“Eu queria começar mesmo é com um grande agradecimento para a cidade. Para as pessoas, os artistas, os técnicos, a mídia que nos divulgou. Para todo mundo que de alguma forma esteve presente, meu agradecimento”, declara Zê Charone, e se curva como diante da plateia após o fim de um espetáculo, um dos mais bonitos já realizados pelo Grupo Cuíra e que durou nove anos. Na esquina da Rua Riachuelo com a Travessa 1° de Março, eles fecham as portas do Teatro que criaram para acabar com essa cuíra que tinham de ter um lugar para ensaiar, para fazer longas temporadas, para dar espaço a quem quisesse fazer teatro.
O grupo Cuíra, em atividade há 35 anos, andava pela cidade como os “caçadores de pautas perdidas”, procurando onde havia inscrição de pauta para apresentar suas peças. Até que em 2006 aquela casa transformada em galpão estava vazia. Era o estacionamento de um bingo que funcionava na avenida Presidente Vargas e foi fechado. Edyr Augusto Proença, que ao lado de Zê faz parte do grupo, viu o espaço e conseguiu alugar. “Acho que o palco foi a primeira coisa que entrou aqui, de uma madeira maravilhosa”, orgulha-se Zê. A madeira foi enviada pela Aimex, grupo de exportadores de madeira, enquanto a Loc Engenharia doou uma arquibancada.
Depois de uns seis meses de funcionamento, o Cinema Nazaré fechou e o grupo foi atrás de suas poltronas. Com isso, ampliou a plateia em 100 lugares. “Pegamos as primeiras e as últimas, que eram as menos usadas, todas lindas, vermelhas. Agora já tiramos tudo, doamos para uma igreja, enfim, o espaço vai ficar como encontramos, vazio. Conseguimos muito em trabalho de permuta. Eu escrevia para uma revista e em troca eles construíram pra gente essa parte (banheiros da entrada, bilheteria e escritório)”, conta Edyr.
“Só tinha banheiros lá no fundo, quando a plateia queria ir ao banheiro no meio do espetáculo, a gente tinha que passar quase pelo palco e levar lá atrás. Aí vieram os ar-condicionados, também doados. E foi assim que iniciamos esse lugar, mas de forma muito difícil, bancando aluguel, conta de água, luz, telefone, faxineira, técnicos e os atores. E abrimos pauta pra todo mundo, criamos o projeto ‘Pauta Mínima’. A gente dava cachê, assessoria de imprensa, lugar para ensaiar, se apresentar e rachava a bilheteria”, conta Zê.
“Esse sempre foi um espaço aberto para todo mundo, tanto que o primeiro espetáculo aqui não foi nosso e sim do Gruta, eles inauguraram esse espaço com o espetáculo ‘Soca-soca’”, lembra Edyr. E o teatro ficou conhecido nacionalmente, recebendo muitos pedidos de pauta de pessoas que já tinham vindo apresentar espetáculos de Recife, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro. “E aí, quando eu respondo que a gente não tem mais o teatro, a pessoa diz: ‘Então pra onde eu vou?’”, lamenta Zê.
O teatro e o grupo estavam sobrevivendo de prêmios nacionais e editais da Funarte. “E agora até isso está suspenso, não tem dinheiro. A cultura no país todo está parada”, critica Edyr. Mesmo assim, quando há dinheiro da Funarte e o grupo monta um espetáculo maravilhoso, não consegue trazer mais do que 20 pessoas para assistir. “Tenho certeza de que muitos hoje estão dizendo: ‘Ai, que pena, o Cuíra fechou’. E você pergunta: ‘Você foi lá?’, e a pessoa diz: ‘Não, não fui’. Vamos então para outro lugar menor, mais adequado ao tamanho do teatro local”, desabafa Edyr.
Muita coisa foi produzida ao longo destes nove anos em termos de figurino também e, indo para lugar menor, o grupo não tem como manter um acervo. Por isso, guardou apenas o mínimo para contar sua história e o restante foi doado para dois grupos de pássaros juninos. Assim, para trás ficam apenas as boas lembranças. “Acima de tudo, o grande momento é sempre quando você está nos bastidores, começa a tocar as três campas para abrir a porta e você se pergunta: ‘Será que eles vêm?’, que é o público. E não há nenhum outro lugar no mundo em que eu gostaria de estar senão naquele lugar, nos bastidores, para começar um espetáculo”, descreve Edyr.
Cuíra vai literalmente para a rua
O FIM DA ZONA
Quando o grupo chegou e abriu suas portas em plena Riachuelo, o primeiro desafio foi superar o preconceito do público com a localização, já que o endereço é conhecido por ser um ponto de prostituição. “Logo fizemos amizade com as prostitutas, que participaram do primeiro espetáculo do Cuíra no teatro”, conta Zê Charone. E Edyr sorri um pouco ao lembrar de algumas dificuldades deste começo. “Foi difícil ensaiar, porque às vezes uma chegava e dizia: ‘Hoje eu não posso porque estou bêbada, o cliente me fez beber’. Elas foram muito legais”, garante.
Mas há cerca de um ano e meio as coisas começaram a mudar. “Chegaram os ‘craqueiros’. A gente se dá muito bem com eles, mas as pessoas não acreditam e dizem: ‘Aí não vou, eu tenho medo’”, admite Edyr. E as memórias vão se entrelaçando a esse entorno. Para Zê, um dos momentos mais marcantes da história do teatro foi o espetáculo “PRC-5”, sobre os 80 anos da Rádio Clube, quando ficaram dois meses em cartaz, sempre com grande público.
“Nessa época, nosso entorno era 80% de prostitutas. Hoje é 100% de crack. O Cuíra também acompanhou essa mudança e o consequente afastamento do público. Neste último ano, o teatro recebeu pelo projeto ‘Pauta Mínima’ dez espetáculos da cidade e os próprios atores, quando vinham para o ensaio ou temporada, ficavam com medo. Então pensei: ‘Gente, se o ator começou a ficar com medo de chegar aqui, a coisa não está legal’”, revela Zê. “Eu lamento, mas não é essa lamentação que faz chorar, porque não foram nove dias, foram nove anos! Nós fizemos muitas coisas, o Cuíra aprendeu a desenvolver outros tipos de projetos porque estava aqui neste espaço. O grupo ganhou muita coisa com estes anos aqui”, completa.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar