Em uma igreja com séculos de história, paredes barrocas, anjos e santos talhados em madeira, as vozes em coro que ecoam pelas paredes fazem vibrar o corpo e a alma de quem as escuta. “É como se a voz dos homens se unisse a dos anjos”, sussurra uma moça com véu sobre a cabeça, sem jamais desviar o olhar dos coristas que cantam a partir do altar da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no bairro da Campina. Seu encantamento não devia ser pela letra. Pouco provável que ela dominasse o latim. Mas ali se ouvia a mais antiga manifestação musical do ocidente, trazida desde os tempos de Jesus Cristo e com bases em algo simples, porém cativante ao ser humano – o som da palavra.
Por muitas vezes, é com esta frase que se define o canto gregoriano, ou canto chão, conhecido por ser o canto oficial da Igreja Católica. Isso porque ele nasceu mesmo da sonoridade produzida pelas palavras do texto bíblico, principalmente dos salmos. O seu auge foi nos séculos 7 e 8, recebendo este nome em homenagem ao papa Gregório Magno (540-604), responsável por elaborar uma coletânea de peças gregorianas e iniciar a primeira “Schola Cantorum”. Em Belém, a Catedral Metropolitana é uma das que possuem sua própria Schola Cantorum preparando o coral que acompanha suas missas.
A diferença é que o coral da Catedral canta também em polifonia, e uma das principais características do canto gregoriano é ser cantado em latim, a uma só voz, ou seja, com todos cantando na mesma melodia. “Por ser extraído de textos bíblicos, ele não tem uma métrica igual, é prosódico, ou seja, é um texto em prosa que vira música. E cantado à capela, sem acompanhamento de instrumentos musicais”, completa o pesquisador André Gaby, da Universidade Federal do Pará.
Como pesquisador do canto gregoriano no Pará, André Gaby mantém o projeto de extensão “Resgate e Difusão da Prática do Canto Chão no Pará”, pela Escola de Música da UFPA. “Este é o segundo projeto que mantemos. A primeira versão tinha como objetivo montar um coro, que tem dois anos de criação. Já este busca divulgar a prática musical gregoriana e sua importância histórica e cultural no estado, além de se abrir agora para vozes femininas e infantis”, destaca.Paralelo ao ensino do canto chão, André desenvolve uma pesquisa baseada em um livro encontrado pelo paraense Vicente Salles, uma compilação de peças gregorianas escritas por um monge também paraense. “O livro é de 1780 e foi publicado em Portugal, apesar de o monge ser mercedário, uma ordem religiosa espanhola”, conta o pesquisador, que foi à Espanha para vasculhar documentos e manuscritos. “Existem listas com vários nomes de monges daqui que eram músicos, organistas, cantores, e o ápice foi o João da Veiga, quem compilou o livro”, revela.
A princípio, André Gaby percebeu que as melodias dos Mercedários do Pará não são iguais às melodias dos espanhóis. Assim, ele investiga onde o monge se inspirou. “Como a gente tinha relação com Portugal, é possível que tenha influência dos cantos portugueses, mas também pode ter sido alguma intervenção daqui, porque tem uma história de que um número muito grande de índios catequizados cantavam nos coros de Belém”, explica. É um trabalho que vai durar ainda alguns anos, afirma o pesquisador, que enquanto isso, continua a ensinar o som da palavra a quantas pessoas for possível.
(Laís Azevedo/Diário do Pará)
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