Os últimos dois anos foram de crescimento ímpar para as drags na música brasileira. Antes confinadas ao público específico de boates LGBT, essas artistas conseguiram alcançar recentemente o sucesso mainstream. Ancoradas na carreira meteórica de Pabllo Vittar, nomes como Gloria Groove e Lia Clark estão na boca do povo. Uma das precursoras desse movimento, a brasiliense Aretuza Lovi chega com tudo em seu primeiro álbum, Mercadinho. Apesar de polido, o trabalho deixa claras as limitações da performer.
As 12 faixas do disco vêm embaladas em arranjos pop de alta qualidade, característica predominante no cenário brasileiro atual. A produção de Mercadinho é de responsabilidade quase exclusiva de Ruxell, criador de sucessos recentes de Gloria Groove e Iza. As duas aparecem, inclusive, na lista de colaborações, que conta ainda com Valesca Popozuda, Pabllo Vittar e Solange Almeida.
O esforço, no entanto, nem sempre funciona. Aretuza não é conhecida por ter uma voz poderosa, e as restrições do timbre da cantora acabam atrapalhando algumas canções, principalmente as mais lentas ,como Amor Mutante e Que Não Falte Amor.
As letras também não trazem muita criatividade e, às vezes, refrões são repetidos à exaustão, como em Quem Dá o Papo e Pisa Menos. Empoderamento e relacionamentos são os temas mais abordados pela cantora. Divertido, mas sem muita substância.
Nas colaborações, Aretuza se apequena. Existe disposição, mas falta refinamento. Em Movimento, com Iza; Arrependida, com Solange Almeida; e Joga Bunda, com Gloria Groove e Pabllo Vittar, a drag acaba ofuscada pelas parceiras. Não por coincidência, as três músicas apresentam os melhores momentos do álbum e são os singles de trabalho até agora.
Em certos momentos, Aretuza parece querer adotar uma veia mais cômica, próxima a de seus trabalhos no início de carreira. O instinto, no entanto, acaba contido diante da postura de diva.
A sensação final é de que o álbum é bem produzido, mas não se destaca. Falta alguma coisa. Em um cenário onde as drags mais famosas vão se separando em nichos – Pabllo Vittar no pop, Gloria Groove no hip-hop e Lia Clark no funk –, falta a Aretuza encontrar um espaço onde possa evidenciar seus pontos fortes.
Avaliação: Regular
Fonte: Metropoles
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