Entre as obras que se arrastam, a do Hospital Oncológico Infantil em Belém é certamente a que melhor retrata o descaso do Estado com a saúde pública.
A unidade começou a ser construída ainda no primeiro mandato de Simão Jatene, na década passada. As obras já duram intermináveis nove anos. Nesse período, foram realizadas duas Copas do Mundo e o trabalho ainda não foi concluído.Agora, a previsão do governo é de que o hospital seja inaugurado em dois meses.
A unidade deve ser administrada por uma Organização Social, a exemplo do que já ocorre com os hospitais regionais. Mesmo após entrar em funcionamento, o hospital deve se tornar um exemplo de como não administrar o dinheiro público.
Documentos obtidos pelo DIÁRIO, em junho deste ano, indicam que o valor do Hospital Oncológico pode ter sido turbinado em mais de R$ 22 milhões. E pior: foram assinados dois contratos simultâneos para a conclusão da obra.
CONTRATOS
Para entender a intrincada história do hospital que já poderia estar salvando vidas há pelo menos meia década, é preciso retornar a 2005, ainda no primeiro mandato de Jatene. Em abril daquele ano, a Secretaria de Obras (Seop) assinou o contrato 05/2005 para a construção de cinco hospitais regionais e também do Centro Oncológico Pediátrico.
O contrato milionário foi destinado ao consórcio formado pelas construtoras Camargo Correa e Schahin. As obras iniciaram em maio de 2005. Nos documentos, é possível verificar que, entre 3 de maio de 2006 e 30 de abril de 2015, o Governo do Estado pagou ao consórcio R$ 47,4 milhões referentes às obras do hospital e apontava que, em abril deste ano, 96% das obras já haviam sido executadas.
MAIS CONTRATOS
O difícil de entender é que, em agosto do ano passado, o Estado assinou contrato com outra empresa, a Círculo Engenharia Ltda, para o mesmo fim: conclusão do hospital. O contrato, de número 118, tem valor de quase R$ 18 milhões e vigência inicial até fevereiro deste ano. Ainda este ano, a Seop pagou à empresa R$ 22,2 milhões.
Resumindo: a obra, que inicialmente custaria R$ 47,4 milhões ao bolso do contribuinte, deve ficar em torno de R$ 70 milhões. O mais estranho é que tudo leva a crer que, durante oito meses, entre agosto de 2014 e abril de 2015, a Seop manteve em vigência dois contratos com o mesmo objetivo.
E nem assim a obra do Hospital Oncológico Infantil foi acelerada. Todos os prazos dados foram ignorados. Ao povo do Pará, resta agora torcer para que, desta vez, o hospital seja finalmente inaugurado.
(Diário do Pará)
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