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Incêndio em casarões poderia ter sido evitado

O incêndio que tomou conta de três imóveis tombados pelo Patrimônio Histórico no coração do Centro Comercial de Belém, na madrugada do último dia 23, trouxe novamente à tona a temática do abandono dos prédios históricos da capital. E tudo isso às vésperas

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O incêndio que tomou conta de três imóveis tombados pelo Patrimônio Histórico no coração do Centro Comercial de Belém, na madrugada do último dia 23, trouxe novamente à tona a temática do abandono dos prédios históricos da capital. E tudo isso às vésperas dos 400 anos da cidade. Na iminência de um aniversário tão redondo e significativo, Belém vê sua memória ruir, seja pelo fogo, pelo desabamento ou simplesmente pelo descaso dos governantes.

Para estudar o recente episódio do incêndio, foi acionado o Laboratório de Conservação, Restauração e Reabilitação da Universidade Federal do Pará (Lacore), que este mês deve encaminhar aos órgãos competentes um relatório indicando tudo o que foi encontrado em meio aos escombros, o que pode ser restaurado e o que não sofreu danos. A arquiteta Thais Sanjad, que coordena o trabalho pelo Lacore, adianta que muita coisa já foi encontrada, mas acena para a necessidade de um plano de ações que impeçam a ocorrência de situações como essa novamente. “Precisamos entender nossas especificidades e, de forma conjunta, elaborar um plano amplo e de longo prazo para mudar essa situação”, avalia. Confira a entrevista:

Diário do Pará: Qual o trabalho do Lacore nesse momento?

Thais Sanjad: Encaminhamos os escombros para a UFPA, em acordo com o proprietário, em função de um pedido da Defesa Civil e também dos órgãos de conservação que acompanharam o caso. A partir daí, foi formada uma equipe de alunos e professores do próprio Lacore. Estamos separando materiais que ainda podem ser recuperados daquilo que não pode. É uma triagem.

Diário do Pará: Quais as maiores dificuldades nesse processo?

Thais Sanjad: Para começar, é muito material. Além disso, não há muito tempo. A UFPA cedeu espaços que serão ocupados em breve. O tempo é a principal dificuldade.

Diário do Pará: Uma situação como esse incêndio no Comércio poderia ser evitada? Foi descuido?

Thais Sanjad: Nesse caso, em especial, havia proposta de reabilitação desses prédios. Isso chegou a ser aprovado. Foram dados os encaminhamentos. Todo o processo que já estava em andamento foi revertido. Isso é muito triste, porque esse incêndio poderia ter sido evitado. Isso é o que dói mais: pensar que poderiam ter dado um outro rumo a essa história.

Diário do Pará: O que esse incidente significa para o conjunto do patrimônio histórico da cidade? Que perda é essa?

Thais Sanjad: Aquela área tem importantes acervos arquitetônicos. São prédios do Centro Histórico, principalmente do bairro do Comércio, que tinha seus vãos, no pavimento térreo, preservados. Um deles era uma edificação de três pavimentos, de difícil construção para a época, com tecnologia própria.

Diário do Pará: Eram tombados?

Thais Sanjad: Sim, em nível federal e municipal. Era de um sistema construtivo muito interessante para a época em que foram construídos: fim do século XIX e início do XX. Tudo isso veio a baixo. É uma grande perda.

Diário do Pará: Com o incêndio, outras construções do entorno também correm riscos?

Thais Sanjad: Existe risco em todo o Centro Histórico. Não é o primeiro caso. É o primeiro caso que eu acompanho de perto, em que fui lá. Foi muito chocante. Mas outros casos existiram antes desse. Quem já trabalha com esse tipo de situação sabe bem o que ocorre depois. É triste ver tudo isso acontecendo com a cidade prestes a completar 400 anos.

