Uma pesquisa publicada em janeiro pela revista médica JAMA analisou os números anuais de óbitos por câncer entre os anos de 1990 a 2023 e acendeu um alerta global: o câncer colorretal já é, nos Estados Unidos, a neoplasia que mais mata pessoas com menos de 50 anos.
As mortes por câncer de cólon e reto no grupo com menos de 50 anos aumentaram 1,1% anualmente desde 2005, descobriu a pesquisa. Devido a esse aumento, o câncer colorretal passou da quinta causa mais comum de mortes por câncer entre pessoas com menos de 50 anos, no início dos anos 1990, para se tornar a principal causa em 2023.
As mortes do ator de Dawson's Creek, James Van Der Beek, aos 48 anos, este mês, e, em 2020, da estrela de Pantera Negra, Chadwick Boseman, aos 43, destacam o risco para pessoas com menos de 50 anos.
“No Brasil também tivemos um caso de grande repercussão, que foi o da Preta Gil, que morreu em 2025, com 50 anos. Nós não temos aqui um estudo tão robusto como esse que foi feito nos Estados Unidos, mas sabemos que o número de casos e a mortalidade de pacientes de câncer colorretal com menos de 50 anos também está crescendo aqui. E não temos dúvidas sobre fatores que contribuem muito para isso. O câncer colorretal é considerado um tipo evitável, pois tem relação direta com má alimentação. Sabemos que o padrão alimentar do brasileiro mudou pra pior, que o sedentarismo e principalmente a obesidade é um sério problema de saúde pública no nosso país”, explica a médica oncologista Paula Sampaio, do Centro de Tratamento Oncológico.
Crescimento no Brasil
Dados da Vigitel, que é a maior pesquisa feito por telefone pelo Ministério da Saúde, apontam avanço consistente do excesso de peso entre brasileiros com menos de 50 anos, especialmente nas faixas de 25 a 44 anos. Entre adultos de 25 a 34 anos, a prevalência passou de 37,5%, em 2006, para 61,0% em 2023, com crescimento médio de 1,19 ponto percentual ao ano. Já entre 35 e 44 anos, o índice subiu de 48,8% para 65,8% no mesmo período (1,04 pp/ano).
O câncer de cólon e reto está entre ao mais incidentes no Brasil. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) para o triênio 2026/2028, serão registrados, por ano, 53.810 novos casos. Em 2023, a doença foi responsável por 23.953 mortes no país.
Sobre o câncer colorretal
A doença se desenvolve no intestino grosso ou no reto, geralmente a partir de lesões chamadas de pólipos, que podem sofrer mutações ao longo dos anos. “Mais de 90% dos casos são adenocarcinomas que surgem dessas lesões precursoras. O processo costuma ser lento, podendo levar cerca de dez anos, o que nos dá uma janela valiosa para prevenção e diagnóstico precoce”, explica Paula Sampaio.
O potencial de cura é elevado quando o diagnóstico é feito logo no começo, mas a maior parte dos casos são descobertos em estágios avançados. “É um câncer silencioso nas fases iniciais. Quando aparecem sintomas como sangue nas fezes, alterações no hábito intestinal, anemia ou dor abdominal, geralmente a doença já está em estágio mais avançado. Por isso, o rastreamento anual, com a colonoscopia e a consulta com o gastroenterologista, é fundamental”, ressalta a médica.
“A recomendação atual é de que o rastreamento comece aos 45 anos para pessoas sem sintomas. Para quem tem histórico familiar, doenças inflamatórias intestinais ou síndromes genéticas, a investigação deve ser iniciada dez anos antes da idade em que o familiar foi diagnosticado. Essa estratégia antecipa o diagnóstico e pode evitar que um pólipo evolua para câncer”, orienta Paula Sampaio.
Estilo de vida
O estilo de vida é ponto central no debate. A cantora Preta Gil utilizou sua visibilidade para ajudar a conscientizar e informar sobre como prevenir o câncer. “Acho que todo mundo sabe que o estilo de vida é o que mais conta. A gente ter uma vida saudável é o que mais conta para que a gente não tenha o tumor”, disse Preta em uma entrevista.
Em outra fala, a artista destacou: “É óbvio que pessoas saudáveis também são acometidas pela doença. Mas o que os estudos dizem é que pessoas sedentárias, pessoas que se alimentam mal, que fumam, bebem, são as que mais têm propensão a ter um diagnóstico de câncer. O ideal é que a gente se alimente bem, faça exercícios, que a gente tenha bons hábitos. Isso é fundamental.”
A oncologista reforça: “Estamos diante de um tumor fortemente associado ao estilo de vida. Alimentação rica em frutas, verduras e cereais integrais, prática regular de atividade física e controle do peso têm impacto direto na redução do risco”.
Durante o mês de março, a campanha Março Azul-Marinho reforça a importância da conscientização. “O câncer colorretal tem altas taxas de cura quando diagnosticado precocemente. Informação, mudança de hábitos e acesso ao rastreamento são as ferramentas mais eficazes para reduzir a mortalidade”, conclui a oncologista Paula Sampaio.
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