
"Aqui não se cultiva preconceito/machismo", escreveu mãe de menino em legenda. (Foto:Reprodução/Facebook)
Menino não brinca de boneca e menina não brinca de carrinho, certo? Não para muitos pais. Cada vez mais eles estão dispostos a mostrar que brinquedo não tem gênero e que podem divertir tanto meninos quanto meninas.
Na última quarta-feira (13), Roberta Galfi postou uma foto do filho brincando com panelinhas e outros brinquedos cor-de-rosa. “Vai ter rosa, sim. Vai ter boneca e panelinha. Vai ter o que ele quiser. Brinquedos são feitos para crianças, independente do sexo. Aqui não se cultiva preconceito/machismo”, escreveu na legenda.
A imagem logo viralizou nas redes com muitas mensagens a favor (“Que coisa fofa! “Desde novinha, nunca entendi essa coisa de ‘brinquedo de menina’ e ‘brinquedo de menino’) e outras contrárias (“Não tem nada a ver ficar induzindo o menino a brincar de boneca, só por causa das ideologias da mãe”).
Mas se um menino gostar de se fantasiar de princesa e uma garotinha pedir um caminhão para os pais, como eles devem reagir? “Essa é uma situação comum que ainda embaraça muitas famílias. Mas não precisa haver pânico”, afirma o psicólogo Thiago Pinheiro. “É necessário compreendermos que são crianças e estão em uma fase de descoberta e curiosidade. O mundo e o seus significados são desconhecidos, a criança vive em um universo lúdico capaz de ilustrar a "vida real" e os seus sentimentos das formas mais próprias e sobrenaturais possíveis. Não significa necessariamente uma manifestação da sua identidade sexual”.
Segundo ele, para assegurar o bem estar da criança, é interessante permitir com que ela se expresse sem ser policiada ou constrangida. “Infelizmente, o lúdico e a brincadeira de criança estão engessados por uma cultura ainda machista”, avalia.
“INFLUÊNCIA”
A administradora Brenda Moreira conta que teve uma briga com o pai do filho depois que ele impediu o menino, que tinha cinco anos, na época, de andar na bicicleta de uma amiguinha porque era rosa. “Para o meu filho era apenas um bicicleta. O que ele quer é brincar. Quem acha que é para menino ou para menina é o adulto”.

Erika postou foto do filho de Branca de Neve com chapéu de construtor (Foto: reprodução/Facebook)
Erika Mazolini também já postou foto do filho usando vestido de Branca de Neve e chapéu de construtor. “Crianças não tem sexualidade, o menino usar vestido não o fará gay, pois ser gay é amar, se interessar por alguém do mesmo sexo. Uma criança de 3 anos não vê o mundo assim ainda, ela quer apenas brincar e usar o que acha divertido.”
O psicólogo diz que é natural que as crianças se interessem por elementos característicos das pessoas mais próximas e que despertam afinidades. “Porém isso jamais seria um determinante em suas orientações sexuais. Crianças adotadas por casais homoafetivos também não sofrem influência em sua sexualidade. Devemos partir do princípio que a criança pertence a um mundo lúdico (livre) e que a sexualidade humana é muito complexa e permeável a diversos fatores no decorrer da vida”, enfatiza. “Digamos que a flexibilidade de gênero que nos é permitida apenas no carnaval é livre no mundo das crianças. São apenas fantasias e brincadeiras”.
COISA DE MENINO X COISA DE MENINA
O psicólogo Thiago Pinheiro respondeu mais algumas perguntas sobre como os pais podem tratar as questões de gênero na infância.
Esses argumentos de “coisa de menino”, “coisa de menina” devem ser usado em algum momento da formação?
Jamais. Esses argumentos são provincianos e retrógrados. Há diversos movimentos sociais e reformas pedagógicas atualmente combatendo essa cultura que apenas ceifa a criatividade e o desenvolvimento da criança, gerando muitas vezes angústia e sofrimento. O que não é uma luta recente, levando em consideração as significativas articulações de contra cultura das décadas anteriores que deram visibilidade às questões de gênero e a liberdade de expressão. O mercado e a mídia infelizmente ainda fomentam uma educação sexista e preconceituosa.

Shiloh, filha de Angelina Jolie e Brad Pitt, prefere agasalhos a vestidos e os pais não vêem problemas (Foto: reprodução)
Como os pais podem tratar a igualdade de gêneros e direitos iguais entre meninos e meninas?
A família deve estimular o convívio entre as crianças, orientando-as a exercitar a empatia e a tolerância, sem separá-las por gênero e causar climão ou constrangimento. Não há problema em um menino gostar de brincar de casinha ou cuidar de um bebê, tampouco uma menina se interessar por carros e robôs. Um garoto pode ser sensível e carinhoso tanto quanto uma garota peralta e descabelada. Ademais, é importante haver exemplos no dia a dia. O modo como os familiares se tratam e como os serviços domésticos são elaborados é uma boa forma de abordar o tema.
Em que momento tu achas que os pais podem/devem ficar preocupados e procurar ajuda?
Os familiares devem estar atentos a qualquer mudança de comportamento. Se a criança parece melancólica, se não quer mais ir à escola por medo ou vergonha, se está agressiva, etc. As crianças sempre encontram um modo de expressar seus sentimentos e desejos. É preciso compreensão e carinho para fazer com que ela se sinta segura em conversar sobre qualquer assunto que lhe traga confusão. De qualquer modo, a identificação com o gênero oposto não deve ser encarada como distúrbio ou falha na educação, mas sim como uma alternativa natural, e mais confortável, que a criança encontrou para se impor no mundo. Os problemas acerca dessas questões de gênero acontecem diante da intolerância e truculência dos familiares e da sociedade. Pode-se recorrer à ajuda profissional a qualquer momento, desde que o objetivo principal seja proporcionar bem estar à saúde psíquica e liberdade de expressão para a criança.
(Antônio Santos/DOL)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar