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Conseguir atendimento é exercício de paciência

Às 4h da manhã, já é preciso estar de pé. Com os poucos bens arrumados na bolsa e os documentos necessários em mãos, a saída de casa não pode demorar. Sob a proteção apenas do sinal da cruz, o percurso pelas ruas sem trânsito do bairro do Souza até o Marc

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Às 4h da manhã, já é preciso estar de pé. Com os poucos bens arrumados na bolsa e os documentos necessários em mãos, a saída de casa não pode demorar. Sob a proteção apenas do sinal da cruz, o percurso pelas ruas sem trânsito do bairro do Souza até o Marco não costuma se prolongar. Alcançado o destino, o meio fio se torna assento, os joelhos se tornam apoio para os braços e o que resta é aprendido desde muito cedo quando se depende do serviço público de saúde: esperar.

Companheira da mãe Jandira Souza, 72 anos, durante as peregrinações em busca de atendimento médico, a cuidadora Márcia Cristina conhece bem a rotina de quem depende das unidades de saúde e hospitais públicos instalados em Belém. Diabética, a paciente de saúde frágil tentava por mais uma vez, na madrugada da última quarta-feira, atendimento ginecológico em uma das unidades mais concorridas da capital, o Centro de Saúde Escola do Marco, administrado pela Universidade do Estado do Pará (Uepa) e localizado na antiga avenida 25 de Setembro.

Distante poucos metros da mãe pela necessidade de improvisar assento no meio fio, a espera de Márcia Cristina começa pelo papel que dá direito de cruzar os portões da unidade para esperar mais um pouco do lado de dentro. “Aqui a demanda é muita e a oferta é pouca, mas, apesar dos problemas, aqui é onde a gente ainda consegue ser atendido. Acho que, por ser um posto de universidade, é melhor e é por isso que dá muita gente”, considera, tentando achar vantagens escondidas por entre os sacrifícios necessários. “Aqui, às 7h eles começam a distribuir as senhas, avisam quantas senhas têm e, se tiver ficha suficiente até o nosso lugar (na fila), a gente entra para esperar lá dentro o médico chegar”.

Dependendo da especialidade, a chegada do médico só acontece duas horas e meia depois do início da espera, que se origina ainda na madrugada, antes mesmo de o posto de saúde abrir as portas, condição essa que vai além da presença física em uma fila na porta da unidade de saúde. “Em outros postos, a dificuldade é maior. Às vezes, tem espera de dois, três meses para fazer um exame, mas é o jeito, né? A luta do povo é grande”, conforma-se Márcia Cristina, já experiente na luta de buscar tratamentos médicos pela rede pública. “Minha filha tinha endometriose e eu andei tudo por aí e até encontrei médicos bons, mas a demora é grande. Eu tive que fazer uma coleta na família para conseguir operar minha filha em um hospital particular”.

SALÁRIOS

Das andanças por hospitais e unidades de saúde pública, Márcia Cristina aprendeu também que a espera não costuma ser exclusividade dos pacientes. “Na lida com a minha filha, eu encontrei profissionais muito bons, mas às vezes eles não ficam muito tempo no hospital”, constata. “Uma vez, um médico muito bom me disse: ‘Dona Márcia, na próxima consulta da sua filha eu não vou estar mais aqui’. Ele não tava recebendo, estava três meses esperando receber o salário
atrasado”.

Na bicicleta que lhe serve de transporte desde a juventude, o marajoara Manoel Barbosa também se desloca na madrugada sempre que precisa pegar uma senha na Unidade de Saúde da Pedreira, localizada na avenida Pedro Miranda. A poucos metros de casa, o carpinteiro aposentado de 77 anos encontra abrigo em um banquinho de madeira que mal consegue acomodar o corpo esguio. Óculos escuros no rosto, o aguardo se desenrola entre um cochilo e outro. “Eu preciso marcar uma consulta para a minha velha”, explica, na fila destinada aos que buscam uma consulta com o clínico geral. “Ela tá muito doente, coitada. Fica numa cadeira de rodas.”

Debilitada, é em casa que a esposa de 76 anos também aguarda pela oportunidade de cuidar da saúde. Vendo o marido sair de casa ainda com o céu escuro, o retorno, anseia, será para levá-la até o médico. “Eles dão a senha às 7h30, mas, se vier depois das 3h da manhã, vai chegando gente, chegando gente e não consegue mais pegar”, explica, calculando que a chegada à porta da unidade de saúde se deu ainda por volta das 2h40 da manhã de quarta-feira. “Quando eu conseguir uma ficha para ela, vou lá buscar. Ela tá esperando”.

Corajoso diante do perigo de ficar na rua, Manoel gasta o tempo vendo a pouca movimentação da avenida passar pelas lentes dos óculos. “Fico pensando na vida. O que se pode fazer é só esperar mesmo”, lamenta.

(Diário do Pará)

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