Destruir construções históricas contribui para, mais que modificar a estrutura espacial de uma cidade, tentar apagar a história e a memória de um povo, embassar sua identidade.
O que em um primeiro momento parece distante de nossas realidades é cada vez mais visível em Belém. Prédios públicos abandonados (lembremos, por exemplo, do Solar da Beira, no Ver-o-Peso), edificações pichadas e saqueadas (Mercado de São Brás e seu entorno mostram claramente isto), praças destruídas (dezenas parcialmente danificadas por vândalos e não organizadas pela prefeitura) e, mais recentemente, uma residência situada na avenida Conselheiro Furtado, que foi demolida nos últimos meses, mostram um processo perigoso e cada vez mais presente na cidade.
A residência em questão é uma construção ainda da década de 1970 e foi projetada pelo arquiteto Roberto de La Rocque Soares, um dos principais nomes destacados na história da arquitetura paraense. A casa possuía estética "brutalista", tendência do movimento modernista que tinha ainda como outro destaque a antiga construção do Tribunal de Contas do Município, já "padronizado" com a "não-estética" do período contemporâneo em que vivemos.
Acompanhando o processo de verticalização das moradias de Belém e região metropolitana, assim como inúmeras outras metrópoles brasileiras e latinas, no local será feito mais um prédio de uma construtora. Apaga-se a história e a memória para dar lugar a algo eminentemente funcional. Mercado imobiliário e história se chocam. Na cidade que já é conhecida pela triste caracterização (na verdade, constatação) de "já teve", a fisionomia segue cada vez mais confusa e desorganizada.
Estas rápidas transformações e e a confusão imagética de referências certamente colabora cada vez mais para a falta de "carinho" pela cidade, evidenciada na quantidade de lixo que se joga nas ruas diariamente, as cusparadas raivosas em direção ao solo e a desorganização e falta de preocupação com todos estes processos. Não se ama o que não se conhece. Muito menos se tem algum apreço pelo que não se reconhece.
Assim Belém segue marcada pelo que o músico paranese e pós-doutor em Filosofia Henry Burnett definiu como "desamor pelos espaços de convívio, a destruição do patrimônio” por parte de quem deveria frequentá-los (a população) e, principalmente e ironoicamente, por quem deveria protegê-los (o governo municipal). Na época, para Henry, este seria o maior problema observado na capital paraense. A solução? O próprio Henry responde: “A necessidade maior é simplesmente amar a cidade e cuidar dela como cuidamos da nossa casa, entendendo que a cidade deve ser uma continuidade amorosa de nossa intimidade”, explica. E é justamente isto que não ocorre. Afastam-se a a cidade e seus símbolos da população ou tentam de alguma forma modificá-los sem grandes explicações.
Abandonos e polêmicas
Ao mesmo tempo que alguns locais foram completamente abandonados e esquecidos pela gestão municipal, nos últimos anos, a gestão do prefeito Zenaldo Coutinho apresentou propostas e tomou medidas no mínimo curiosas e preocupantes, como a reforma do Ver-o-Peso e a descoupação do Solar da Beira, que "ganhou vida" com a presença de artistas de diversas áreas, mas que voltou ao ostracismo por determinação municipal.
Foto: Cezar Magalhães/Arquivo
A justificativa era que uma obra ocorreria e revitalizaria o espaço para poder atender melhor tanto produtores culturais como o público. Quase dois anos depois, o local segue fechado, confirmando mais ainda o descaso e despreocupação da prefeitura com a cultura da cidade e do Estado e, por conseguinte, com a história e memória do povo.
Lá ao lado, no ano passado, o complexo do Ver-o-Peso, principal cartão postal de Belém, foi alvo de um projeto de reforma. A ideia era uma intervenção era prevista em uma área de mais de 10 mil metros quadrados, com investimentos da ordem de R$ de 34 milhões.
Houve uma consulta pública para saber a opinião dos feirantes, em que muitos protestaram dizendo que não foram consultados e moradores criticaram a obra, afirmando que descaracterizaria o local.
O Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) também opinou sobre o caso, informando que o projeto da prefeitura para revitalizar o Ver-o-Peso. No documento, a entidade afirma que a fragmentação da proposta de reforma do conjunto da feira, com vários contratos diferentes, é preocupante, pois gera o risco da criação de propostas desarticuladas entre si.
