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POLÍCIA

Médico vai a júri após morte de esposa

Duas famílias, que há 20 anos eram uma só, se preparam para voltar no tempo para elucidar fatos duvidosos, de suspeitas e acusações. A busca pela verdade já estava com local e data marcada, 13 de março, próxima terça-feira, na 4ª Vara Penal do município d

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Duas famílias, que há 20 anos eram uma só, se preparam para voltar no tempo para elucidar fatos duvidosos, de suspeitas e acusações. A busca pela verdade já estava com local e data marcada, 13 de março, próxima terça-feira, na 4ª Vara Penal do município de Castanhal, onde um médico cardiologista iria a júri popular para ser condenado ou absolvido pela morte de sua esposa. O julgamento foi desmarcado e o fato continua a atormentar os dois lados.

Para entender o caso, é preciso fazer uma retrospectiva e retornar à década de 90. Era final da tarde de 25 de setembro de 1992, uma sexta-feira, quando uma família se dirigia de Belém rumo a Salinópolis em busca de um final de semana prazeroso e de lazer. Naquele dia, Linda Maria Guedes Toutenge, 27 anos, grávida de cinco meses, seguiu viagem na companhia do marido, o médico cardiologista Mario José Onofre dos Santos Toutenge, 27, e do filho de um ano e quatro meses.

A impressão que se tinha é que o final de semana prometia ser feliz e em clima familiar, pois em outro veículo o casal tinha a companhia da avó e da tia de Linda Maria. Por muito tempo da viagem os dois carros seguiam juntos. Ora o carro do casal estava à frente, ora o outro veículo é que tomava a largada. Assim foi a viagem até que, no município de Castanhal, o veículo do casal ficou para trás e um acontecimento com proporções elevadas, suspeitas e versões diferenciadas mudou toda a história da família.

Por volta das 23h do dia 25 de setembro, o telefone tocou na casa de dona Raimunda Edna Guedes Pinto, 68. Uma pessoa da família informava que sua filha tinha sofrido um acidente. “Quando recebi a notícia, eu logo disse: ‘perdi a minha filha’, e caí em prantos”, relembrou a mãe, com a voz trêmula.

Em meio ao tumulto, dona Edna correu para o Hospital Beneficente Portuguesa, onde Linda Maria encontrava-se na sala de cirurgia. “Desse dia em diante eu não falei mais com minha filha, ela estava em coma e passou 12 dias na UTI”, acrescentou.

No dia 6 de outubro de 1992, Linda Maria foi a óbito. “Apesar de já terem passado 20 anos, parece que ocorreu ontem. Todos os dias da minha vida eu me lembro da minha filha, sinto muita falta”, declarou dona Edna, na sala de seu apartamento, rodeada por imagens de santos.

Após a morte de Linda Maria é que surgiram dúvidas, questionamentos e suspeitas por parte da família da moça. “No calor da emoção, nós não paramos para pensar em nada. Quando ela estava no hospital, nós estávamos preocupados com a recuperação dela, mas depois que ela morreu é que começaram a surgir os questionamentos”, disse o irmão de Linda Maria, Paulo Sergio Guedes, 45. Por todos esse anos, a família se sentiu inquieta à espera por uma resposta convincente e o sentimento é de sede de justiça.

Casal teria brigado na estrada

Na ida para Salinas, a tia e a avó de Linda Maria, que estavam em outro veículo, viram em um certo momento da viagem que o casal gesticulava bastante no carro. Apesar de parecer que estavam discutindo, no momento não foi levantado esse tipo de suspeita. “O carro da minha irmã ficou para trás e o da minha avó seguiu viagem, eles deviam estar discutindo sobre a relação deles”, suspeita o irmão de Linda Maria.

Para a família da moça, o casal travou luta corporal dentro do veículo, pois o médico apareceu com perfurações no rosto, que para a família, pareciam arranhões. Com isso, ele teria reagido e ocasionado a lesão em Linda Maria e não um acidente, como foi informado à família.

Outra atitude que levantou suspeita da família da moça foi com relação ao filho do casal. “Ele proibiu que a gente visitasse o menino, que ele viesse passar final de semana conosco, a única coisa que restou da minha filha foi meu neto e ele não tinha o direto de fazer isso”, disse dona Edna. Meses depois, a família entrou na justiça para ter o direito de ter a criança por perto.

A família de Linda Maria disse que o casal estava passando por uma crise no casamento. Segundo o irmão da moça, tinha pouco tempo que Linda Maria tinha descoberto uma traição do marido. “Pouco tempo antes da viagem, ela foi ao consultório dele de surpresa. Quando chegou lá, a atendente dele disse que ela não poderia entrar na sala do Dr. Mario, pois ele estava com a esposa. Aí a minha irmã levou um choque, mas ela entrou na sala e viu ele com uma mulher”, disse Paul. A família acredita que a viagem era uma tentativa de reconciliação entre o casal, mas que não deu certo.

Um médico que luta por vidas

O cardiologista Mário José Onofre dos Santos Toutenge, hoje com 47 anos, tem uma rotina de trabalho e uma nova família, mas o passado ainda é presente diariamente na vida do médico. Em seu consultório, em um hospital particular, ele relembrou do caso e se diz inocente.

“Eu carrego todo esse problema durante 20 anos da minha vida, nesse tempo todo eu não tenho sossego”. Foi umas das primeiras declarações do médico, que se dispôs a contar sua historia. Ele disse que o namoro com Linda Maria começou ainda na escola. “Nós éramos jovens quando começamos a namorar. Depois de sete anos de namoro casamos, a Linda Maria foi o amor da minha vida”, declarou o cardiologista.

Mário José disse que não suporta essa situação de ser suspeito da morte de sua primeira esposa. “Eu não consigo entender por que estou passando por isso nesta vida, eu ainda não consegui entender por que vivo isso durante esses 20 anos”. Segundo ele, naquele 25 de setembro, o casal se deslocou para Salinas, pois era um momento de lazer que fazia parte da rotina.

Com relação às supostas traições em seu casamento com Linda Maria, o médico negou. “Eu só tinha tempo para o meu trabalho e para minha família, nessa época eu trabalhava em quatro lugares, onde eu dava quatro plantões por semana, e o pouco tempo que me restava ia para minha casa”, declarou.

Sobre a viagem, o médico disse que, quando o casal estava nas proximidades do município de Castanhal, um trecho da estrada estava em obras e um caminhão fez uma ultrapassagem e teria ocasionado no capotamento do veículo. “Quando desviei do caminhão, perdi o controle e o meu carro capotou, nós fomos parar no mato. Logo ouvi o choro do meu filho e carreguei ele no colo e, em seguida achei minha mulher, que foi cuspida do carro”, disse.

A confusão se formou, segundo o cardiologista, em virtude da guarda da criança. “Depois que minha esposa morreu, a família dela queria ficar com o meu filho e eu não permiti isso. Eu disse que eu era o pai e eu que ia criá-lo, era o que me restava do meu casamento”, chorou o médico.

“Em virtude dessa situação é que eles passaram a suspeitar de mim, achando que eu teria matado a minha esposa. Eu jamais faria isso, eu sou médico e luto pela vida”, justificou. Por força maior, nove anos depois da morte de Linda Maria, as duas famílias pararam de brigar pela guarda da criança, pois, com dez anos de idade, o único filho do casal teve câncer, passou por vários tratamentos, mas não resistiu à doença. (Diário do Pará)

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