Até os 28 anos de idade, o arquiteto e músico André Souza jamais havia vivenciado sensações tão intensas quanto às experimentadas dentro de uma sala de parto. Foi quando viu, pela primeira vez, o ser que lhe atribuiu uma missão para toda a vida, a de pai. Diante dos olhos abertos do pequeno Benjamin já no primeiro contato com o mundo, o pai apenas constatou o turbilhão de emoções que ele passaria a vivenciar com frequência dali em diante. “É uma mistura de sentimentos: felicidade por ele ter nascido bem, preocupação... é uma coisa que não tem como imaginar, só vivendo mesmo para saber”, garante.
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Desde a vivência única do nascimento, já são 37 dias de aprendizado ao lado de Benjamin. As noites já não são dormidas por inteiro, o cansaço é companhia cada vez mais frequente e o foco dos pensamentos agora está quase sempre na cria. Nada suficiente para abafar a felicidade de poder contribuir e acompanhar o desenvolvimento de um filho. “Tem um elo muito forte que te faz sempre querer estar perto. Se você se afasta alguns minutos fica sempre uma voz na tua cabeça se perguntando: será que o meu filho já comeu? Ele está bem? Será que ele está precisando de alguma coisa?”, diz.
Antes de passar pela experiência de ser pai, André chegava a duvidar ser possível dormir tão pouco e ainda encontrar energia para estar de pé logo cedo no dia seguinte. Mas Benjamin já começou a ensinar que muitas perspectivas mudam diante do nascimento de um filho. “A gente acha que não vai dar conta, que ninguém consegue dormir apenas 3h por dia, mas na prática é isso que acontece. Não sei se é o amor envolvido entre nós (ele e a esposa Emily Souza) e o nosso filho que faz com que isso aconteça”, considera. “A vida muda. A gente se torna menos egoísta porque a prioridade passa a ser o seu filho e com a gente isso aconteceu de forma muito natural”.
Também de forma natural, a família já começa a transmitir para o rebento uma de suas paixões, a música. Desde a gestação de Emily, os pais já colocavam músicas para o pequeno ouvir. Ainda dentro da barriga, o primogênito presenciou shows das bandas ‘Red Hot Chili Peppers’ e ‘Pearl Jam’. Nos dias mais agitados, a sonoridade do reggae o deixava mais tranquilo. Já após o nascimento, o que tem funcionado bem para acalmá-lo são as músicas de Chico Buarque. “Acho que o mais difícil seria não passar esse gosto pela música para ele porque ela sempre faz parte da nossa vida, do dia a dia”, considera André. “É realmente muito especial”.
A felicidade que veio em abundância
Milton se preocupa com o futuro das filhas mais novas (Foto: Celso Rodrigues)
As experiências encaradas pela primeira vez por André hoje, já foram sentidas por Milton Boger, 71 anos, por nove vezes. O comerciante se tornou pai pela primeira vez ainda aos 24 anos de idade. Já a filha caçula veio ao mundo quando ele já havia completado 66 anos. Em cada um dos nove nascimentos, porém, a experiência gerou uma emoção única. “Quando você tem nove filhos é porque foi bom”, sorri.
Ao todo, são seis filhas mulheres e três homens. Netos já somam seis. Apesar da família grande, infelizmente nem todos têm a oportunidade de se reunir no dia dos pais.
Eles estão divididos entre as cidades de Joinville (SC), Porto Alegre (RS) e Belém. Nada que comprometa a proximidade afetiva entre Milton e suas crias. “Em janeiro a Jaci (a esposa, Jacilea Boger) fez um vídeo surpresa para o meu aniversário em que conseguiu juntar todos os filhos que moram longe. Me fizeram chorar”.
Atualmente, moram com Milton as três filhas mais novas, fruto do casamento com Jacilea: Jhully tem 19 anos, Isabelly tem 11 e a caçula Sarah, 5. “A diferença entre ser pai pela primeira vez e ser pai com 66 anos é o conhecimento de vida que a gente já tem”, reflete. “Quando mais velho a gente está, mais preparado para algumas coisas, mas também já fica mais preocupado porque o mundo mudou muito de lá para cá. Está muito mais perigoso”, reitera.
Independente das mudanças, todo mês de dezembro de cada ano Milton amplia, em muito, a função de ‘pai’. Há 15 anos ele é o Papai Noel de centenas de crianças em um shopping de Belém. A missão de compartilhar ao menos um pouquinho do pai com outras crianças no período do Natal é encarada de forma muito positiva pelas filhas mais novas. “Elas sabem diferenciar o pai do Papai Noel. Tanto que elas escrevem cartas e enviam para o Papai Noel no Natal, assim como todas as crianças”, revela Milton, ao deixar evidente o amor mantido por todos os filhos.

Antônio gosta mesmo é da casa assim: lotada com todas as gerações (Foto: Celso Rodrigues)
Já o aposentado Antônio Moreira da Cunha, 80 anos, acompanhou o nascimento de oito “crias”. E é com orgulho que o patriarca da família conta que todos estão saudáveis, bem colocados, empregados e casados. Dos seis homens e duas mulheres, apenas um mora longe, na cidade do Rio de Janeiro. Os demais, todos moram bem pertinho da casa do pai. “A casa é sempre lotada. Esse mês o filho que mora no Rio de Janeiro veio para cá e reunimos todo mundo lá em cima (no segundo andar da casa). É muito bom!”.
Das oito crias, Antônio e a esposa, Iracema da Cunha, tiveram seis na mesma casa que moram até hoje. O pai lembra do esforço mantido para construir tal patrimônio. Durante muitos anos Antônio trabalhou com a venda de quadros. À noite ele se dedicava a produzir as molduras e, pela manhã, saía às ruas para vendê-las. “Todo o esforço valeu à pena. Tenho filhos e netos maravilhosos”.
Mesmo com o passar do tempo, a paternidade de Antônio nunca deixou de ser exercitada. Ele conta que as noras e genros passaram a ser também como filhos. Há ainda os netos, bisnetos e o primeiro tataraneto, nascido há 10 dias. “Quero todos sempre por perto. O que um pai quer é a família unida”, garante.
(Cintia Magno/Diário do Pará)
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