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Era sexta-feira de falsa paixão e Madalena veio falar comigo

O jornalista e escritor Anderson Araújo publica hoje um conto sobre um músico iniciante, uma estrela e a derradeira conversa dos dois no fundo de uma igrea, numa Sexta-feira Santa. Leia a coluna Daqui te Escrevo com textos literários publicados sempre às quintas-feiras no DOL.

quinta-feira, 14/04/2022, 14:39 - Atualizado em 15/04/2022, 11:37 - Autor: Anderson Araújo

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Imagem ilustrativa da notícia: Era sexta-feira de falsa paixão e Madalena veio falar comigo
| Arte: Emerson Coe

Ela estava em um comercial de shampoo quando adentrou o recinto. Só pode. O tempo parou para ver o balançado das madeixas enormes. Sandro Botticelli estremeceria se não gostasse tanto de ruivas. Até me benzi ao ver. Mentalmente, óbvio. Estávamos na igreja, afinal. Não por coincidência, pensei no crescei e multiplicai-vos.

Parecia que havia saído de casa para gravar uma novela e dispensou o cabeleireiro e o maquiador para entrar em cena. O que mais me impressionou era que estava enxuta. Sequinha. Nenhuma gotícula. Como pode alguém em Belém do Pará chegar em qualquer lugar às duas da tarde e não verter um pingo de suor sequer? Pois ela chegou desse jeito, como se ao redor houvesse uma central de ar condicionado invisível.

Na linha do Equador, um irretocável umbigo, lindo mesmo, nem parecia que o cordão umbilical dela havia sido cortado por mãos humanas. Seria extraterrestre? Uma aparição? Era possível.

Nem fantasma nem alma penada: reparei no pé. Era um pezão feio, de dedos longos, unhas feitas e pintadas de esmalte e o prenúncio de um joanete que viria na velhice. Era gente, sim. Gente tem pés e quase sempre são horríveis.

Tinha dentes enxeridos para frente, uma dentuça sem que a dentição lhe fosse um defeito ou a tornasse alvo de chacota. Ela tinha esses sorrisos de rica, que mulheres grã-finas dão, com a boca escancarada para exibir o cuidado de um bom dentista desde o berço. O rosto acompanhava o corpo longilíneo, com exceção do quadril bem fornido, que também me chamou atenção naquela entrada triunfal.

Na igreja diante dela, tive vontade de me esconder. Estava com uma calça moletom preta já desbotando e cheia de manchas de água sanitária e uma camisa de listras verticais amarelo queimado e cinza cimento com as mangas cortadas por mim mesmo. Era magro feito um faquir e o rosto tomado por acne. Usava uma sandália de padre e meus pés estavam empoeirados e ressecados e as unhas precisavam urgentemente de uma pedicure. Segurava a velha guitarra elétrica branca e vermelha. Desde a primeira vez que peguei o instrumento, percebi que o talabarte fedia a peixe. Já havia pedido para trocarem. Ninguém me deu ouvidos.

Do alto da vossa divindade, ela me sorriu. Devolvi um esgar de quase desespero que emulava uma alegria cheia de tártaro por, finalmente, conhecer de perto a tão falada cantora que animaria a missa das oito.

Deu-se assim nosso primeiro encontro. Ela, uma estrela. Eu, estreante na música.

De minha parte, aprendi a tocar os primeiros acordes de violão aos trancos e barrancos com Marquinho, um missionário salesiano gente fina. Um branco avermelhado, de óculos de aros finos, e um sotaque levemente nordestino.

Arrumei um instrumento velho, cheio de remendos com Durepox. Marquinho ensinou uns dedilhados e as batidas de rock e baião. Com isso, já dava para perturbar todo mundo com as músicas do Legião Urbana. O ditado pós-moderno se aplicava: não há um homem chato que um violão não possa piorar. 

Dois meses depois, o professor me deixou. Saiu para outras paragens, missionário que era, e me jogou no fogo:

— Aprende o resto sozinho. Vai tocar na missa.

— Mas, Marquinho, não aprendi nadinha.

— Te vira, moleque.

Tentei, sem sucesso, aulas com um outro professor, o Tião, um excelente instrumentista com linda voz, grave e límpida. O negro alto de belos olhos castanhos, engomadinho como católico fiel, camisa toda abotoada, me olhou desconfiado e sentenciou, sem nenhuma misericórdia, repetitivo:

— A gente aprende é sozinho durante a missa.

Sem remédio ou apoio, fui.

Morto de vergonha, sem jeito e nenhuma técnica. Por trás dos bumbos, tambores, tarol e pratos, o baterista Aranha, me repreendia. Sacudia cabeça e me fulminava com os olhos vermelhos de ressaca da noite anterior. Louvado seja, meu senhor, louvado seja, meu senhor! Hosana nas alturas!

— Porra, errou de novo, caralho!

