Para a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, 68 anos, a monogamia não é fator preponderante para um relacionamento amoroso. Essa é só uma das polêmicas que ela acumula no seu trabalho, que incluem livros, artigos e participações em programas de TV. Para ela, o amor romântico, idealizado, está com os dias contados e será substituído pelo amor livre. Experiência para fazer essas afirmações ela tem. Há 45 anos, recebe pacientes em seu consultório particular, com terapias individuais, de grupo e de casal. É autora de 11 livros sobre relacionamentos amorosos, entre eles os best-seller A Cama na Varanda e O Livro do Amor. Além de manter um blog e ser colunista semanal de jornal, ela é consultora sexual do programa Amor & Sexo, da Globo.
P: Recentemente, uma pesquisa da Universidade de São Paulo revelou que Belém é a capital com maior percentual (quase 40%) de homens e mulheres que admitem fazer sexo eventual, sem compromisso. O resultado provocou muito debate principalmente em relação às mulheres. Por que informações como essas ainda causam espanto?
R:A mudança das mentalidades é lenta e gradual. Nós começamos essa profunda mudança na forma de pensar e viver a partir dos anos 60. A pílula anticoncepcional foi um divisor de águas na história da humanidade. Pela primeira vez, as mulheres puderam fazer sexo sem a preocupação de uma gravidez indesejada. A pílula separou procriação de prazer. E isso chocou porque não muda todo mundo ao mesmo tempo. Quando se está no meio de uma transição – e eu considero que a gente está no meio de um processo – encontra-se comportamentos díspares, pessoas liberadas que aceitam tudo muito bem e pessoas que ainda carregam as velhas ideias. Muita gente se sente insatisfeita na sua forma de viver, mas se agarra aos padrões conhecidos. O novo assusta. O desconhecido dá medo.
P: Ao mesmo tempo em que a sociedade tem avançado muito em termos de comportamento, ainda há retrocessos?
R: Eu não considero que a sociedade esteja retrocedendo. O que eu acho é que você vai encontrar comportamentos díspares, vai encontrar um grupo superconservador e outro grupo mais liberal. Mas como um todo, eu acho que a sociedade está aceitando cada vez mais novas formas de comportamento diferente das tradicionais. Eu me lembro que uns 30 anos atrás, no consultório eu tinha uma paciente que era casada, dois filhos, morava em prédio desses com piscina, salão de festas e sempre tinha festas no prédio. O marido se apaixonou por outra mulher e foi embora. Ela deixou de ser convidada. Ela não fez nada, estava ali com os filhos. Então, isso é um comportamento retrógrado, mas ao mesmo tempo você vê comportamentos superaceitos. Os modelos tradicionais não estão mais dando respostas satisfatórias. Está se abrindo um espaço para cada um escolher sua forma de viver.
P: A gente ouve muito que a sociedade brasileira está encaretando. Você concorda com isso?
R:Não. Eu acho que existe no Congresso uma bancada conservadora. Mas, em termos de liberdade, de comportamento, não. Não acho que está encaretando, não. Volto a dizer, você vai encontrar grupos mais liberais e outros mais conservadores. Se a pessoa convive num grupo que todo mundo é conservador vai achar que o mundo todo é assim. A gente está avançando, mas as mudanças são lentas e graduais.
P: Uma pesquisa recente indicou que uma parcela da população masculina ainda acha que uma mulher com roupa decotada está incitando o estupro...
R:Eu acho que os meios de comunicação - e eu trabalho em televisão também e falo pra todos os jornalistas que eu conheço - podem contribuir muito pra essa mudança de mentalidade, fazendo matérias que mostrem o absurdo disso. São resquícios que vêm arraigados às mentalidades e é difícil das pessoas romperem. Dia desses, ouvi de um paciente no meu consultório em relação à história do José Mayer (o ator foi acusado de assediar uma figurinista): “Será que ela não deu motivo?” Ah, não, isso não admito ouvir nem no consultório. Essas ideais estão arraigadas. A pessoa não para para pensar. Mulheres sempre foram consideradas culpadas.
P: Desde Eva...
R:Exatamente (risos). Você sabe que no movimento feminista, nos anos 60, nos EUA, tinham mulheres que carregavam cartazes com dizeres “Eva foi falsamente incriminada”? Na caça às bruxas, bastava a mulher ter uma mancha que já era considerada feiticeira. Tinha epilepsia? Feiticeira. E era acusada de ter feito sexo com o diabo. Então, as mulheres eram consideradas perigosas.
P: Com essa mudança de comportamento nesse período de transição, surgem inseguranças em relação aos relacionamentos. Fala-se que eles estão mais fluidos, que as relações sólidas vão desaparecer. O que você acha disso?
R:Eu discordo. Existe aquele livro do Bauman (o autor polonês Zygmunt Bauman), Amor Líquido... Eu discordo totalmente. As pessoas resistem à mudança, resistem ao novo. Quando alguém chega para mim e diz que tudo está piorando, eu já sei que é alguém que desconhece a história ou que é muito conservador. Nunca foi melhor que hoje. Não estou dizendo que é bom hoje não. Mas já foi pior.
P: Em termos de opressão?
R: Em termos de opressão, de desrespeito à mulher, de repressão da sexualidade; em termos da infelicidade geral. Quando a Internet surgiu, ouvi muito que as relações iam acabar. Hoje, nos Estados Unidos, em 35% dos casamentos as pessoas se conheceram por aplicativos.
P: Você é uma entusiasta da modernidade?RSou entusiasmada com o fim dos preconceitos e com a possibilidade das pessoas viverem com mais satisfação. É pleno direito de qualquer pessoa viver com mais prazer no sexo.
P: Você tem falado também sobre o fim do amor romântico. Ele está realmente desaparecendo?
R:O amor romântico entrou para valer em todos os casamentos a partir de 1940, incentivado pelos filmes de Hollywood. Por que eu sou a maior crítica nesse País do amor romântico? Porque ele calcado na idealização. Você conhece uma pessoa, atribui a ela características que ela não possui, depois passa a vida infernizando a pessoa para que ela se enquadre naquilo que você idealizou. Hoje a gente está vivendo uma coisa muito interessante que é a busca pela individualidade, que não quer dizer egoísmo. A grande viagem do ser humano hoje me parece ser pra dentro de si mesmo. Todo mundo quer saber seu potencial, desenvolver suas possibilidades na vida. Então, isso bate de frente com as propostas do amor romântico.
P: Entra o que no lugar?
R:Entra em cena o amor, porque o amor romântico é só mais um tipo de amor. O amor é uma construção social e, em cada época, se apresenta de uma forma. O amor romântico é recente. Então, ele saindo de cena, está levando com ele a sua característica básica que é a exigência de exclusividade.
P: Existe receita para ser feliz nos relacionamentos?
R:Olha, primeiro a liberdade de ir e vir. Liberdade de ter amigos em separado. Liberdade de ter programas em separado e não haver controle da vida do outro. Eu comecei a me especializar em relacionamento por ver o sofrimento das pessoas no consultório. É tão desnecessário. As pessoas sofrem com seus desejos, fantasias, medos, culpas, frustrações. Por que a gente não tenta viver melhor?
(Rita Soares/Diário do pará)
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