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Turquia rejeita Suécia e Finlândia na Otan contra Rússia

O presidente turco indicou que a Turquia poderia usar seu status de membro da Otan para vetar as duas nações

segunda-feira, 16/05/2022, 17:40 - Atualizado em 16/05/2022, 17:38 - Autor: FOLHAPRESS

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Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan
Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan | Foto: Reprodução/Instagram

O processo de expansão da Otan em reação à invasão russa da Ucrânia ganhou o reforço de um relatório da Suécia que sugere seguir os passos da vizinha Finlândia e pedir a adesão à aliança militar ocidental.

Nesta mesma sexta (13), contudo, a Turquia jogou um balde de água fria com a primeira oposição interna séria à iniciativa. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou acompanhar o caso dos países nórdicos e não ter "visões positivas" sobre a intenção de entrar no grupo. Único membro da Otan no Oriente Médio, a Turquia apoia Kiev na guerra, mas é uma aliada próxima e ambígua de Vladimir Putin.

Para um novo membro ser aceito na aliança liderada pelos EUA, hoje com 30 integrantes, é preciso que os Parlamentos nacionais de todos os futuros colegas aprovem a medida. Uma rejeição trava o mecanismo.

Erdogan tem relação conflituosa com a aliança, que abriga sua arquirrival histórica Grécia, cuja adesão com a Turquia em 1952 foi criticada pelo presidente. "Não queremos repetir os erros. Além disso, os países escandinavos são a casa de organizações terroristas. Não é possível para nós sermos a favor."

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O líder turco, que usou sua posição mais neutra para tentar mediar a paz entre Kiev e Moscou, deu a senha: vai querer que a Suécia, particularmente, extradite opositores exilados, como membros do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) ou seguidores de Fethullah Gulen, o clérigo que mora nos Estados Unidos acusado de inspirar um golpe contra Erdogan em 2016.

Representantes dos nórdicos discutirão a situação com enviados da Turquia em Berlim neste sábado (14). A resistência turca, que se soma à já famosa compra de sistemas antiaéreos da Rússia e a consequente expulsão do programa do caça americano F-35, ocorre em meio ao tom triunfalista anti-Kremlin da Otan.

Na quinta (12), a Finlândia anunciou que pedirá para entrar na Otan. Nesta sexta, o Parlamento da vizinha Suécia divulgou um relatório que, embora não seja definitivo, indica que o país quer a mesma coisa.

A percepção de que Moscou representa um ameaça real aumentou brutalmente nos dois países nórdicos, vizinhos inclusive fronteiriços no caso finlandês da terra de Putin, após a invasão da Ucrânia.

"Uma adesão terá um efeito dissuasivo no norte da Europa", afirma o texto de 43 páginas, elaborado pelo governo e pelos partidos representados no Parlamento. O texto diz que "não se podem excluir provocações e represálias russas" pela medida, mas que o risco é baixo. "Nossa opinião é a de que não sofreremos um ataque militar convencional como reação a uma eventual candidatura", afirmou a chanceler do país, Ann Linde. O relatório abre caminho para a aprovação do pedido pelo Parlamento.

A recomendação deverá ser seguida pela mudança na posição histórica do principal partido do país, o Social Democrata, que divulga seu parecer sobre a adesão no domingo. Já há maioria na Casa e na opinião pública em favor da medida, cuja aprovação deve ocorrer no mesmo dia ou na semana que vem.

Além dos turcos, os nórdicos estão de olho também na reação da Hungria, integrante europeu da Otan mais próximo de Putin. Até aqui, o autocrático primeiro-ministro Viktor Orbán tem apoiado a aliança militar, mas resistido a ações como o corte da compra de petróleo russo.

Se a oposição turca for vencida, a decisão reverterá mais de 200 anos de história. A Suécia se orgulhava de sua neutralidade, decidida em 1809 após a perda da mesma Finlândia para o Império Russo. Já a Finlândia era neutra desde o fim a Segunda Guerra, na qual lutou duas vezes contra a União Soviética.

Moscou adotou um tom ameaçador sobre a adesão de Helsinque e fará o mesmo com Estocolmo. O Kremlin afirmou que a adesão é um risco para a segurança nacional russa, uma terminologia sombria, porque remete à retórica contrária a eventual adesão da Ucrânia à Otan antes da guerra.

A medida mais provável, de acordo com observadores militares, é o deslocamento oficial de mísseis com capacidade nuclear para Kaliningrado, região russa espremida entre Lituânia e Polônia, à beira do mesmo mar Báltico que banha Suécia e Finlândia. Estocolmo já disse que isso não significaria muito, por considerar que os russos já têm essas armas por lá.

Enquanto isso, a estatal russa de energia elétrica anunciou que irá, alegando problemas de pagamentos, cortar a eletricidade que fornece à Finlândia neste sábado. O motivo, claro, é o anúncio sobre a Otan. O país importa 10% de sua luz da Rússia.

Já a Otan, na figura do secretário-geral Jens Stoltenberg, celebrou o anúncio finlandês e já disse esperar o sueco. Ambos os pedidos, se não houver alguma reviravolta no caso sueco, serão analisados oficialmente na cúpula de junho da aliança militar ocidental, a ser realizada em Madri.

A dúvida que fica é acerca das garantias provisórias de segurança, já que um processo de adesão à Otan dura de oito meses a dois anos, normalmente, a partir da inscrição formal. Ninguém quer esperar tanto, em especial se Putin conseguir encerrar a guerra contra Kiev sem exaurir suas forças.

A decisão dos países nórdicos é mais um efeito geopolítico extremo da guerra, iniciada em 24 de fevereiro. Toda a estrutura de segurança europeia está em reorganização, e diferenças de interesses entre membros da Otan emergem dia a dia, embora a aliança tenha renovado seu senso de missão.

De lá para cá, a Rússia foi objeto de sanções econômicas nunca vistas em tempos modernos, todo o arcabouço energético europeu está em xeque, a Otan passou a armar pesadamente a Ucrânia e a arriscar uma Terceira Guerra no processo, a Alemanha anunciou um programa de remilitarização e a China observa a situação da aliada Moscou com um misto de preocupação e ambição num mundo polarizado.

Apesar da atitude oficial, nem Suécia nem Finlândia são totalmente neutras. Ambas são membros da União Europeia, bloco político que tem em seu tratado fundador uma cláusula que prevê assistência militar dos colegas em caso de agressão. Mas o dispositivo nunca foi usado.

No caso sueco, um país muito mais desenvolvido e incisivo do ponto de vista militar do que a Finlândia, há outras implicações para a adesão. Ao longo dos anos, Estocolmo sempre buscou agir em consonância com a estratégia ocidental, participando de manobras militares conjuntas e compartilhando inteligência.

Mas, ao mesmo tempo, sempre buscou ter uma indústria de defesa própria e avançada. Tem produção naval e aeroespacial, como provam os caças Saab Gripen comprados pelo Brasil, e cerca de 85% de sua receita vem de exportação. Aderir à Otan significa entrar num grande bazar em que os atuais 30 membros em tese usam armas e sistemas que são compatíveis entre si.

O movimento poderá favorecer a exportação de produtos como os lançadores de foguete antitanque NLAW, estrelas na Guerra da Ucrânia, mas há dúvidas sobre o impacto por exemplo na venda do Gripen.

O caça americano F-35 já derrotou o sueco em duas concorrências recentes, inclusive uma para o fornecimento de 64 aparelhos à Finlândia, e tem se firmado como padrão do bloco ocidental.

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