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DIRIGÍVEIS

Saiba quem foi Júlio Cezar o pioneiro na navegação aérea

Julio Cezar Ribeiro de Souza escreveu o nome do Pará na história da aviação ao se tornar o precursor dos dirigíveis, ainda que o reconhecimento tenha vindo de forma tardia. Neste dia 13, completam-se 178 anos do seu nascimento

domingo, 13/06/2021, 14:13 - Atualizado em 13/06/2021, 14:13 - Autor: Cintia Magno


Julio Cezar Ribeiro de Souza escreveu o nome do Pará na história da aviação ao se tornar o precursor dos dirigíveis, ainda que o reconhecimento tenha vindo de forma tardia. Neste dia 13, completam-se 178 anos do seu nascimento
Julio Cezar Ribeiro de Souza escreveu o nome do Pará na história da aviação ao se tornar o precursor dos dirigíveis, ainda que o reconhecimento tenha vindo de forma tardia. Neste dia 13, completam-se 178 anos do seu nascimento | Divulgação

Ainda na segunda metade do século XIX, a humanidade se debruçava sobre a possibilidade de o homem voar quando um inventor paraense encontrou no voo dos pássaros a inspiração para realizar os primeiros estudos com o objetivo de desenvolver uma teoria que viabilizasse a navegação aérea.

Dando nome, hoje, ao Aeroporto Internacional de Belém, o jornalista e professor, nascido na então Vila de São José do Acará, Julio Cezar Ribeiro de Souza escreveu o nome do Pará na história da aviação ao se tornar o precursor dos dirigíveis, ainda que o reconhecimento para tal feito tenha vindo de forma tardia. Neste dia 13 de junho, completam-se 178 anos do nascimento do paraense.

Na época em que o jornalista deu início aos primeiros estudos sobre os voos dos pássaros, os estudos relacionados à possibilidade de voos se concentravam em duas frentes: o balonismo e a aviação. Os balões já eram utilizados pela humanidade há algum tempo, porém, não eram dirigíveis. Depois que subiam, seguiam para onde o vento soprasse.

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“O que a gente chama de balonismo utilizava uma estrutura menos densa que o ar. Já aviação significava voar com um veículo mais denso que o ar, o que ainda não era possível. Isso só se tornaria possível com o desenvolvimento de motores suficientemente potentes para tirarem esses objetos mais pesados do chão, o que só veio com os motores a combustão, mais tarde”, explica o professor da faculdade de física da Universidade Federal do Pará (UFPA) e coautor do livro “Julio Cezar Ribeiro de Souza - Memórias sobre a Navegação Aérea”, Luís Carlos Bassalo Crispino. “Então, naquela época, o balão subia, mas ia para onde o vento soprava e o avião não conseguia subir”.

O que Julio Cezar conseguiu identificar foi a possibilidade de resolver esse problema unindo as características dos dois sistemas, projetando um balão que tinha asas embaixo. O professor Luís Carlos explica que Julio Cezar concebeu esse sistema e o patenteou, inicialmente no Brasil, no Rio de Janeiro, onde ficava o sistema de patentes na época.

“Ele começa tentando as primeiras experiências dele aqui em Belém. Ele nasceu no interior do Pará, na Vila do Acará, hoje município do Acará, e depois veio estudar aqui na capital, que na época era Província ainda”.

Ainda criança, Julio Cezar foi estudar em Belém e depois, já crescido, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde estudou na Escola Militar. De lá, participou da Guerra do Paraguai, onde um fato histórico importante pode ter influenciado fortemente seu interesse pelo balonismo.

“Foi na Guerra do Paraguai que foram experimentados os primeiros balões na América do Sul. Ali, embora não se tenha registros diretos disso, mas foi provavelmente onde ele tomou conhecimento desse sistema e tentou colocar em prática as ideias”.

De volta a Belém, Julio Cezar iniciou os primeiros experimentos fazendo balões dos mais diversos tipos e, quando conseguiu desenvolver sua teoria de como precisaria ser um balão dirigível, pede uma audiência com o então Presidente da Província, que equivaleria ao que hoje é o governador, para explicar o seu projeto.

“Só que ninguém entendeu nada da proposta dele aqui e ele acabou indo para o Rio de Janeiro e lá ele também fez algumas demonstrações, explicou, mas ninguém entendeu muito e, na verdade, ele acabou tendo que ir para a França, onde ele solicitou a construção, primeiro de um protótipo, um balão pequeno, e depois de outro que era o maior balão até a época”, explica Luís Carlos Bassalo.

