Anualmente, no período do carnaval, milhares de pessoas se reúnem no espaço cultural da Aldeia Amazônica, no bairro da Pedreira, para assistirem aos desfiles das escolas de samba. Entretanto, quando o período festivo termina e os holofotes se apagam, a situação muda para pior.
Na madrugada de segunda-feira, 19, Valdinei Ferreira dos Santos, de aproximadamente 45 anos, foi encontrado morto no segundo andar das arquibancadas, em frente ao Centro de Referência de Assistência Social (Cras). A vítima estava deitada num papelão. A polícia acredita que ele tenha sido morto a golpes de facada.
Nas escadas da Aldeia Amazônica, fósforos queimados, cigarros, garrafas plásticas, preservativos e até fezes revelam a falta de cuidado com o local. Do lado de fora, há manchas nas paredes de pichações. Ao transitar pela calçada, próximo aos portões de entrada, o cheiro de urina é insuportável. Há vasilhas e restos de comida pelo chão.
Quem mora nas proximidades ou passa pelo local reclama de como a Aldeia Amazônica tem sido tratada com descaso. Com os portões de acesso às arquibancadas fechados, pessoas sobem a parede e entram assim mesmo. ‘’O pessoal faz isso de motel. Pode vir umas 19h e é pivete tudo pra fazer as coisas ai. Acho que isso foi um dinheiro que deveria ter sido investido em outras coisas. Está maltratado e abandonado’’, reclama o aposentado Francisco Cuoco, 66 anos.
As arquibancadas localizadas em frente à passagem do Hotel com a avenida Pedro Miranda também servem de esconderijo para assaltantes. Segundo a operadora de caixa, Lene Rodrigues, 31 anos, só há uma lâmpada que faz a iluminação no trecho. Os holofotes ficam apagados porque não tem programações.
“ Eles (assaltantes) ficam atrás das arquibancadas e vem de lá atravessando. Como o fluxo de carro é menor, eles atravessam e voltam rápido. Vem pessoas pelo canal da Pirajá e pegam fuga por lá. Eu já fui assaltada e já vi várias sendo. Não tem iluminação’’, enfatiza.
PRAÇA
No bairro do Reduto, a Praça Waldemar Henrique é um dos piores cartões de boas-vindas para quem desembarca no Porto Hidroviário de Belém ou visita as Estações das Docas, Ver-o-Peso e passa pelas proximidades. Há um tempo o espaço de lazer se tornou abrigo para usuários de drogas e moradores de rua.
A concha acústica construída para apresentações culturais virou dormitório de mendigos. Colchões velhos e papelões estão espalhados pelos cantos da praça. As pichações, lixo pelo chão e ausência de brinquedos para as crianças dão ao lugar um ar de esquecimento e insegurança.
“Não venho quase aqui nem de dia, que dirá de noite. É arriscado, principalmente para menina. Nem pensar em trazer a minha família aqui. Uma vez eu estava aqui esperando um ônibus, tinha uma moça do meu lado, apareceu um cara e roubou ela. Não tem policiamento por aqui nem guarda. Os ônibus nem param mais aqui por causa de assalto”, diz o aposentado Edilson de Souza, 68 anos.
Enquanto em alguns pontos de Belém ocorre disputa de espaço para colocar um ponto de venda, embaixo das arquibancadas da praça, sobram boxes. Dos dez, apenas quatro tem vendedores. O resto foi abandonado pelos próprios trabalhadores. “Todo dia tem roubo aqui. Pessoal desistiu de trabalhar por causa do medo. Está demais”, conta Esmeralda Nunes, 38 anos.
Segundo o vendedor Josiel do Amaral, 18 anos, nenhuma das dez lâmpadas dos boxes colocadas pela prefeitura de Belém funcionam. Ele precisou fazer uma instalação improvisada e trazer de casa a iluminação. “Eu fico aqui até às 20h. Estávamos sem iluminação. Tive que mandar colocar essa pra não ficar tudo escuro”, diz.
PARQUE
No balanço, os bancos não existem mais, o escorregador acaba em uma poça de água. Mato, lixo e fezes de animais estão espalhados pelo pequeno parque infantil, na avenida Marquês de Herval com a travessa Angustura, em Belém.
Diante desse cenário, a balconista Samila Patricia Brasil, 28 anos, não tem coragem de permitir que a filha de cinco anos brinque no espaço, que um dia foi frequentado pela família. “Já a trouxe um dia. Hoje não mais. