, sem o menor cuidado ao indivíduo. Comigo, foi assim. Falei que estava passando mal, com dores e garganta inflamada. O exame foi rápido e a atendente simpática me mandou tomar duas injeções em uma sala de paredes encardidas. Sem o PSM da 14 para atender à população, a saúde na Região Metropolitana de Belém (RMB) virou um tormento ainda pior do que já era.
CENÁRIO DE GUERRA
No Pronto-Socorro do Guamá, me senti num cenário de guerra, marcado pelo descaso e improvisação. Aqui, o ser humano pertence a qualquer outro gênero, menos ao gênero humano. Em uma cadeira enferrujada, uma mulher idosa geme baixinho, como que implorando por uma atenção que não vem.
Nenhum enfermeiro, médico ou atendente aparece para ajudá-la. Ao lado dela, um homem toma soro ligado a um tubo de oxigênio. E tudo isso em meio ao entra e sai de pessoas, muitas vozes, barulho incessante. Num ambiente como esse, alguém só volta para casa curado por milagre. Perto de mim, oito pacientes que deveriam estar internados ocupam macas amontoadas num corredor. Homens e mulheres tomam soros sentados nas cadeiras forradas com plástico que deveriam ser usadas por pacientes à espera de atendimento.
Há todo o tipo de doente. Uma mulher cortou o pé. O pai de outra está com problemas renais e toma soro numa cadeira. A sala está sempre lotada. Vejo quando um paciente chega em uma cadeira de rodas. É um homem na casa dos 50 anos. Ele parece fraco, sem forças sequer para se levantar. A mulher que o conduz pede que o levem a uma cama. “Não temos camas e nem macas”, responde, o atendente. Funcionários usando máscaras vão em busca de um colchão para tentar abrigar o coitado. Forrado de plástico azul, o colchão encontrado está rasgado. Mas, no meio daquele inferno, parece um presente dos céus.
PACIENTES NA CHUVA
Quando penso que a situação não pode ficar ainda pior, começo a andar pelos corredores. O que já era horroroso ficou muito mais terrível. Em vez de servir como lugar de passagem, os corredores do PSM do Guamá se transformaram em enfermarias de urgência e emergência. Dos dois lados, há macas ocupadas por pacientes com os mais diferentes tipos de doença. Percebo o fotógrafo Marcelo Lelis filmando um senhor de 1,70 metro de altura e magro - não mais de 60 quilos. A cena é deprimente. Cabelos brancos e curativo de esparadrapo no nariz afilado, ele está em pé, no meio do corredor. Tem uma agulha de soro no braço esquerdo e, com a mão direita, segura o soro o mais alto que consegue. Sozinho.
Mais triste ainda, só a cena que vejo no trecho de um corredor descoberto, que não tem parede e se comunica com uma espécie de jardim. A chuva torrencial que cai sobre Belém em pleno verão amazônico piora tudo. Há pacientes sendo lavados pelas águas que caem do céu. Ademar Nunes é um deles. Aos 67 anos, passa por uma transfusão de sangue na área aberta. Parte da sua cama molhou com a chuva e ele preferiu ficar sentado. Conta que já está neste mesmo corredor há dois dias.
Ao lado dele, Raimundo Guedes, 70, tenta se curar de uma pneumonia. Exposto ao vento forte e ao chuvisco, vai ser difícil. Ele chegou ao Guamá um dia antes da minha visita ao hospital. Foi atendido na sala de espera, sentado numa cadeira, até a madrugada desta sexta-feira, quando uma maca foi liberada e ele pôde, enfim, ir para o corredor aberto. Diante de todo o inferno que já viu e passou aqui dentro, ficou satisfeito. Dos males, o menor. Volto para casa pensativa. Essa gente não merece passar por tanta dor, sofrimento e humilhação. Eles não querem luxo, conforto extremo, nada disso. Só querem ter um atendimento médico decente e digno. E eles merecem.
(Diário do Pará)
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