A morte do atleta e influenciador Gabriel Ganley, de 22 anos, voltou a lançar luz sobre um debate cada vez mais presente no universo esportivo. O caso, que ganhou repercussão nacional após o jovem ser encontrado morto em seu apartamento, na capital paulista, reacendeu discussões sobre os impactos físicos e metabólicos do fisiculturismo competitivo.
Reconhecido por exigir disciplina extrema, o fisiculturismo combina treinos intensos, dietas altamente restritivas e uma preparação minuciosa voltada para volume muscular, definição e simetria corporal. No entanto, especialistas alertam que, quando conduzido sem acompanhamento rigoroso, o esporte pode representar sérios riscos à saúde.
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Um estudo publicado neste ano no European Heart Journal revelou que fisiculturistas profissionais apresentam risco cinco vezes maior de morte súbita quando comparados a atletas amadores. A pesquisa analisou mais de 20 mil competidores da Federação Internacional de Fisiculturismo & Fitness (IFBB), monitorados ao longo de mais de oito anos.
Para o endocrinologista Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a preparação exige acompanhamento técnico rigoroso.
“O preparo do fisiculturista envolve meses ou anos, e o planejamento deve ser minucioso e acompanhado por especialistas. No entanto, as suplementações e o uso de anabolizantes vêm muito do mundo ‘underground’, do conhecido leigo e, muitas vezes, expõem ainda mais a saúde desses atletas”, afirmou.
Segundo o especialista, o ciclo de preparação passa pela fase de ganho de massa muscular, conhecida como bulking, seguida do cutting, etapa em que o atleta reduz drasticamente o percentual de gordura corporal.
“Isso exige restrição, muitas vezes severa, de alguns nutrientes, manipulação de macronutrientes e risco de deficiências nutricionais, de desidratação e, até mesmo, de desregulação hormonal. Então, é necessário um suporte adequado de nutricionistas e médicos especializados, porque, se não, o atleta entra em exaustão metabólica e sofrimento fisiológico grande”, explicou Macedo.
A cardiologista Amanda Gonzales, da Unidade de Cardiologia do Exercício do Hospital Sírio-Libanês de São Paulo, chama atenção para os efeitos do uso de substâncias anabólicas. “Não existe ‘dose segura’ para o uso suplementar dessas substâncias, seja para fins estéticos ou ganho de performance”, alertou.
Ela também destacou os riscos de práticas adotadas antes das competições. “A desidratação intensa, com o objetivo de eliminar líquidos do corpo, pode levar a distúrbios hidroeletrolíticos, aumentando o risco de arritmias, trombose, além de alterações renais agudas e problemas digestivos”, afirmou.
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Já o cardiologista Carlos Rassi, do Hospital Sírio-Libanês de Brasília, reforçou os impactos cardiovasculares do uso prolongado de esteroides.
“Estas alterações, no médio e longo prazo, aumentam o risco de infarto, AVC e morte súbita, mesmo em jovens aparentemente saudáveis”, destacou.
Efeitos das dietas extremas
Casos de restrição brusca de carboidratos e gorduras, associados a treinos intensos e longos períodos em jejum, podem provocar hipoglicemia, perda de massa magra, alterações hormonais, distúrbios do sono e queda da imunidade.
Além dos riscos físicos, especialistas apontam que a obsessão por performance estética pode desencadear transtornos ligados à imagem corporal e sobrecarga psicológica.
A morte de Gabriel Ganley reforça o alerta de que o fisiculturismo, embora seja uma prática esportiva legítima, exige responsabilidade, supervisão médica e acompanhamento multidisciplinar constante.
Como resume Clayton Macedo, o alto rendimento exige preparo técnico, mas também limites. “Se não houver acompanhamento adequado, o atleta pode entrar em exaustão metabólica e sofrimento fisiológico importante”, concluiu.
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