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Governo decide desalojar Museu e gera protestos

Um dos espaços mais representativos da arquitetura e da história do Pará, a Casa das Onze Janelas se tornou o palco central de uma polêmica, desde que o Governo do Estado anunciou a criação de um polo gastronômico que passaria a funcionar no local, desalo

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Um dos espaços mais representativos da arquitetura e da história do Pará, a Casa das Onze Janelas se tornou o palco central de uma polêmica, desde que o Governo do Estado anunciou a criação de um polo gastronômico que passaria a funcionar no local, desalojando o Museu de Arte Contemporânea. Um grupos de artistas e pesquisadores se opõe à medida e acusa o Governo de ser pouco transparente em relação ao projeto. Professora e pesquisadora da Faculdade de Artes Visuais e do Programa de Pós-Graduação em Artes da UFPA, Valzeli Figueira Sampaio, 51 anos, está entre os que encabeçam o movimento em defesa do museu e cobram detalhes sobre o polo. Mestre e doutora em Comunicação e Semiótica, pela PUC/SP, e com Pós-Doutorado em Poéticas Digitais, pela USP, ela explica, nesta entrevista ao DIÁRIO, os motivos da oposição, fala sobre a carência de bibliotecas e museus no Pará e defende mais investimentos na cultura. “A arte é alimento”, diz.

P: Por que a senhora se opõe à retirada do Museu de Arte Contemporânea da Casa das Onze Janelas?
R: O Museu de Arte Contemporânea Casa das Onze Janelas foi projetado para estar em diálogo com a paisagem e com a arquitetura do sítio histórico do início da formação da cidade de Belém. Existem peças artísticas que fazem parte de seu acervo e que estão inseridas na paisagem no entorno do Museu, criando uma inter-relação entre arquitetura e paisagem. O nome do Museu atesta essa relação quando incorpora uma característica do prédio do século 18 ao seu nome, as Onze Janelas. Portanto, a retirada do Museu daquele sítio implica na desaparição do projeto, ou seja, será a sua morte.

P: Seria possível ele funcionar em outro local?
R: Não seria possível funcionar em outro espaço, porque a sua existência está absolutamente integrada ao lugar para onde foi pensado. Como ocorre, do mesmo modo, com algumas obras “Site Specific” ou “Sítio Específico”. Esse termo faz menção a obras criadas de acordo com o ambiente e com um espaço determinado. Portanto, o projeto arquitetônico liga-se à ideia de arte que incorpora o espaço à obra, transformando-o.

P: E o argumento de que é preciso ampliar o museu?
R: As necessidades de ampliação e manutenção, comuns a qualquer projeto cultural e social, não podem ser argumentos para fundamentar a extinção de um equipamento de arte importante para a economia criativa e cultural de nossa região. Trata-se de território da arte brasileira legitimado a partir do lugar onde foi criado.

P: O grupo que defende o museu se opõe ao polo gastronômico?
R: O projeto do polo gastronômico, até o momento, não foi apresentado à população, nem como será implantado. Quem e quais empresas fazem parte desse projeto? Qual a área de sua implantação? Quais os seus impactos na sociedade e na nossa cultura mestiça? Quais as contrapartidas sociais, culturais, econômicas desse projeto? Para quem se dirige esse projeto? O movimento se opõe à falta de transparência do projeto do polo de gastronomia, que vem sendo apresentado de forma autoritária, superficial e pouco esclarecedora.

P: Que pontos do projeto a senhora acha que deveriam ser alterados?
R: Esperamos que o governo apresente o projeto do polo gastronômico em sua integridade, com seus objetivos, justificativas, levantamentos e implicações de impactos sociais, culturais e econômicos para todos os envolvidos na implantação de um projeto dessa envergadura. Que incorpore no desenvolvimento desse projeto a sociedade civil e seja construído com transparência e responsabilidade com a arte. E todos os segmentos impactados por esse projeto possam ser incluídos nas decisões que envolvam a sua existência.

P: Como a senhora avalia a oferta de museus e bibliotecas no Pará?
R: Existem estudos de especialistas nessas áreas que apontam uma concentração dessas instituições no litoral e nos estados do Sul e Sudeste. Com número bem menor de museus e bibliotecas nas regiões Centro-Oeste e Norte do País. E, ainda assim, eles se concentram nas capitais. Museus e bibliotecas são equipamentos culturais importantes para a formação do cidadão. Os museus, juntamente com as bibliotecas e os arquivos públicos, guardam os testemunhos do trabalho, da produção cultural e criativa das sociedades. Um governo comprometido com a sociedade deveria ter projetos democráticos e transparentes nessas áreas.

P: Qual a consequência dessa baixa oferta?
R: A baixa oferta de museus implica também num baixo nível de reflexão sobre cidadania e identidade.

P: Muita gente coloca cultura como área supérflua diante das inúmeras necessidades urgentes do Estado. Como a senhora avalia essa opinião?
R: Aproximar-se das questões que envolvem a produção artística atual, implica em abordar sobre o sujeito que somos e sobre o projeto de país que queremos e o que temos. O conhecimento produzido na arte possibilita ao cidadão conhecer-se a si mesmo, percebendo-se como ser histórico que toma consciência de sua presença nesses espaços de relações socioculturais, tomando contato com outros modos de ser, permitindo conhecer e escolher criticamente seus princípios, superar preconceitos. A arte incorpora as demandas e valores da vida e nasce dos processos de interação entre o organismo e o meio.

P: E como a sociedade se insere nesse processo?
R: Toda criatura viva recebe e sofre a influência do meio. A arte liga-se às experiências cotidianas. Acredito que o pensamento de que cultura e arte são supérfluos é resultante de um projeto, de longa data, de desmonte da nossa formação como indivíduos e cidadãos, e de nossa formação educacional e política. A experiência na arte pode ser reveladora. Pode semear, germinar, crescer, contaminar. E criar um corpo social constituído por indivíduos críticos, criativos e pensantes. Arte é alimento.

Governo não informa destino do acervo

No dia 20 de junho deste ano, o Governo do Estado oficializou a criação do Polo de Gastronomia da Amazônia no Pará e a desocupação do museu, publicando no Diário Oficial a decisão. A criação do polo consta como incentivo ao turismo como “fator de desenvolvimento econômico e social”. Mas o texto apenas diz que o acervo do museu ficará sob a guarda da Secretaria Estadual de Cultura (Secult) e que será transferido para um novo espaço, a ser definido.

A decisão não agradou a classe artística, que não entende por que o novo polo, ainda nem estabelecido, precisa desocupar um espaço em pleno funcionamento e reconhecido nacionalmente, em vez de ser instalado em outro local. Por isso a classe se mobiliza e tenta impedir que o museu seja sumariamente desmontado. Vários artistas, pesquisadores da área da Cultura e a população em geral participam de vários protestos em frente à Casa das Onze Janelas.

Um dos patrocinadores do projeto, o Chef de cozinha Alex Atala, chegou a anunciar, no dia 30 de junho, que estava desistindo de gerenciar o projeto. De acordo com o comunicado de Atala, a falta de diálogo do Governo do Estado é uma das principais causas para a desistência da participação no projeto.

O movimento de apoio à manutenção do museu é organizado pelas redes sociais e tem a participação de associações culturais.

(Rita Soares/Diário do Pará)

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