Acostumado aos músculos cansados e tendões distendidos dos jogadores de futebol do Águia de Marabá, o fisioterapeuta Antônio Sampaio trabalha vigorosamente na batata da perna de um romeiro. O massagista tenta desfazer com alguns toques o estrago de horas, às vezes dias, de esforço.
“Dá dó de ver. São senhoras, pessoas doentes se submetendo a um esforço sobre- humano. Eles chegam aqui sofrendo de coluna, osteoporose, mas aguentando tudo”, conta.
“É satisfação, não é sofrimento”, explica, entre um apertão e outro da massagem, o analista de sistema Sebastião Mesquita, 36. Estirado em um colchonete no chão, ele tenta se recuperar da caminhada de 68 quilômetros de Castanhal até Belém.
De carro, a viagem duraria pouco mais de 45 minutos. Mas tornou-se uma provação iniciada na manhã de quarta-feira e terminada apenas às 8 horas de ontem.
“Fora as câimbras, a dor no corpo, meu pé encheu de bolhas”, diz apontando para as ataduras que percorre o caminho há nove anos. “Só no primeiro ano fiz promessa. Agora é uma questão espiritual”, confessa.
O destino de todos os romeiros é a Basílica de Nazaré, no bairro de Nazaré, fiel depositária da imagem de Nossa Senhora. As romarias começam já na segunda que antecede a procissão do Círio, realizado no segundo domingo de outubro.
De acordo com a organização da festa, cerca de 500 mil peregrinos de diversos municípios fizeram esse trajeto em 2010. Este ano estão participando grupos de cidades tão distantes quanto Rondon do Pará, há 570 km da capital. Uma jornada que só tem previsão para terminar bem depois do Círio, no dia 23.
CASA DE PLÁCIDO
Tendo em vista o bem estar desses fieis que a Casa de Plácido foi criada. Construída em 2009, pela Basílica de Nazaré com a ajuda de doação de fieis, o espaço está localizado no térreo do Centro Social de Nazaré, ao lado do Arraial. Com mil metros quadrados de área, o local conta com banheiros, refeitório, dormitório e ambulatório.
O nome faz uma referencia ao caçador Plácido José de Souza, que em 1.700 encontrou a imagem da santa, às margens do Igarapé Murutucu, onde se encontra a Basílica atualmente.
A homenagem ao caboclo Plácido é mais do que apropriada, pois o local ajuda pessoas simples como ele. A vendedora Denise Oliveira, 33, se desesperou ao ver o filho de apenas três anos internado na UTI. Como promessa ela também decidiu enfrentar a longa caminhada de Castanhal. “Os médicos me desacreditaram. Fiz a promessa de que se ele fosse curado iria fazer todos os anos a romaria até Belém. Há onze anos cumpro minha promessa. Hoje, meu filho tem 14 anos. Está bonito e com saúde”, diz.
VOLUNTÁRIOS
Como alento a superação de mais esse ano, a romeira recebeu como alento a lavagem dos pés. Em uma comprida pia de inox, os calos e feridas recebiam os merecidos cuidados. “Na liturgia católica, a cerimônia de lava-pés significa humildade. Ela remete ao gesto que Jesus fez durante a Santa Ceia, quando limpou os pés dos apóstolos. Eu me sinto bem em dar esse conforto para essas pessoas que vieram de tão longe, sofreram tanto, para estar perto da santa”, afirma a voluntária Graça Souza.
“Anjos da Guarda” dia e noite
Ao todo são 345 voluntários que trabalham desde o último dia 5, se revezando em turnos, 24 horas por dia. As atividades se encerram às 18 horas de amanhã, quando começa a Trasladação.
Dolores Duarte, 79, trabalha na coordenação do refeitório. Com uma equipe de pouco mais de 10 pessoas, ela se desdobra para preparar café da manhã, lanche, almoço e jantar que são oferecidos gratuitamente à população.
“Só essa manhã servimos 2.000 mil pessoas no café da manhã”, contabiliza, sem fazer muito caso, já preparando a carne assada do almoço conseguida por meio de doações de devotos.
Mas a Trasladação não vai ser sinônimo de descanso para a turma do ambulatório. O serviço continua até a chegada do último grupo de romeiros, programada para o final do mês.
“Como temos um centro equipado, com espaço, somos escalados para ajudar inclusive durante o Círio”, explica a coordenadora do centro de enfermagem, Ketheley Costa.
O ambulatório coordena e monitora a distância os grupos de romeiros que se dirigem a capital para o Círio de Nazaré. “Ficamos em contato pelo telefone com os organizadores das romarias e ambulâncias que os acompanham”, conta.
Todo o zelo ainda não foi necessário para diminuir o número de feridos, 10 mil na edição passada. “São lesões, luxações, bolhas e até fraturas. A cada hora os peregrinos vem chegando, em grupos de 800 e 1.000”, relata. O trabalho da enfermaria só termina no dia 23 de outubro, quando espera que o grupo de 40 romeiros de Rondon do Pará chegue são e salvo.
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