É contraditório, diria cruel até, dizer que há beleza na dor. Mas é assim que Sebastião Salgado traça sua obra. Não que haja o belo em si no sofrimento diante dos olhos, mas há poesia na denúncia, há pureza na realidade, há, sim, um direcionamento do olhar para extrair beleza do que só deveria haver, em muitas vezes, escuridão, aquilo que não se quer enxergar. Há, portanto, uma forma só dele de retratar a obscuridade da vida.
Sebastião Salgado mergulhou a fundo em recantos que muitos nem imaginam existir. Retratou refugiados de guerra, a seca no Nordeste, o cotidiano América adentro, acompanhou a ONG Médicos Sem Fronteiras e viu feridos e literalmente mortos de fome, viajou inúmeras vezes à África (registrou de perto a guerra étnica entre tutsis e utus em Ruanda), fotografou trabalhadores braçais com ofícios dos mais inesperados e surpreendentes, e ao mesmo tempo tão triviais. Direcionou sua máquina para revelar aquilo tudo que ninguém enxergava. Com espírito de fotojornalista, estava sempre no local certo na hora certa; com visão de artista, usava a obra de arte como bandeira e crítica.
A curiosidade de Win Wenders sobre Sebastião nasceu muito antes de “O Sal da Terra”, documentário que estreia hoje no Cine Líbero Luxardo, quando, há anos, encontrou em uma galeria de artes uma imagem da famosa série sobre “Serra Pelada”. Instigado, quis ver mais, foi quando a galerista lhe mostrou uma imagem de uma mulher cega, que até hoje exibe em sua escrivaninha. Daí partiu para conhecer o homem por trás daquelas fotos e nada mais justo que, décadas depois, quando Juliano Salgado, filho de Sebastião, decidiu dar um olhar externo ao filme que fazia sobre seu pai, fosse Wenders o nome a dividir os créditos.
Wenders e Juliano Salgado mostram o homem por trás das lentes. Apresentam a trajetória de uma vida que, literalmente, na realidade e na tela, funde fotógrafo e imagem. Revelam também como um profissional tão renomado se reinventa, e passa a fotografar a natureza em busca do sopro vital depois de ter passado tanto tempo envolto pela dor alheia. E como a natureza salva sua vida, sua família, sua história.
(Diário do Pará)
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