Lucival Zeferino, 54 anos, abriu as portas de sua casa em São Caetano de Odivelas e apresentou onde repousa o Boi Tinga. Próximo da alegoria, os cabeçudos, instrumentos usados pela orquestra que anima o passeio do boi e alguns adereços usados na vestimenta dos pierrôs.
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Sujeito simples, Lucival vestia a camisa do grupo folclórico fundado pelo avô José Laudelino Zeferino em 1937. “Herdei do meu pai a responsabilidade de manter viva a tradição do boi”, diz. Aos poucos foi se caracterizando com um roupão colorido, um chapéu de tala de guarimã e uma toalha formando um véu. O último adereço foi a máscara feita em papel machê. Ficou um legítimo “pierrô” ou “pirror” pronto para mais um arrastão cultural.
O filho dele se fantasiou com o cabeção. Outro elemento característico da cultura do município. É uma tradição que faz parte do folclore e da identidade cultural da cidade. Inspirados na festa do boi-bumbá, a festa do Boi de Máscara apresenta particularidades que tornam a manifestação única num universo de ritmos, dança e celebrações.
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Junho é o mês mais importante do calendário cultural para os moradores, quando ocorrem os arrastões dos bois de máscaras. O município conta com mais de 30 grupos e todos os dias de junho eles percorrem as ruas da cidade acompanhados de uma orquestra, dos Pierrôs e dos Cabeçudos.
Diferente do enredo do boi-bumbá, o boi de máscara não tem encenação teatral. O cortejo é com samba, marchinhas, frevo e carimbó. “Outra coisa é que o boi de máscara não morre, ele foge”, comentou Lucival sobre as características da manifestação – que é tão forte que também já foi inserida nas festas de carnaval. Nos dias de folia de momo, Odivelas não tem blocos de sujos, tem os bois de máscaras colorindo e arrastando multidões pelas ruas da cidade.
O Boi Tinga é o segundo mais antigo e começou com a brincadeira de pescadores que passavam dias no mar pescando, e numa passagem pelo Marajó trouxeram uma cabeça de boi que ganhou uma nova montagem. “Era o meu avô José Zeferino, o Tito Damásio e o Bento Zeferino. Os três trouxeram e quando começou acharam melhor não matar o boi – como ocorre no enredo do bumba meu boi – e sim deixar ele fugir”, conta. “Como não queriam ser reconhecidos, vestiam a roupa cultural dos pirrôs e dos cabeçudos”, completa.
Sabores
A cidade também é conhecida pela gastronomia. O caranguejo predomina entre os pratos mais preparados na cidade. Porém, há também o camarão, os peixes e as ostras.
A fartura destes ingredientes também se reflete nos pratos. A chef de cozinha Daniele Bentes não economiza em nenhum destes itens quando vai para a cozinha. “São Caetano tem uma diversidade de ingredientes e insumos que nos permite criar novas receitas e fazer releituras das que já existem”, garante. “É óbvio que o caranguejo toc-toc figura entre os pratos mais tradicionais, assim como a mariscada, o peixe frito e a caldeirada. Porém Odivelas tem uma cozinha que vai muito além disso”, ressalta.
Dentro da criatividade gastronômica em São Caetano de Odivelas está o hambúrguer de caranguejo, feito de forma artesanal e que é encontrado à noite, próximo à praça na orla da cidade. O criador do cardápio é Simião Neto, que guarda o segredo em relação ao tempero. “A ideia partiu dos próprios clientes que perguntavam se tinha algum hambúrguer que tivesse caranguejo. Criei o blend e hoje é carro-chefe. Todo mundo que chega aqui experimenta e volta”, comentou. “Pessoas já tentaram fazer, mas não acertaram o ponto. Tem um segredo que é o meu toque, eu diria”, disse Neto. No geral, o cliente escolhe qual pão acompanha, se é australiano, de bacon, de pimenta ou brioche.
Cores
São Caetano de Odivelas também pode ser considerada a cidade das cores. Desde o portal até a orla, o trabalho de muralismo desenvolvido por artistas visuais e grafiteiros ajuda a enxergar as belezas do cotidiano e da cultura dos moradores. Embora a história da cidade esteja relacionada à vinda dos portugueses, são poucos os prédios e casarões antigos.
O patrimônio é mais recente e ganhou novos aspectos com o trabalho de And Santtos, artista visual responsável por um trabalho, chamado de ‘Odivelismo’, que pode ser visto por toda São Caetano, nas fachadas das residências, muros e monumentos. “Foi um trabalho que começou com a ansiedade de querer explorar melhor a arte e, por ser filho da terra, já imaginava ter a cidade bem colorida”, disse And. “Há uma representatividade muito grande através das cores por conta dos cortejos dos bois de máscaras”, ressaltou.
Mas nas obras em muros e fachadas, o artista buscou representar outros elementos da cultura local. “Tem cores que a gente não enxerga e que estão presentes na pesca, nos barcos, nas velas dos barcos, nas bandeiras”, exemplificou. “O odivelismo é isso! Ele não fala só sobre a cultura popular. Fala sobre a vivência, sobre o caboclo amazônico que temos aqui, que é o pescador, é o poeta, é o músico... Aqui há uma pluralidade cultural”, exaltou.
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