Sem recursos próprios, Julio Cezar dependia de financiamentos do Governo ou então da arrecadação a partir de exposições pagas de seus experimentos para possibilitar a construção de seus balões. O professor Crispino aponta que “o que acabou acontecendo é que o inventor tentou fazer a experiência dele, primeiro na França e depois em Belém, mas não conseguiu por diversas razões e os franceses acabaram realizando uma experiência com um sistema similar ao dele, com um balão similar ao dele e entraram para a história como os inventores do dirigível usando as ideias que Julio Cezar tinha propagado na França e que, inclusive, ele patenteou na França”.

Depois disso, Julio Cezar ainda tentou provar que a ideia havia partido dele, fez protestos, escreveu artigos para o jornal local e depois para outros países, mas acabou falecendo bastante jovem sem ter feito a experiência definitiva dos seus balões porque não teve recursos e sem conseguir provar para a humanidade que realmente ele tinha sido o inventor do tipo de balão que os franceses tinham experimentado.

“É uma história um pouco trágica, na verdade”, avalia Crispino. “O reconhecimento acabou vindo bem mais tarde. Hoje ele já chegou a receber a Ordem do Mérito Aeronáutico, que é a maior honraria que uma pessoa pode receber da Aeronáutica. Ele teve o nome inscrito no livro dos Heróis da Pátria e também dá nome ao Aeroporto Internacional de Belém Val-de-Cans Julio Cezar Ribeiro de Souza”.

O professor considera que uma das grandes contribuições para que tal reconhecimento ocorresse advém de uma fotografia que integra o acervo do Musée de l’Air et de l’Espace (Museu do Ar e do Espaço), que fica na cidade de Le Bourget, na França. A imagem registra a tentativa de ascensão do balão de Julio Cezar em Belém no dia 12 de julho de 1884.

“O livro já estava publicado, mas eu sempre continuei as buscas por materiais, então escrevi para vários museus e instituições do mundo em busca de material e um belo dia eu estou em casa e, em 2003, recebi um envelope do Museu com essa imagem. Acredito que esse foi um dos fatores que ajudou muito no reconhecimento de Julio Cezar já no século XXI”, considera o professor.

“Mas a gente vê que, apesar de tudo isso, o nome dele ainda não é tão conhecido, mesmo aqui. Acho que isso ainda é fruto da nossa pouca valorização. Hoje, cada vez mais, precisamos realizar ações de valorização dos nossos valores nacionais, da ciência nacional”.

A Ordem do Mérito Aeronáutico a Julio Cezar Ribeiro de Souza foi concedida em 23 de outubro de 2013. O responsável por receber a comenda foi o bisneto de Julio Cezar Ribeiro de Souza, Eurico Bentes Costa, 87 anos e residente em Belém.

 

Bisneto de Júlio Cezar, Eurico Bentes Costa
Bisneto de Júlio Cezar, Eurico Bentes Costa | Divulgação
 

Cronologia dos fatos

1843

Em 13 de junho de 1843 nasce Julio Cezar Ribeiro de Souza, na Vila de São José do Acará, hoje município do Acará, no Pará.

Ainda criança, Julio Cezar mudar-se para a então capital da Província, hoje a capital Belém, e estuda no Seminário do Carmo, na Cidade Velha. Em seguida, muda-se para o Rio de Janeiro, então capital do Império, e estuda na Escola Militar.

1866

Julio Cezar integra-se às forças militares brasileiras na Guerra do Paraguai. Foi durante o confronto, já em 1867, que ocorreu o primeiro uso militar de balões na América do Sul, com a finalidade de observar as tropas inimigas.

1869

Julio Cezar volta da guerra apenas em 1869.

1870

lPassa a se ocupar das funções de jornalista e professor, além de ocupar cargos no funcionalismo público.

1874

Julio Cezar relata os primeiros estudos sobre voo dos pássaros com o objetivo de buscar uma teoria que viabilizasse a navegação aérea.

1880

São publicados os primeiros resultados das pesquisas.

Ainda em 1880, Julio Cezar escreve ao então Presidente da Província do Pará onde relata suas descobertas e solicita audiência para expor sua teoria. É neste documento que ele também solicita apoio financeiro do Império para que pudesse ir à Europa para construir o balão conforme o seu modelo.

Em 30 de agosto de 1880, o inventor constrói um balão de 6 metros de comprimento e 2 metros de maior diâmetro e promove experimentos.

1881

Também promove uma exposição da sua teoria no antigo Instituto Politécnico Brasileiro, no Rio de Janeiro, em 15 de março de 1881. É nesta ocasião que ele realiza a leitura do documento Memória sobre a Navegação Aérea, de sua autoria, e que hoje faz parte do acervo do Arquivo Nacional.

A Assembleia Provincial do Pará aprova a concessão de 20 contos de réis à Julio Cezar para a construção do seu balão de acordo com seu sistema.

