País com infinitos problemas, Moçambique continua a inspirar um de seus mais famosos autores, Mia Couto. Fiel na crença de que a palavra é um instrumento de sobrevivência, ele volta a utilizá-la com primor em Estórias Abensonhadas, livro recém editado pela Companhia das Letras. Pela poética do título, percebe-se que ele continua fiel seguidor de bons cultivadores da língua portuguesa, como Guimarães Rosa e Manoel de Barros.
O neologismo “abensonhadas” tem origens climáticas, como se percebe logo no primeiro conto da obra. Além da guerra, Moçambique teve de enfrentar a seca, o que agravou o problema da fome e a miséria. Segundo a crença popular, a vinda da chuva estava condicionada ao final dos conflitos, que assolaram o país
A chegada da água, portanto, é sonhada e abençoada, ou “abensonhada”. Com isso, o escritor reforça o acordo entre os acontecimentos e a sabedoria tradicional que marca sua obra. Sobre o assunto, Mia respondeu, por e-mail, às seguintes questões:
P: Os contos revelam o elo entre o velho e a criança, ou seja, o guardião das tradições e aquele que as perpetuará. Com o futuro incerto para muitos países como Moçambique, a esperança está na busca e no uso da imaginação?
R: Esse velho e a criança caminhando juntos é uma metáfora sobre a necessidade que o meu país tem de encontrar soluções de continuidade e compromissos entre o tempo nosso e o tempo do mundo, entre a modernidade e a tradição, entre a escrita e a oralidade. A imaginação é importante, sim. Mas a imaginação, num mundo em que a oralidade e a ruralidade ainda predominam, é algo que não é tão cerceado como nas sociedades da escrita, nas sociedades urbanizadas e industrializadas.
P: Você acredita, então, na possibilidade de, no futuro, tender a escrever mais sobre a criança?
R: Ninguém, em verdade, escreve “sobre” ou “para” a criança. Em convívio com as nossas várias identidades, existe um estado de infância que se preserva vivo e ativo e que nos ajuda a compor aquilo que chamamos de “nós mesmos”. Ao escrever, eu sinto não um regresso mas uma espécie de permissão para que esse lado infantil me domine, me possua. É apenas isso, dar mão a essa racionalidade nossa que ainda não foi silenciada pelo chamado “senso comum”.
P: O tempo, como sempre, é elemento importante nas suas histórias. Você acredita já ter aprendido a lidar com a passagem do tempo sem se sentir angustiado?
R: A minha aprendizagem é não ficar intimidado pelo tempo. Em Moçambique, prevalece ainda a ideia de um tempo circular, em contraponto com a de um tempo linear. Essa ideia ajuda a relativizar o sentido de um tempo único, ditado pelas urgências globais. Acho que a felicidade pode ser ajudada se pensarmos que existem tempos, no plural. E não um único compasso que dita o nosso modo de viver.
P: Você escreve sobre temas delicados, como a infelicidade alheia, guerra, fome, miséria, com uma linguagem poética nada simplista. Como consegue?
R: Não é uma questão de escrever, mas de viver. Em Moçambique vive-se assim, sem ficar sufocado pela realidade dura do cotidiano. Reconheço isso em toda a África que visitei: uma capacidade infinita de não sucumbir, de fazer como a vossa canção diz “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Em Moçambique (e acredito que nas outras nações bantus), isso tem a ver com o fato de se pensar que o mau astral convoca os maus espíritos e perpetua a infelicidade. Não é exatamente um sentimento de resignação ou fatalidade. Resulta, sim, da convocação de um espírito positivo, uma atitude de enfrentar a vida sorrindo e fazendo festa. O Brasil herdou essa atitude do seu lado africano. (AE)
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