Os portões acinzentados não chamam a atenção de quem passa pela calçada da avenida Pedro Miranda, entre as travessas Angustura e Barão do Triunfo, no bairro da Pedreira. Mas quem direciona o olhar para os dois pequenos espaços das fechaduras percebe que há algo de errado. O terreno descampado abriga duas ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e um trailer. Mesmo sem saber o real motivo que está por trás do abandono, os populares lamentam pelos veículos estarem parados, quando faltam ambulâncias no atendimento de urgência na capital e na Região Metropolitana de Belém.
O vendedor de caranguejos Lucival Gouvêia Silva, 55 anos, trabalha nas calçadas da Pedro Miranda há quase dois anos. Durante todo esse período, ele sempre observou que o local é utilizado como ‘cemitério’ dos veículos da prefeitura. “Sempre entram e saem ambulâncias do terreno. Não sei o que elas fazem aí”, comentou. Ele é usuário do Sistema Único de Saúde Pública (SUS) e revelou que não admite que o patrimônio seja deixado sem a proteção adequada. “Enquanto tem pessoas precisando, as ambulâncias estão paradas, pegando chuva e sol”, denunciou.
Antônio Lopes Júnior, de 35 anos, é vendedor de automóveis. Ele costuma fazer caminhadas pelo local diariamente e também lamenta o descaso com o patrimônio público. “É um absurdo. Mesmo quem tem plano de saúde precisa ser socorrido, em acidentes. E se precisar, não tem”, argumentou. Ouvidos pela reportagem, funcionários de uma loja de tecido e de uma farmácia popular que ficam ao lado do terreno disseram que equipes da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) vão ao espaço para estacionar os veículos constantemente.
De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores da Saúde do Estado do Pará (Sintesp), atualmente há 11 ambulâncias em atividade para atender a cerca de 1,5 milhão de pessoas, o que representa a população de Belém, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número de ambulâncias pouco expressivo atende 12 polos na capital, ilhas e distritos. Do total dos veículos, três são unidades de suporte avançado, com equipamentos de reanimação e UTI-Móvel (Unidade de Terapia Intensiva). Os oitos restantes são de suporte básico, para atender as ocorrências menos complexas.
Já o Ministério da Saúde, que repassa os veículos ao SAMU, afirma que Belém dispõe de 20 ambulâncias para uso, sendo que 16 delas devem atuar diariamente, e quatro ficam de reserva técnica, podendo ser utilizadas em caso da necessidade de manutenção de uma das 16 em uso.
NÚMERO BAIXO
Para o diretor do Sintesp, Carlos Haroldo Costa Júnior, 53, o número de ambulâncias em funcionamento é baixo para atender a demanda da capital. “Temos poucas ambulâncias. Elas atendem Mosqueiro, Icoaraci, Outeiro e Cotijuba, além dos bairros de Belém”, disse.
Além de poucos veículos, ele também relata o estado precário que se encontram. “Elas estão totalmente sucateadas. Sem condições para atender à população”, denunciou Carlos Haroldo. O sindicalista conta que a manutenção é feita de forma superficial e não resolve os problemas estruturais dos carros. “A reforma não é preventiva. Elas vão para revisão só quando param, e mesmo assim ninguém resolve o problema por inteiro”, denunciou Haroldo.
(Diário do Pará)
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