Diário do Pará: Por falar nisso... Estamos perto do aniversário de Belém vendo nossa história ruir. Belém é das cidades mais importantes da Amazônia, região muito visada quando o assunto é preservação ambiental. Será que a preservação ao patrimônio arquitetônico está esquecida?

Thais Sanjad: A gente tem um lado ambiental aqui que fala muito mais alto. Mas não é isso que faz com que o resto fique esquecido. Há exemplos como Minas Gerais, onde há a questão ambiental, mas também tem o lado do patrimônio com muita força. Acho que falta um pouco de boa vontade. Falta as pessoas olharem com mais carinho para o patrimônio. Os proprietários reclamam muito da falta de recursos. Precisamos olhar esse lado, dar uma solução. Não adianta só culpar os órgãos de patrimônio ou só culpar os proprietários. Tem de ser uma ação conjunta.

Diário do Pará: O que fazer para evitar que outros incêndios aconteçam nos prédios históricos de Belém?

Thais Sanjad: Não é uma coisa isolada, só um órgão de preservação ou só os proprietários. Todo mundo tem de agir em conjunto. Existem iniciativas anteriores como o projeto Via dos Mercadores, de valorização da João Alfredo. Foi algo conversado com os proprietários, os técnicos dos órgãos de preservação. Esta semana, li um texto de um colega que diz algo muito certo: a sociedade não se apropria de fato do Centro Histórico. Esse é um ponto importante. Enquanto a gente não se conscientizar de que temos de usar esse espaço, as coisas continuarão como estão.

Diário do Pará: Como fazer isso?

Thais Sanjad: Aquela região é um centro comercial. Você sabe quantas pessoas vão lá comprar alguma coisa? Pouquíssimas. Existem pessoas que só vão ao shopping! Precisamos começar a usar o centro comercial também. Não é uma questão de elitizar o Centro Histórico. É questão de ocupar. As pessoas não vão lá por seus motivos, seja por falta de segurança, de estrutura. Há uma série de fatores que precisam ser tratados, não é só a preservação das edificações. É um problema social, econômico, de segurança. Só uma equipe multidisciplinar, discutindo as demandas e preocupações de cada segmento da sociedade, vai reverter isso.

Diário do Pará: Há plano emergencial que precise ser posto em prática para evitar novas situações como o incêndio?

Thais Sanjad: Está havendo um movimento entre lojistas do Centro Histórico nesse sentido. Já é algo interessante, mas precisa ser ampliado e feito junto aos órgãos de preservação. Temos de partir para algo mais amplo e a longo prazo. Não adiantam soluções paliativas, que sempre ocorrem após os sinistros. Está mais que na hora de o Governo Estadual, Federal, Municipal, lojistas, enfim, todos os segmentos da sociedade envolvidos nessa questão se reunirem, buscarem uma solução e implantarem. É preciso também vontade política, querer agir em prol do patrimônio. Não adianta só achar o Centro Histórico lindo e ficar dizendo o que tem de ser feito. Tem de fazer.

Diário do Pará: Quantas pessoas fazem parte da equipe de restauração do Lacore nessa ação?

Thais Sanjad: Somos 16. Chegarão mais técnicos na próxima semana. São alunos e professores de Arquitetura e do curso de Museologia. Conseguimos resgatar uma quantidade enorme de azulejos inteiros. Já é algo que nos mostra que vale a pena. Havia muita coisa preciosa ali. Azulejos históricos do século XIX, de origem belga e francesa, tijolos em L, uma tipologia nossa, e um outro tijolo, de três furos que é uma evolução da tijoleira do século XVIII. Além disso, havia gradis metálicos em ferro fundido, uma rocha que só existe em Lisboa (Portugal). Isso tudo ia ser descartado, mas estava intacto! Aí, vem outra questão: não adianta ter tudo isso guardado, escondido. Tudo isso estava no cotidiano da nossa cidade. É importante que as peças recuperadas tenham um destino semelhante, para que as pessoas possam continuar vendo.

(Diário do Pará)

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