No bairro do Marco, em Belém, as vias largas e os canteiros arborizados parece que convidam para a prática de exercícios. Pela manhã ou no início da noite, basta uma rápida circulada pelas avenidas João Paulo II e 25 de Setembro para constatar o grande número de pessoas caminhando. Ainda que não more no bairro, o mecânico José Alexandre da Silva, 58 anos, usufrui das qualidades do Marco, há cerca de 40 anos. Sempre que o dia amanhece, sai do bairro de Canudos, onde mora, e vai para a João Paulo II, onde gosta de se exercitar. “Eu caminho aqui desde quando nem era asfaltado. É um bairro ótimo”.
Em meio às poucas moradias, figuram inúmeros comércios na avenida. No centro, o canteiro, ainda com árvores, proporciona o equilíbrio entre a rotina agitada e momentos de relaxamento. Na esquina com a travessa Mauriti, um monumento não deixa esquecer a razão pela qual a avenida recebeu tal nome. No dia 8 de junho de 1980, o Papa João Paulo II celebrou uma missa no local. Desde sua beatificação, em maio de 2011, o monumento se mantém sempre enfeitado com flores e velas. “Já vivi e vivo muita história aqui nesse bairro”, diz.
Andando apenas um quarteirão pelas transversais se chega em uma das principais avenidas da cidade: a Almirante Barroso. Nela, fica o Bosque Rodrigues Alves e seus 15 hectares que abrigam espécies da fauna e flora do ecossistema amazônico. Prédios residenciais, hospitais, comércios, universidades e escolas também estão ali. Um dos colégios mais tradicionais do bairro, a Escola Estadual Visconde de Souza Franco, data de 1947. O agente de portaria Edir Macedo, 49, passa em frente ao local todos os dias, quando vai para o trabalho. Durante o período em que morou no Marco, ele lembra que o seu filho estudou na escola. “Esse colégio existe desde que eu me entendo por gente”. Dentre as vantagens de morar no Marco, Edir destaca o grande número de linhas de ônibus. Muitos serviços e comércios podem ser encontrados e a localização do bairro é favorecida.
"A parte ruim é que alaga. Na parte mais baixa, sempre enche”, contou Edir Macedo, agente de portaria (Foto: Fernando Araújo)
SANEAMENTO
Um fator, porém, contribuiu para que o agente de portaria se mudasse do bairro. “A parte ruim é que alaga. Na parte mais baixa, sempre enche. Muitas vezes, não tem condições nem de entrar em casa.” Na área conhecida como a baixada do Marco, o problema do saneamento ainda é muito presente na vida dos seus moradores.
Em meio a canais sem saneamento, a população é obrigada a conviver com os alagamentos que tomam as ruas diante das chuvas. Moradora da travessa Vileta há cerca de 30 anos, a aposentada Lucimar Campos, 85, já perdeu as contas de quantas vezes viu a água da rua invadir a sua casa. Diante da chuva, o canal da Vileta, próximo à passagem José Leal Martins, transborda. “A gente sofre muito. Qualquer chuvinha e a água invade tudo”.
(Foto: Fernando Araújo)
MONUMENTO
A Almirante Barroso também guarda um monumento importante da história de Belém. Próximo da travessa Perebebuí, uma placa indica que, em 1628, houve a posse, pela Câmara Municipal de Belém, da 1ª légua patrimonial de Santa Maria de Belém. O local definia, na época, o ponto limite da cidade. Apesar da importância histórica, o monumento está tomado por lixo e pichações.
RECLAMAÇÕES
A moradora tenta se proteger dos alagamentos, elevando o nível da calçada. Sem que o serviço necessário seja realizado no canal e na rua, porém, não há muito o que se possa fazer dentro de casa. “Nunca ninguém resolveu nosso problema”. As facilidades de morar em um bairro que tem diversos serviços próximos são lembradas pela moradora.
Os netos de Lucimar conseguiram estudar em bons colégios do bairro. Apesar dos benefícios, porém, a dificuldade proporcionada pelos alagamentos acaba se sobressaindo. “A gente se preocupa em fazer uma casa arrumada, mas essa situação da rua prejudica”, aponta. “Essa casa tem 10 compartimentos, fica perto de tudo. Porém, ninguém consegue vender porque falta saneamento”, lamenta.
"Aqui eu me sinto feliz”, disse Arlete Gonçalves que caminha ao redor do Bosque todos os dias (Foto: Fernando Araújo)
AR FRESCO
Moradora do Marco desde os seus 10 anos, Arlene Gonçalves Dias, 47, autônoma, mantém o hábito de caminhar, todos os dias, no entorno do Bosque Rodrigues Alves, que vai da Almirante Barroso até a avenida 25 de Setembro, para aproveitar o ar fresco proporcionado pela grande área de vegetação. Para ela, o local é um dos pontos mais especiais de Belém.
CURIOSIDADES
- O intendente Antônio Lemos começou a abrir as ruas do bairro do Marco em 1897, quando assumiu a administração de Belém.
- Os nomes de algumas das ruas do bairro são uma homenagem à Guerra do Paraguai, onde Antônio Lemos lutou.
- Ruas têm nomes de batalhas da guerra, como Perebebuí e Curuzu
- Já algumas avenidas foram batizadas com o nome dos ‘heróis’ da guerra. É o caso da Almirante Barroso.
(Cintia Magno/Diário do Pará)
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