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Esclerose múltipla: o que fazer após o diagnóstico?

Especialistas explicam como iniciar o tratamento, escolher terapias, organizar o acompanhamento médico e manter a qualidade de vida.

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Imagem ilustrativa da notícia Esclerose múltipla: o que fazer após o diagnóstico? camera Esclerose múltipla: diagnóstico precoce, tratamento individualizado e acompanhamento multidisciplinar ajudam a controlar a doença e preservar a qualidade de vida. | ( Divulgação)

Receber o diagnóstico de esclerose múltipla pode gerar insegurança e muitas dúvidas sobre o futuro, mas os avanços da medicina ampliaram as possibilidades de tratamento e controle da doença. Especialistas em neurologia e neuroimunologia orientam sobre os primeiros passos após a confirmação, a importância de iniciar a terapia precocemente, o acompanhamento com diferentes profissionais e as medidas que ajudam a preservar a autonomia e a qualidade de vida.

Recebi o diagnóstico de esclerose múltipla. E agora?

O neurologista e neuroimunologista Caio Disserol, formado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), explica que o primeiro passo é compreender a doença e conhecer as opções disponíveis para controlá-la.

“Receber o diagnóstico de esclerose múltipla costuma despertar dúvidas e preocupações. Muitas pessoas ainda associam a doença à perda de autonomia ou ao uso de cadeira de rodas, mas essa não é a realidade da maioria dos pacientes atualmente", diz ele.

O neurologista e neuroimunologista Caio Disserol
📷 O neurologista e neuroimunologista Caio Disserol |( Reprodução / arquivo pessoal )

Embora a doença ainda não tenha cura, os avanços das últimas décadas transformaram seu tratamento. Hoje existem diversas terapias de alta eficácia capazes de controlar a atividade da doença, reduzir o número de surtos e retardar significativamente sua progressão.

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A esclerose múltipla é uma doença inflamatória que acomete o sistema nervoso central, incluindo cérebro, medula espinhal e nervos ópticos. Ela pode se manifestar por surtos, como alterações visuais, perda de sensibilidade, fraqueza, desequilíbrio e visão dupla. Mesmo quando não há sintomas aparentes, a doença pode continuar ativa, o que reforça a importância do acompanhamento periódico e da realização de exames, como a ressonância magnética.

As terapias modificadoras da doença atuam reduzindo surtos, novas lesões e o risco de incapacidade ao longo do tempo. Existem medicamentos orais, injetáveis por via subcutânea e intravenosa, e a escolha deve ser individualizada, levando em consideração características da doença, exames, outras condições de saúde, planejamento familiar, estilo de vida e preferências do paciente.

Segundo os especialistas, iniciar o tratamento precocemente é um dos principais fatores para melhorar o prognóstico. O objetivo não deve ser apenas tratar os sintomas quando eles aparecem, mas prevenir novos danos ao sistema nervoso.

Em determinadas situações, especialmente quando a doença apresenta sinais de maior atividade, pode ser indicada desde o início uma medicação de alta eficácia. Essa decisão deve ser compartilhada entre o paciente e o neurologista, após uma discussão transparente sobre os benefícios, os riscos e a necessidade de monitoramento de cada opção.

A doença pode progredir?

Sim, essa possibilidade existe. A piora pode ocorrer em consequência de surtos com recuperação incompleta ou de forma gradual, mesmo sem novos surtos aparentes. No entanto, a evolução varia de pessoa para pessoa e não pode ser prevista apenas com base no diagnóstico. Com tratamento adequado e acompanhamento regular, muitos pacientes conseguem controlar a doença e reduzir significativamente o risco de progressão.

Além das medicações, hábitos saudáveis, atividade física, sono adequado, alimentação equilibrada e o cuidado com a saúde mental fazem parte do tratamento. A esclerose múltipla passa a fazer parte da vida do paciente, mas não precisa definir seu futuro. Com acompanhamento adequado, é possível preservar a autonomia e manter uma vida ativa.”

Como saber qual é o tratamento mais adequado?

A neurologista Laura F. Parolin destaca que a escolha do tratamento deve considerar as características de cada paciente.

“O tratamento da esclerose múltipla é individualizado. A escolha da terapia considera fatores como a atividade da doença, o número e a localização das lesões, sinais de progressão, outras condições de saúde, planejamento familiar, rotina e preferências do paciente", detalha ela.

A neurologista Laura F. Parolin
📷 A neurologista Laura F. Parolin |( Reprodução / arquivo pessoal )

Atualmente, as práticas clínicas mostram que, quando indicado, iniciar precocemente uma terapia de alta eficácia pode modificar a evolução da doença e reduzir o risco de incapacidade futura.

Ainda assim, segundo a neurologista, "o tratamento deve ser constantemente reavaliado, pois pode ser necessário ajustá-lo ao longo do acompanhamento para garantir eficácia, segurança e qualidade de vida".

O que perguntar ao médico nas primeiras consultas?

O neuroimunologista Flavio Vieira Marques Filho, formado pela USP, recomenda que o paciente leve uma lista de perguntas para as consultas. A iniciativa ajuda a esclarecer dúvidas e facilita a participação nas decisões sobre o tratamento.

“É natural sair da primeira consulta com muitas informações e esquecer parte das orientações recebidas. Uma boa estratégia é levar uma lista de perguntas para aproveitar melhor esse momento e participar das decisões sobre o tratamento", recomenda ele.

