Mesmo sem ter conseguido vaga no circuito brasileiro para seu último longa, “Ronda da noite” (“Nightwatching”), concorrente ao Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2007 que acaba de chegar em DVD às locadoras, Peter Greenaway não desistiu do Brasil. Assim que conseguir os recursos necessários para desengavetar um sonho — rodar em São Paulo um filme de tintas eróticas, com base no Velho Testamento —, o cineasta galês de 68 anos vai incluir a geografia brasileira em seu projeto de descoberta das Américas pelo audiovisual cuja largada acaba de ser dada, via México. É lá que ele vai rodar um filme sobre o maior mito do cinema soviético: Sergei Eisenstein (1898-1948), realizador de “O encouraçado Potemkin” (1925), maior rival de “Cidadão Kane” (1941) pelo posto de maior filme de todos os tempos. Paralelamente, Greenaway está com os olhos voltados para a Argentina, preparando-se para rodar um novo longa em Buenos Aires.
— Vou à Argentina filmar “The whore without a face”, uma produção em língua espanhola que pode reunir atores de todo o continente. Pode ter até um brasileiro, desde que ele fale espanhol. A América Latina está num momento rico de expressão cultural para o mundo, libertando-se do colonialismo europeu. É um momento de afirmação que coincide com o momento em que o etnocentrismo cinematográfico da Europa entra em decadência, depois que o Velho Mundo estacionou na pré-História audiovisual — diz Greenaway, por telefone.
Com planos de voltar ao Brasil com a performance “Tulse Luper suitcases”, mescla de videoarte e jogo eletrônico que trouxe ao Rio em 2008, o realizador de “O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante” (1989) assume sua pouca intimidade com o cinema brasileiro contemporâneo.
— Tenho visto filmes brasileiros de maneira muito esparsa, aos pedaços, pela internet. Os filmes não chegam à Europa. E, de qualquer modo, eu não vou mais ao cinema. Não tenho mais paciência para aquele ritual de permanecer sentado duas horas recebendo informação, sem interatividade, sem troca — diz. — No século XVII, Rembrandt (1606-1669), na pintura, à sua maneira, já fazia cinema, em seu jogo com a luz. Quando avaliamos seus quadros, vemos que o cinema não avançou muito. Leia mais no Diário do Pará.
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