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CÍRIO DE NAZARÉ

Projeto analisa imagens e discursos dos ex-votos

'Olhe compadre, nem quero lhe contar a triste sina deste meu barco a vela feito de miriti. Eu trouxe ele mas foi pra colocar no Carro dos Milagres. Promessa feita e jurada ao pé da imagem de Nossa Senhora do Retiro, na noite de lua cheia, três noites depo

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'Olhe compadre, nem quero lhe contar a triste sina deste meu barco a vela feito de miriti. Eu trouxe ele mas foi pra colocar no Carro dos Milagres. Promessa feita e jurada ao pé da imagem de Nossa Senhora do Retiro, na noite de lua cheia, três noites depois do medonho temporal. Tive que correr terra – o senhor pensa – pra cumprir dita promessa. E trazer, com minhas próprias mãos, esta veleira copiada da fina canoa que o vento e a água reduziram a fanico na contracosta da Baía do Marajó. Só este criado seu escapou são e salvo por obra e graça de Deus e Nossa Senhora de Nazaré".

Assim, inicia o conto Carro dos Milagres, parte da coletânea homônima escrita pelo romancista paraense Benedicto Monteiro. Na história, o narrador oferece um barco de miriti, no dia do Círio de Nazaré, pela graça alcançada quando, por meio de uma promessa feita por sua mãe e da ajuda do finado irmão, sobreviveu à destruição de seu barco em uma noite de tormenta.

O conto reproduz uma ação corriqueira nas procissões em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré: a oferenda de objetos chamados ex-votos, abreviação latina de ex-voto suscepto - "o voto realizado" -, representando um pedido feito ou o agradecimento por um pedido atendido. Tais objetos são uma manifestação estética e religiosa que se constitui arte popular, despertando o interesse de arqueólogos, antropólogos, culturalistas e linguistas, como no Projeto de Pesquisa "Objetos e promessas no Círio de Nazaré: processos semióticos de (re)significação", vinculado à Faculdade de Letras (Fale) da Universidade Federal do Pará (UFPA).

O Projeto surgiu há quatro anos, quando alguns alunos da Faculdade de Letras, reunidos pela coordenadora do Projeto, professora Rosa Brasil, decidiram estudar essa manifestação a partir de uma perspectiva discursiva e semiótica. "Nós começamos com a proposta de trabalharmos a relação entre imagem e discurso, e o Círio, por meio dos ex-votos, apresentou a possibilidade de envolvermos também questões de identidade nessa relação. Cada um dos objetos carregados pelos promesseiros apresenta um ‘recheio discursivo’ que nos identifica, que fala de nós, paraenses", explica a professora.
Bakhtin e Peirce preparam para a coleta de dados

As atividades começam muito antes do Círio, quando os alunos e a professora se reúnem em grupos de trabalho para estudar a parte teórica do Projeto, baseada na perspectiva enunciativa e estética de Mikhail Bakhtin e na teoria semiótica proposta pelo norte-americano Charles Sanders Peirce. As reuniões acontecem todas as quintas-feiras e preparam os pesquisadores para o "dia chave" do Projeto.

Na manhã da procissão, no segundo domingo do mês de outubro, a professora e os alunos se reúnem em um ponto do trajeto da romaria. Este ano, será em frente à sede da Assembleia Paraense, na Avenida Presidente Vargas. Durante o evento, antes e depois da passagem da Berlinda, os participantes abordam promesseiros que trazem ex-votos e fazem perguntas sobre o objeto e a motivação deles estarem ali.

A documentação das entrevistas é feita por meio de gravação de voz, fotos do ex-voto sozinho e sendo carregado pelo romeiro, além de filmagens em vídeo. Após as abordagens, as gravações de voz são transcritas para o papel e separadas juntamente com as imagens que ilustram aquele ex-voto, para, então, serem feitas as análises a partir das teorias estudadas. De acordo com a professora Rosa Brasil, apesar de só haver um único dia do ano em que se dá a coleta de dados – o domingo do Círio –, muitos são os relatos colhidos, em virtude da boa vontade dos promesseiros por contarem suas histórias.

Os ex-votos podem ser qualquer objeto, um barco, uma casa (os mais comuns), uma cruz, um tijolo ou qualquer coisa que tenha alguma ligação simbólica com os anseios daquele que está fazendo a promessa ou agradecendo o pedido alcançado. Muitas vezes, os ex-votos não precisam nem ter uma ligação direta com a graça alcançada ou pedida, como conta uma das bolsistas do Projeto e aluna do sexto semestre do curso de Letras, Gabriela Brito, "nós perguntamos para um senhor por que ele levava um barco tão grande, ele respondeu que estava se curando de um câncer e o tamanho do barco era proporcional ao quão agradecido ele estava, mas não tinha, efetivamente, nada a ver com o barco".
Formas e cores dos objetos traduzem cultura

Segundo a professora Rosa Brasil, o discurso "é a parte fluídica do texto. Discurso é uma maneira de ver, definir e lidar com a realidade, é um conjunto de princípios, de valores e de significados imanentes ao texto". Esses significados não são arbitrários, mas determinados pela cultura. Os paraenses "escolhem", por exemplo, objetos como barcos e casas, mas imprimem nesses objetos formas e cores que revelam os costumes e valores por meio dos quais vivem.

O formato dos ex-votos também segue uma lógica regional, como podemos observar no conto de Benedicto Monteiro, "um barco a vela feito de miriti... copiado da fina canoa que o vento e a água reduziram a fanico", ou seja, um característico barco de rio dos ribeirinhos paraenses.
"Somos nós que estamos representados lá", afirma Rosa Brasil, que explica que os ex-votos são, também, uma maneira de pensar a identidade paraense na festa do Círio. "Pelos ex-votos, nós representamos a nossa comunidade semiótica, o que nós temos de referência pessoal e, ao mesmo tempo, coletiva, assim, essa representação, consciente ou não, passa a ter a nossa cara, passa a ser nós mesmos. Os ex-votos compõem um rio colorido e multiforme que corre nas mãos dos paraenses na sua maior procissão", analisa a professora.

Outro caso considerado interessante pela pesquisadora foi o de um senhor que estava levando como ex-voto uma grande cruz, além de estar enrolado em uma profusão de terços de todos os tamanhos. Ao ser questionado por que levava aquela cruz nas costas, ele respondeu: "Não é nada específico, quero que o meu filho seja um cidadão". "Isso é emblemático", avalia a professora Rosa Brasil, "porque se trata de uma pessoa comum que se submete ao sacrifício de carregar a cruz, tal qual Cristo fez, com o intuito de salvar a humanidade, para pedir o mínimo, pedir que o filho tenha o mínimo de dignidade". Ainda, segundo a professora, o caso deixa à mostra o aspecto político ao lado de nosso universo cultural e social.
Resultados estarão em álbum

Este ano, acontecerá a última pesquisa de campo dentro do Projeto "Objetos e promessas no Círio de Nazaré: processos semióticos de (re)significação". Após o mês de outubro, a professora Rosa Brasil e os integrantes do grupo começarão a organizar um álbum com o mesmo nome do Projeto. Nesse álbum, constarão discussões teóricas sobre Análise do Discurso, Estética, Identidade e Semiótica, e análises que inter-relacionam objeto estético e linguagem, acompanhadas de fotos e transcrições das falas dos romeiros. O Projeto também resultou em artigos que serão apresentados no Encontro de Estudos Bakhtinianos, em Juiz de Fora. (Ascom UFPA)

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