O neuroimunologista Flavio Vieira Marques Filho
📷 O neuroimunologista Flavio Vieira Marques Filho |( Reprodução / arquivo pessoal )

Entre os principais pontos que devem ser discutidos estão:

  • Diagnóstico: qual é o tipo de esclerose múltipla e quais exames sustentam a conclusão?
  • Tratamento: quais são as opções disponíveis e por que determinada terapia é recomendada?
  • Surtos: como reconhecer um possível surto e quando procurar atendimento?
  • Rotina e bem-estar: qual é o papel dos exercícios, do sono, da alimentação, da reabilitação e da saúde emocional?
  • Acompanhamento: com que frequência serão realizadas as consultas e quais exames precisarão ser repetidos?

Um surto costuma envolver sintomas neurológicos novos ou agravamento dos anteriores por mais de 24 horas, sem que outra causa, como febre ou infecção, explique o quadro. Diante de sintomas novos, o paciente deve entrar em contato com a equipe de saúde para receber orientação, sem tentar fazer o diagnóstico sozinho.

Também é importante conversar sobre vacinação, planejamento familiar, possíveis efeitos colaterais e adaptações necessárias no trabalho ou nos estudos.

Por que o acompanhamento de diferentes profissionais de saúde é importante?

O neurologista e neuroimunologista João Pedro Izidoro, ressalta que o cuidado vai além do uso de medicamentos. Como a esclerose múltipla pode afetar diferentes aspectos da saúde, uma equipe multidisciplinar ajuda a atender necessidades específicas e preservar a independência do paciente.

“O tratamento da esclerose múltipla vai além da medicação. O objetivo do tratamento é cuidar da pessoa como um todo, preservar sua autonomia, sua qualidade de vida e seus projetos para o futuro. Ela pode se manifestar de muitas formas, muitas vezes invisíveis aos olhos de terceiros, e só o paciente é capaz de sentir. Cada um desses desafios merece o cuidado de um profissional específico", explica João Pedro Izidoro.

O neurologista e neuroimunologista João Pedro Izidoro
📷 O neurologista e neuroimunologista João Pedro Izidoro |( Reprodução / arquivo pessoal )

O especialista destaca as principais contribuições de uma equipe multidisciplinar:

  • Neurologista: coordena o diagnóstico e a terapia modificadora da doença, fundamentais para reduzir surtos e retardar a progressão.
  • Fisioterapeuta e educador físico: trabalham força, equilíbrio e condicionamento. “O exercício deixou de ser apenas recomendável e passou a fazer parte do tratamento, melhorando a fadiga, a mobilidade e o humor”, explica o médico. A atividade deve respeitar as condições individuais e as orientações da equipe de saúde.
  • Terapeuta ocupacional: ajuda a preservar a autonomia nas atividades cotidianas e profissionais, adaptando tarefas para torná-las mais seguras e menos cansativas.
  • Psicólogo: auxilia no enfrentamento da ansiedade, da depressão e de dificuldades emocionais ou cognitivas que podem afetar a qualidade de vida e a adesão ao tratamento.
  • Enfermeiro: orienta sobre o uso correto dos medicamentos e os cuidados necessários durante a terapia.
  • Nutricionista: ajuda a estabelecer hábitos alimentares equilibrados e adequados às necessidades de cada paciente.
  • Urologista e ginecologista: contribuem para a avaliação de alterações urinárias e questões relacionadas à saúde sexual e reprodutiva.

A participação de cada profissional depende das necessidades do paciente e deve ser integrada ao acompanhamento médico.

É possível continuar trabalhando, estudando e mantendo uma vida ativa após o diagnóstico?

João Pedro Izidoro afirma que sim. Segundo ele, "o prognóstico da esclerose múltipla mudou significativamente nas últimas décadas graças ao diagnóstico mais precoce e ao desenvolvimento de terapias cada vez mais eficazes".

Na prática, isso significa que o diagnóstico não é mais sinônimo de interromper a carreira, largar a faculdade ou desistir de projetos. A maioria dos pacientes segue trabalhando, estudando, praticando esporte, viajando, tendo filhos e construindo famílias.

O neurologista e neuroimunologista explica que "existem desafios, claro, mas a esclerose múltipla é uma condição crônica, tratável, que não merece ser interpretada como uma sentença, e sim como um diagnóstico. Afinal, viver bem com ela é regra, e não é exceção".

A experiência com a doença varia de pessoa para pessoa, e algumas podem precisar de adaptações na rotina devido à fadiga, às alterações de mobilidade ou a dificuldades cognitivas. Por isso, o tratamento individualizado e o acompanhamento regular são essenciais para identificar necessidades e estabelecer estratégias de cuidado.

Informação e acompanhamento ajudam a enfrentar o diagnóstico

O diagnóstico de esclerose múltipla marca o início de uma etapa de cuidados que envolve tratamento, monitoramento e atenção à saúde física e emocional. Conhecer as opções terapêuticas, esclarecer dúvidas com o neurologista e contar com profissionais de diferentes áreas são medidas que ajudam o paciente a participar das decisões e preservar sua qualidade de vida.

Embora a evolução da doença não seja igual para todos, os avanços no tratamento ampliaram as possibilidades de controle. Com acompanhamento adequado, muitas pessoas conseguem manter sua autonomia, seguir com suas atividades e continuar planejando o futuro.

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