Em setembro o inventor vai à França e inicia a construção de seu balão, na Casa Lachambre.

Em 25 de outubro Julio Cezar consegue a patente francesa do seu invento e faz a leitura de uma versão em francês do seu escrito Memória sobre a Navegação Aérea para a Sociedade Francesa de Navegação Aérea (SFNA).

O balão encomendado pelo paraense fica pronto e recebe o nome de Victoria, em homenagem a sua esposa. Com o balão, ele realiza experiências em Paris nos dias 8 e 12 de novembro de 1881, sendo noticiadas pela imprensa local.

A partir das experiências desenvolvidas, Julio Cezar é recebido como membro associado da Sociedade Francesa de Navegação Aérea.

Julio Cezar retorna a Belém, mas deixa encomendado mais um balão que é construído também na Casa Lachambre. O projeto é de um dirigível de maiores proporções, que possibilitasse a realização de voos tripulados.

No dia 25 de dezembro de 1881 Julio Cezar realiza os mesmos experimentos, com o Victoria, em Belém.

1882

Julio Cezar realiza outra demonstração pública do experimento no Rio de Janeiro, em 29 de março de 1882, na Escola Militar. O evento conta com a presença do Imperador Dom Pedro II, porém, muitas pessoas não compreendem a viabilidade do protótipo.

Apesar dos questionamentos, o Instituto Politécnico Brasileiro aprova uma moção em favor da viabilidade do processo em 23 de junho de 1882. Com isso, Julio Cezar pode retornar a Paris para a construção do grande balão que pudesse ser tripulado.

Diante do alto custo de vida em Paris, Julio Cezar precisa retornar a Belém e aguarda notícias sobre a conclusão do dirigível. Quando fica pronto, retorna à França, mas enfrenta dificuldades para conseguir recursos para produzir o hidrogênio necessário para encher o grande balão e decide retornar a Belém, dessa vez levando consigo o balão.

1883

Já em Belém com o seu grande balão, Julio Cezar tenta obter recursos para a produção de milhões de litros de hidrogênio para enchimento do balão. Os recursos são conquistados quase um ano depois, fornecidos pela Província do Amazonas, e o paraense tenta, então, a ascensão do balão nomeado de Santa Maria de Belém, com 52 metros de comprimento e 10,4 metros de maior diâmetro.

1884

A tentativa de ascensão do balão em Belém ocorre em 12 de julho de 1884, na área da Praça da Sé. Uma foto do acervo do Musée de l’Air et de l’Espace (Museu do Ar e do Espaço), que fica na cidade de Le Bourget, na França, registra esse momento. Porém, a tentativa enfrentou dificuldades durante a produção de hidrogênio e derramamento acidental de ácido sobre as mangueiras que faziam a condução do gás impossibilitaram a ascensão.

Em 9 de agosto de 1884, Julio Cezar recebe a notícia de que os franceses Charles Renard e Arthur C. Krebs haviam realizado pela primeira vez na história um percurso fechado a bordo de um balão. Nomeado de La France, o dirigível dos franceses tinha aproximadamente as mesmas medidas (52,4 metros de comprimento e 8,4 metros de maior diâmetro) do balão Santa Maria de Belém, de Julio Cezar. A forma do balão francês tinha a mesma estrutura preconizada por Julio Cezar e já patenteada na França quase três anos antes, sem que fossem feitas qualquer referência às teorias do inventor brasileiro.

Após o ocorrido Julio Cezar escreve um longo protesto que é publicado na imprensa paraense, inicialmente, e depois em outros periódicos em outros países. Apesar dos protestos, Julio Cezar morreu sem conseguir ter o reconhecimento pelo pioneirismo do seu invento, de que ele teria sido o inventor do tipo de balão que os franceses tinham experimentado.

Fonte: Artigo “Voando com os pássaros” - Scientific American Brasil. Disponível em: https://sciam.com.br/voando-com-os-passaros/

CONHEÇA

Quem quiser conhecer ainda mais a história de Julio Cezar Ribeiro de Souza pode acessar o site mantido pelo professor Luís Carlos Bassalo Crispino e que reúne artigos, documentações e relatos sobre o Pioneiro da Navegação Aérea. O site pode ser acessado através do endereço https://sites.google. com/view/juliocezarribeiro desouza/in%C3%ADcio

LIVRO

O livro ‘Julio Cezar Ribeiro de Souza - Memórias sobre a Navegação Aérea’ foi publicado pela Editora da Universidade Federal do Pará, com o patrocínio do Ministério das Comunicações por meio da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. O livro foi organizado pelos professores José M. F. Bassalo, Paulo T. S. Alencar, Luís C. B. Crsipino e Clodoaldo F. R. Beckmann.

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