Talvez a intervenção que devesse ocorrer de fato fosse no Mercado de São Brás, prédio aberto no auge da Belle Époque, mas que hoje abriga trabalhadores informais de toda ordem. O entorno é marcado pela insegurança e pela depredação de estátuas e outros símbolos que marcaram a "bela época" que não existe mais.
Dá para mudar?
Seguindo a linha de racioncínio que une memória, história e maior carinho com a cidade, talvez seja necessário proteger e os ambientes e incentivar a participação e frequência do público. Para tal fazer emergir tal orgulho, talvez seja necessário fazer uma força-tarefa em áreas/ “instituições” como na educação, nas famílias e nas mídias.
Mais ainda: deveria vir com a proximidade da história para (re)conhecer de fato Belém. Estranhá-la. Compreendê-la. Aceitá-la. Sem resignação, mas sim com a paciência de quem sonha em fazer um grande amor crescer e melhorar ao seu lado.
Foto: Alzyr Quaresma/Arquivo
As ações conjuntas são sugeridas por Sandro Ruggeri Dulcet, espanhol nascido em Barcelona, em 1962. Formado em Arte Dramática com especialidade em cenografia teatral, mora em Belém desde 1994. Atualmente Sandro dirige a empresa de tradução e interpretação Humana Com & Trad e o Instituto Humana, que atua na área da arte educação e em projetos sociais. Para Sandro, deve haver uma intervenção e modificações levando em conta:
a) Cidade como espaço de convivência; a relação entre o usuário do espaço urbano e o próprio espaço físico: inúmeros exemplos de falta de percepção por parte dos cidadãos de que esse espaço é de uso partilhado, onde os meus direitos têm que entrar em sintonia com os dos outros. A falta de percepção deveria ser corrigida pelo poder público, que falha na aplicação do Código de Postura. A solução passa por uma intervenção maior e mais harmoniosa de todos os participantes. Essa intervenção envolve aspectos pontuais como a limpeza, o comércio informal, e mais amplos como a construção onde o antigo e o moderno entrem num diálogo mais proveitoso.
b) Cidade como espaço de educação ambiental: Trata-se de uma cidade na Amazônia, água e floresta deveriam ser os protagonistas, mais do que asfalto e prédios. Por que não fazer de cada canteiro um lugar para que as diferentes espécies locais sejam conhecidas, com informações detalhadas sobre a história biológica da Região? Isso passa por um projeto de arborização que teria como objetivo, também, fazer com que o pedestre pudesse andar nas ruas ao abrigo do sol equatorial e da chuva torrencial.
Foto: Daniel Costa/Diário do Pará
c) Cidade como espaço de luz: No mesmo sentido, aproveitar tudo aquilo que nos lembre que esta cidade não é uma cidade implantada, mas tem as suas peculiaridades, o seu jeito pessoal e intransferível, e o seu urbanismo e arquitetura deveriam refletir isso, sem cair num regionalismo folclórico e bairrismo redutor. Nesse sentido, as construções e o espaço urbano deveriam levar em consideração o clima, a iluminação, o regime das chuvas na hora de ser projetados e na sua realização.
Resposta
A reportagem do DOL entrou em contato com a Prefeitura de Belém para saber porque a Fumbel não aprovou o pedido de tombamento da residência, ainda que houvesse importância histórica e arquitetônica de tal prédio. Além disso, indagamos porque logo após a resposta negativa para o pedido já houve o aceite para a ideia de destruição da edificação e se há outras demolições de prédios históricos previstas para este ano ou ainda revitalizações de espaços públicos. Em nota, enviada na tarde desta quarta-feira, a Prefeitura de Belém, através da Fundação Cultural de Belém (Fumbel), esclarece que ao receber o pedido de tombamento do prédio em questão notificou a empresa responsável, que já tinha encerrado a tramitação legal para demolição do prédio e inicio de uma nova obra, tendo aprovação em todas as etapas.
A empresa recorreu e ao final do prazo legal o Conselho Municipal de Proteção Cultural, que tem representantes da Fumbel, Iphan, Secult, Ufpa e socidedade civil, indeferiu o pedido de tombamento por entender que não havia relevância histórica na construção de estilo conhecido como "brutalista".
(Enderson Oliveira/DOL)
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