Diário Online
EMPODERAMENTO

Qual é a força feminina que te nomeia?

Cinco mulheres, cantoras paraenses, explicam como um novo nome artístico trouxe sentidos mais profundos

terça-feira, 08/03/2022, 13:04 - Atualizado em 08/03/2022, 13:04 - Autor: Laís Azevedo/Diário do Pará

Google News

Keila passou a usar só o primeiro nome em carreira solo, deixando o Keila Gentil de quando era vocalista da Gang do Eletro.
Keila passou a usar só o primeiro nome em carreira solo, deixando o Keila Gentil de quando era vocalista da Gang do Eletro. | (crédito: Divulgação)

A força feminina pode estar em pequenas escolhas, como qual nome usar. É o que mostraram algumas das cantoras da atual cena musical paraense, que optaram por mudar seus nomes artísticos por algo que lhes representassem melhor ou ajudassem elas mesmas a terem uma nova perspectiva para dentro de si, a viverem novos começos. Aíla, por exemplo, não é mais Magalhães desde 2012, quando lançou o álbum “Trelêlê”, sendo lembrada assim, por nome e sobrenome, apenas por alguns jornalistas e fãs paraenses.

Rock e bazar fortalecem mulheres na cena do rock em Santarém

“Mas são pouquíssimas pessoas. Fora do Pará, todo mundo me conhece como Aíla. Quem me conhecia como Aíla Magalhães era de quando eu cantava na noite de Belém, nos festivais pelos interiores”, conta a artista, que está há quase uma década morando em São Paulo. O ponto-chave para a mudança foi a busca por uma identificação mais imediata com aquele momento da carreira e do repertório. “Com o decorrer do tempo, fui percebendo que o meu público estava muito relacionado à música pop, é um público que gosta de coisas diretas e práticas”, observa.

A mesma estratégia foi usada por Keila, que deixou o sobrenome Gentil de lado ao assinar seu primeiro projeto solo, o EP “Keila”, em 2017. “Achei que fosse mais objetivo, mais fácil de trabalhar… E porque Keila Gentil ficava muito ‘fofinha’ para o ‘treme’, o tecnobrega, parecia nome de cantora gospel (risos), então tirei o sobrenome”, ela explica. Criar essa identificação mais direta foi parte ainda do período de transição de uma carreira como cantora da Gang do Eletro para algo muito mais pessoal.

Juliette Freire anuncia turnê pelo Brasil; confira datas!

“É assim que minha família me chama e já demonstra tudo que eu sou, o que eu represento. Keila é bem objetiva como eu sou, muito direta, como é o meu discurso artístico. O fato de ter feito essa mudança foi para ser fácil de entender e acredito que chega em todo mundo, assim como a minha música”, diz.

DUAS EM UMA

Já a cantora Renata Del Pinho viu uma identidade nova surgir, sem anular aquela que já existia e fez questão de externar isso para o mundo e para ela mesma. “A Renah é uma criação de um outro ‘eu’, e ela é esse ser que vem de uma outra dimensão, uma viajante do tempo, do espaço, levando mensagens de boas novas através da música dela. Que sabe usar a música como um poderoso instrumento de cura”, define a artista.

 

| (Jr Franch/Divulgação)
  

Com este alter ego, Renata lançou o seu primeiro disco autoral, “Energia”, fruto de composições realizadas durante o isolamento na pandemia. “Quando comecei a compor, pensei como a gente conseguiria se recuperar de tudo que estava vivendo. Essa sombra toda traz um convite à mudança interior, para vivenciar realmente uma nova era. Mas fiquei com a sensação que não era eu falando aquelas coisas, e surgiu essa identidade”.

Acolhendo o novo

Ao dar a essa outra faceta um nome, Renata conta que também viu mudanças em seu lado compositora. “Algo que eu senti foi que, quando eu saí de mim, me libertei mais pra compor”. A cantora pretende continuar a trabalhar tanto como Renata Del Pinho quanto Renah, inclusive já fazendo composições para um segundo álbum. “A Renah ainda é muito nova em mim, tem coisas sobre ela que ainda não sei e vai vindo aos poucos”.

Conhecida por ser intérprete de MPB e de jazz, ela considera que Renah nasceu também como uma oportunidade de mostrar um lado pop. “O disco tem muita referência à ‘disco music’, e eu consigo andar por esse outro caminho”. Ao apresentar Renah ao mundo, ela conta que algumas pessoas resistiram mais, outras deram um feedback melhor do que ela esperava. “E atingindo outro público mais jovem, que é novidade para mim”, celebra.

Gláfira, que deixou o sobrenome Lobo para trás em 2015, até hoje passa pela resistência à mudança por parte de algumas pessoas, mas diz que esta foi uma mudança importante para ela, não só de forma artística, mas também como um ato político. “Por si só, Gláfira já é um nome ‘diferentão’, bem artístico e não precisa de outro nome pra me identificar. Teve também a questão de querer romper com o machismo de nós mulheres sermos identificadas pelo sobrenome do pai ou do marido. Então, de cara, quis tirar o sobrenome Lobo. Que diga-se de passagem nunca usei artisticamente, sempre foi a imprensa que me nomeou assim e eu fui aceitando até o dia que resolvi romper definitivamente com isso”.

Outra cantora que também fez uma mudança de forma muito contundente foi Naieme, que durante anos usou o apelido de infância como nome artístico, identificando-se como Nanna Reis. Ela conta que a primeira mudança ocorreu dentro dela, no coração mesmo, quando decidiu que um dia passaria a usar o nome de batismo, por toda sua história e significado.

“Preparei um terreno, comecei a falar nas redes sociais, fiz uma série no meu canal do YouTube para contextualizar a mudança. Hoje, eu já não explico o porquê, e quem tem o interesse de conhecer as razões assiste à série, assiste o show de ‘inauguração’ dessa nova fase que também tem lá no meu YouTube”, diz ela.

Muitas pessoas se identificaram com esse processo de retomada da ancestralidade e essência feita pela artista, assim como muitas pessoas não se conectaram a isso e estranharam. “Mas isso também é o processo de ser artista em movimento, os desafios são aprendizados, abrir novas possibilidades de dentro pra fora”, pontua. Passar a usar o nome de batismo trouxe para ela a força dos seus ancestrais e da floresta, de onde o nome Naieme se origina.

“Aumentou o processo de autoconhecimento que por sua vez reverbera no meu trabalho. Acredito nisso, o nome é a nossa identidade, a expressão de quem somos. E há um lugar dentro de cada um de nós que busca ser conhecido. Recentemente, a Aline Riscado passou a usar o nome dela num processo bem parecido com o meu, e no post nas redes ela comentou que era um lugar de acolhimento à sua essência”, comenta.

Para ela, “Nanna Reis” acabou sendo uma persona que a ajudou muito a viver diversas experiências nas artes, abrindo os caminhos. “Assim Naieme se apresentou com mais segurança. E eu penso nisso como um rito de passagem. Quando fiz 30 anos, senti que era o momento de acessar essa nova etapa e o público tem acolhido. Quando fiz o primeiro show dessa nova fase no teatro, foi lindo e emocionante. Tive certeza que essa nova energia tem a ver com a maturidade e tô aberta para os próximos capítulos”, diz ela.


Conteúdo Relacionado

4 Comentário(s)
    Exibir mais comentários
    MAISACESSADAS