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Arte de embate contra o preconceito

O ator e performer Allan Jones, que faz a drag queen Flöres Asträis, começou a entender a potência artística do próprio corpo no teatro, que iniciou ainda criança. Mas tudo tomou uma dimensão maior quando percebeu, assim como Wellington Romário, que sua i

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O ator e performer Allan Jones, que faz a drag queen Flöres Asträis, começou a entender a potência artística do próprio corpo no teatro, que iniciou ainda criança. Mas tudo tomou uma dimensão maior quando percebeu, assim como Wellington Romário, que sua imagem incomodava as pessoas. “Entendi que meu corpo é a imagem que carrego comigo e eu posso moldá-la como eu bem quiser. Foi quando a drag entrou na minha vida e a minha arte passou a ser o meu corpo. Fiz curso técnico em ator e graduação em Teatro para compreender como funciona essa arte, mas foi quando me montei de drag queen e fui para a rua que entendi a potência que existe no corpo”, relembra.

A experiência, ele conta, também foi fundamental para a sua identificação de gênero. Se antes o fato de um homem travestir-se era considerado pitoresco, hoje representa uma forma de arte contemporânea que tem claramente um discurso em sua encenação: a do respeito e da visibilidade. “Esse percurso foi uma via de mão dupla, onde cada vez mais eu expressava a arte no meu corpo e a arte fez eu me expressar. Aí comecei a entender o meu corpo, me descobri não-binário e compreendi que todos nós usamos o nosso corpo como registro imagético de nossas, crenças, desejos, quereres, potências, e que tudo isso é performance, desde a roupa que eu escolho para vestir, até o corte de cabelo que eu faço”, explica.

O artista Rafael Bqueer – cujos trabalhos, como a série fotográfica “Alice e Chá Através do Espelho”, em que aparece vestido de Alice premiada pelo Edital LGTB - Gênero e Identidade, discutem o corpo queer - lembra que essa temática, apesar de hoje ganhar contornos de lutas sociais, já é antiga na relação do homem com a sua própria imagem. “Desde as pinturas das cavernas, dos gregos egípcios. Pinturas, esculturas, linhas, formas. Tudo envolve as relações do homem com a natureza e consigo mesmo. Seu corpo, suas ações, movimentos. Principalmente para mim, que trabalho com fotografia e performance, para um olhar com o outro, em propostas que dialogam não apenas com a imagem de outros corpos, mas também com os simbolismos e valores destes no mundo”, analisa.

O corpo como ato político

A temática do corpo na arte tem servido para falar sobre a condição transgênero. Nascido como mulher e hoje homem transgênero, Davi Miranda expôs o próprio corpo na última quarta-feira no Museu do Estado do Pará (MEP), numa programação alusiva à data de hoje, da Visibilidade Trans, e entende que os corpos trans são, sobretudo, corpos políticos.

“Carregamos nele as marcas da violência e das opressões sofridas, os sentimentos de inadequação, estigmas sociais e etc. Mostrar o corpo foi uma experiência estética interessante, pois eu notei um certo estranhamento inicial. Alguns homens trans travaram. Esse rompimento da barreira do corpo é um tabu, mas o feedback final foi incrível. Muitos dos presentes foram capazes de captar meu sentimento, minha alma e se viram em mim. Outras pessoas cisgênero (pessoas cujo gênero é o mesmo que o de nascimento) presentes também reagiram bem e todos continuaram a ver um corpo masculino à sua frente, compreendendo que há homens com seios, e que isso também é bonito”, explica.

Davi comemora, dizendo que o objetivo foi alcançado, e conta que hoje os desenhos serão apresentados na Praça Batista Campos, em Belém, a partir das 10h, como ato em memória das 144 vítimas de transfobia no Brasil em 2016. “Considerando que a nossa população é vítima de diversas mazelas, mas continua muito invisibilizada, propusemos levar esse debate a um museu, para proporcionar a elas algum tipo de contato com as artes”, diz.

(Dominik Giusti)

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