Home office. Você já ouviu esse termo ou conhece alguém que faz parte desse esquema. Ou também conhece alguém que, mesmo depois do expediente, parece estar sempre de sobreaviso e já sabe que há algo para resolver sempre que o celular toca. Essa ideia de trabalho remoto, aquele que não necessariamente é realizado dentro do escritório ou da sede da empresa, começa a se espalhar em todo o mundo. No Pará, não é diferente. Mas quem entende de gestão de pessoas avisa: é uma realidade, sim, mas não para todo mundo.
“A vida mudou, em todos os aspectos. Nunca mais você vai poder ter aquela vida calma, tranquila, que se tinha antigamente. Tudo em função da velocidade da informação”, avisa Nara Abdon D’Oliveira, diretora da Gestor Consultoria, empresa especializada em gestão organizacional. “Exceto em algumas atividades específicas, o home office não se deu como uma opção. O que está por trás disso tudo é que a forma de trabalho mudou muito com o advento das redes sociais e da facilidade de acessar as redes pelo celular. Com isso, a jornada nunca termina”.
P: O home office já é uma realidade no Brasil?
R: Houve um tempo em que se falou muito nesse assunto. Falavam sobre uma nova modalidade de trabalho, sobre mudança da legislação trabalhista. Na verdade, o home office não se deu como se esperava, um boom. Há alguns segmentos que trabalham com isso, como os representantes comerciais. Há empresas que têm, no Brasil, um presidente: é ele, o e-mail, a página da empresa na internet, em uma rede social ou outra, telefone, o notebook, e essa representação. Nada mais. O home office não se deu como uma opção.
P: Como assim?
R: Eu me lembro que havia uma empresa, uma multinacional paulistana, que fez o seguinte: os diretores e gerentes estratégicos tinham um dia para trabalhar em casa. Podiam ficar de pijama e chinelão, na frente do computador o dia inteiro. Mas isso não vingou, porque algumas pessoas precisam estar com suas equipes, com seus clientes internos, fornecedores. Hoje, passado o boom, o home office é uma realidade, como já o era no passado, para alguns casos específicos. Para aquelas pessoas que representam área comercial de uma empresa em um determinado estado, certamente há outras modalidades, digamos assim, mas não é expressivo. Mas o que está por trás de tudo isso é que a forma de trabalho mudou muito com o advento das redes sociais e da facilidade de acessar as redes pelo celular. Acaba que a jornada nunca termina. O Whatsapp é um bom exemplo. Como é algo que o outro lê quando tem maior disponibilidade, você está acabando a jornada do dia e pensa: ‘Quando essa pessoa puder, ela lê e responde’. Só que as pessoas respondem quase que imediatamente. Eu canso de receber e-mail às 3h da manhã. Às 7h da manhã, o meu Whatsapp começa a apitar. Todo mundo se aprontando e já está resolvendo as coisas do dia, antes mesmo de começar a primeira reunião.
P: Para o empregado, isso é bom ou é ruim?
R: A vida mudou, em todos os aspectos. Nunca mais, você vai ter aquela vida calma, tranquila, que se tinha antigamente. Tudo em função da velocidade da informação. O mundo tem um outro ritmo. Sabe o Mauá, o imperador [Irineu Evangelista de Sousa, o Visconde de Mauá, falecido em 1889]? Há um livro que conta a vida dele. Logo no primeiro capítulo, fala que ele era casado com uma sobrinha, morava em uma casa em que ele via, do próprio jardim, o palácio do imperador. Ele passava as madrugadas sob luz de velas, escrevendo cartas, se correspondendo. Naquela época, ele era um empresário global. Tinha negócios com o mundo inteiro. Imagina quanto tempo uma negociação durava. Ele escrevia cartas do Rio de Janeiro para a Europa. Eram 3 meses para chegar e mais 3 para voltar. Hoje, tudo é feito em uma manhã, graças a e-mail e Whatsapp.
P: Como lidar com isso?
R: Hoje, eu cheguei para trabalhar e fui logo atendendo um cliente, às 10h. Quando sentei na minha mesa e abri meu e-mail, havia sete mensagens desse mesmo cliente, cobrando coisas diferentes! E no último ele já estava irritado, porque eu ainda não tinha respondido (risos). Eu não sei se a vida vai poder ser diferente. Não sei se posso dizer a uma pessoa que ela não deve responder um cliente por Whatsapp às 7h da manhã. Porque ela atende empresário, gerente, e esses caras correm contra o tempo. Todo mundo tem meta hoje, que significa um bônus. Ninguém quer deixar a sua peteca cair. Senão, não tem bônus! Para o empregado comum, é difícil. Mas a vida é diferente, agora. Não sei se tem alguma empresa que possa retroagir. Elas vão viver em um mundo muito pior daqui a algum tempo! Entrei no Instagram há 1 ano e meio. É enlouquecedor! Como as pessoas não têm compromisso com horário de abertura e fechamento de loja, não tem sindicato regulando, você tem 30 postagens por minuto! O mundo mudou. A forma como as pessoas se relacionam e trabalham mudou.
