A aliança na mão direita simboliza o compromisso firmado dentro do cárcere. Orgulhosa com o pedido de noivado, Ardenise Avis Pinheiro, de 33 anos, exibe o acessório reluzente, dado pelo companheiro em uma das visitas de finais de semana. Ela é uma das 630 internas do Centro de Recuperação Feminino do Coqueiro e assim como a maioria das detentas, também tem o sonho de constituir uma família, mesmo cumprindo a pena que lhe foi imputada.
Ardenise também se iguala à maioria na codificação do crime que a levou ao Sistema Penal: o tráfico de drogas. A história dela não é muito diferente das demais. Após a prisão do companheiro, para sustentar os dois filhos menores, hoje com 6 e 11 anos, a jovem, então com 28 anos, entrou para o mundo do crime. O tempo na criminalidade foi curto, mas o suficiente para lhe render mais de 20 anos de condenação. “A pior parte mesmo é ficar longe dos meus filhos. Minha família não acha o ambiente do presídio adequado, então dificilmente eles vêm aqui”, conta.
Para driblar a saudade, Ardenise viu na música um consolo. Aprendeu a tocar violão dentro da penitenciária e também faz parte do coral do CRF. Os planos para o futuro já estão sendo traçados. Ela pretende terminar o Ensino Médio ainda durante o cumprimento da pena e quando estiver em liberdade, mesmo que condicional, quer trabalhar honestamente. “Essa é a parte em que mais vou precisar de apoio. Tudo o que eu quero é conseguir um emprego e viver com meus filhos e meu marido em paz. Eu sei que vai ser difícil, mas não é impossível”, diz.
Assim como ela, Roberta Sandreli, de 27 anos, tem a esperança de ter uma vida normal fora do cárcere. Condenada a 33 anos e seis meses de prisão, a jovem perdeu ao mesmo tempo a filha, o marido e a liberdade. Roberta aprendeu dentro da cadeia o sentido da palavra reconstruir. A filha, hoje com 8 anos, visita a mãe semanalmente e é para ela que Roberta faz questão de mostrar o que aprendeu. “Eu toco e canto pra ela, porque ela é a minha vida. O sonho de viver ao lado da minha filha me dá forças para me transformar numa pessoa melhor a cada dia”, diz emocionada.
Sonhos à parte, a realidade dentro do CRF é de ressocialização. Além das oficinas de musicalização e dança, as detentas também tem acesso à educação. Muitas chegam à casa penal analfabetas e conseguem, durante o cumprimento da pena, avançar nos níveis escolares. Hoje, além da alfabetização, as presas têm acesso ao Ensino Fundamental e Médio e, segundo a diretora do CRF, Lygia Cipriano, a procura é grande. Este ano já temos 80 mulheres matriculadas nas turmas de alfabetização e 280 nas demais séries do Ensino Fundamental e Médio, um indicativo bastante positivo para quem quer começar uma vida nova. “Não é apenas uma sala de aula. É um espaço cultural onde elas têm acesso a novas oportunidades. No ano passado eram apenas 120 estudantes, hoje são 280, sem contar as alunas do letramento. É um avanço que vai contar muito para o futuro dessas mulheres”, destaca Lygia.
O estímulo profissional às detentas também faz parte das medidas de reinserção social, ainda durante o cumprimento da pena. Através de convênios de trabalho externo, as presas do regime semi-aberto têm oportunidades de emprego. Atualmente 20 mulheres trabalham nas agencias dos Correios, através do projeto “Começar de Novo”, do Conselho Nacional de Justiça, e na Computer Store, uma parceria entre a iniciativa privada e a Superintendência do Sistema Penal. “Antes essa reinserção era feita após elas ganharem o direito à liberdade. Agora o trabalho é realizado com elas ainda no cárcere, ampliando as perspectivas de futuro dessas mulheres”, explica Lygia Cipriano. (Agência Pará)
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