O esculacho do Aranha era abafado pela cantoria das crianças na missa das oito e pelas porradas cada vez mais forte na bateria.

Quando o baterista estava à beira da desistência e sem nenhuma paciência com o tocador que vos escreve, apareceu o Ed.

Ed era um ás no violão, infinitamente melhor do que eu — não tinha nem comparação. Sem muito esforço, tomou o lugar de guitarrista titular. Como nunca fui de competição, ali mesmo, na bandinha meia boca, abri mão na hora daquela guerra que já estava perdida mesmo antes de eu nascer.

Ego ferido, humilhado pelo talento e destreza do musicista e pela minha absoluta incompetência como violonista, fui ter com a cantora, a quem acompanhava desde o começo daquela aventura miserável e, supunha eu, precisava saber da minha decisão.

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Nossa convivência nunca se estreitou desde a sua entrada de top model naquela tarde com aroma de pitiú, que eu jamais apaguei da lembrança. Não ficamos amigos, nem inimigos. Aquela quase paixão do começo se converteu rapidamente em um revirar de olhos - sempre disfarçadamente, é claro - especialmente porque ela cantava hiper concentrada e pouco interagia com a ralé que a acompanhava, no caso, nós. O nariz em pé não me desceu.

Depois de muito pensar, tomei coragem e a chamei para conversar. Estava um pouco aflito e minha timidez me estrangulava. Só eu não sabia o que estava fazendo ali e minha presença ao lado do Jimi Hendrix paraense e da próxima aposta feminina da música popular brasileira não fazia nenhum sentido. Do batera Aranha, já havia perdido apoio havia tempos.

Era sexta-feira, dia sagrado dos ensaios, mais ainda por ser Semana Santa. Mais uma vez, a igreja contava só com bancos de madeira vazios e nós. Sentei ao lado dela antes de começarmos os trabalhos e, como quem conta um segredo, falei baixinho:

— Madalena, preciso falar contigo.

— Pode falar.

— Aqui não.

— Por que não aqui?

— É particular.

— Fala logo aqui, menino.

— Vamos pro fundo da igreja, por favor.

— Tá bom.

Ela me olhou intrigada. Sentou-se de frente pra mim, as mãos entre as coxas e a cabeça levemente virada para a esquerda, em sinal de atenção e compreensão do que viria, como um cachorro quando falamos e ele tenta entender. De pernas cruzadas, o longo pescoço, posuda feito bailarina da Escola de Dança Clara Pinto que era, disse:

— Já sei. Não precisa falar nada. Já sei de tudo...

—  Ah, eu imaginava que já soubesse.

— Pois é, eu já sei.

—  Não dava mais pra disfarçar, né?

— Sim, tá na cara. Todo ensaio é isso...

— Nem todo, mas tá difícil.

—  Fala logo: tu és a fim de mim, não é?

Fiquei uns três segundos mudo, sem entender. Será que ela disse mesmo isso?

— Como?

— Tu és a fim de mim. Eu já sei. É isso que queres dizer, não é?

Engoli a bola de cuspe seco que se formou na minha glote. Recapitulei os episódios daquela nossa série mal escrita e de baixo orçamento.

Tive todo tipo de devaneio enquanto a olhava bem na minha frente. A boca rosada cheia de gloss aroma de morango, as cascatas de cabelo derramadas sobre os ombros delicados, peitos em flor, escondidos em sutiã pequeno de algodão, o quadril farto, as mãos de delgados dedos e sem nenhum calo, os dentes proeminentes tão perfeitos e nenhuma cárie nas arcadas alvas, um convite escancarado aos meus hormônios imaturos que ferviam embaixo do meu frágil, pueril e errante coração.

Respirei fundo, preparei as palavras com o cuidado que minha idade permitia e disse sem medo, com um tom calmo, embora exalasse ainda a timidez, que só perdi anos mais tarde:

— Não, não sou. Só vim avisar que não vou mais tocar com vocês, já que o novo guitarrista toca muito melhor do que eu. Sou desnecessário por aqui.

Silêncio.

Ela arregalou os belos olhos pequenos ornados com longos cílios, comprimiu a boquinha e balançou sua cabeça helênica em sinal positivo. Soltou murcha, meio oca:

— Ah, tá. Ok.

— Pois é.

— Pois é.

— Tchau.

— Tchau.

Voltou ao vocal, arrastando as sandálias.

Levantei e caminhei para fora da igreja. Escutei Aranha dar uma virada na batera, Ed mandar um solo de introdução e ela iniciar, meio desafinada, o hino Quero te dar a paz.

Voltei pra casa um pouco mais leve, com a minha falta de talento, depois de enfrentar pela primeira vez a presunção em forma de gostosa.

 

Anderson Araújo é escritor, jornalista da equipe do Dol e escreve às quintas.

 

Conto publicado originalmente noblog Daqui Te Escrevo.

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Vá ouvir Tchau, tchau, amor.

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