P: Há estatísticas dessa realidade?
R: Quem vive no segmento privado, independentemente de ter um cargo estratégico ou não, é convidado a ter uma jornada estendida, em função de ter inclusão digital. Você, por exemplo, é jornalista. Imagine que está atrás de uma pauta há dias. Mas a mensagem do personagem que topou a entrevista só chegou às 10h da noite no celular. Você vai recusar? Claro que não. Mas nem todo mundo pensa assim.
P: A jornada é de 24 horas. Se apita o celular, você vai lá e trabalha...
R: Acho que a maioria das pessoas não sabe muito como lidar com isso. Vejo um período de acomodação. Nunca tivemos tanta facilidade para nos comunicar. Antes, se voltava para casa porque o telefone ia tocar determinado horário com uma ligação que você estava esperando. Depois, ganhamos a mobilidade do e-mail. Agora, só no celular, há Whatsapp, e-mail, Facebook, milhões de possibilidades. Amaioria das pessoas não sabe utilizar tantos recursos.
P: O mercado já entende que é possível render tão bem de casa quanto no escritório?
R: Nosso mercado, no Pará, é varejista. Então, precisa do vendedor, do analista de crédito, do gerente. Mas também é industrial. Há muita indústria de base no interior do Estado. Esses mercados precisam de presença. Analista de crédito tem de estar na loja. Gerente tem de estar na fábrica. Operador de máquina tem de estar na fábrica. Pode fazer muita coisa em casa? Pode. Mas são poucas as profissões que te dão essa liberdade. Quem é autônomo, sempre pode. Mas um profissional que precisa do contato direto com a equipe, por exemplo, não tem jeito. Isso não vai mudar. Atividades formais sempre vão exigir a presença física. Quem tem empresa virtual, não. O exemplo da Microsoft: são dez pessoas em uma mesma sala que movimentam três mil empregos indiretos. Contudo, eles têm aquelas dez pessoas que não podem sair dali.
P: Quais os desafios do home office?
R: Um é educar as pessoas que estão na casa com você, para que entendam que você está trabalhando. O outro é estabelecer uma jornada, um horário. E também é conservador achar que tem hora para acabar e para começar. Até porque, hoje, é normal estar em casa arrumando o guarda-roupas, falando com a secretária e, ao mesmo tempo, ao telefone tratando de trabalho. Dá para fazer as unhas e estar ali, trabalhando. Volto a insistir que o fundamental é entender que o mundo mudou. Os países que têm uma legislação trabalhista mais amarrada, como é a nossa, acabam te limitando essa percepção. Os americanos têm uma legislação trabalhista mais solta. Lá, o que regula o emprego é o mercado. Se está aquecido, tem muita oferta de trabalho. As empresas escolhem se retém aquele bom profissional com uma maior compensação, sem a necessidade do sindicato ficar regulando. Mas se a economia está baixa, isso muda. Volumes de investimentos chegando ao Pará são extremamente importantes. A engenharia continua aquecida. Falta gerente por aqui e também profissional de gestão de pessoas. Falta muito no Pará.
P: Para o empregador, o home office é uma grande vantagem. Não contabiliza horas extras, economiza energia, internet, telefone...
R: Acho que o Brasil está caminhando para um modelo trabalhista que não vai nos render muito. Se continuarmos assim, vamos levar uns 40 anos para mudar o que temos hoje. Então, vamos acabar regulando isso. Se o seu chefe diz que entrevistas de mais qualidade que ajudem a vender mais jornal vão te render um bônus de 3% ao ano, você vai achar ruim responder Whatsapp às 10h da noite? O que acontece é isso. A maioria das pessoas tem metas e corre atrás disso. Essa situação é boa para o empregado também, não apenas para o empregador.
P: O cara que responde o Whatsapp às 10h da noite também criou um outro nível de comparação, certo? Ele se torna mais produtivo em relação ao que se limita à jornada de escritório e deixa de lado o telefone quando o expediente acaba?
R: Há segmentos em que isso é corrente. Os mais expostos sempre têm mais competitividade, como o varejo, onde isso ocorre de forma violenta. É assim com o corretor de imóveis. O vendedor de automóveis só falta buscar o cliente em casa. Eu insisto: as coisas mudaram e qualquer norma ou lei que nos ‘proteja’ disso nos mantém afastados da realidade. E é importante fazer conscientização dentro das empresas. Temos um grupo de Whatsapp na minha. Avisei logo aos funcionários: ‘Não tem bom dia, nem parabéns, nem foto de ninguém tomando cerveja. É trabalho e só. Falta essa conscientização.
Assista a entrevista com a consultora:
(Diário do Pará)
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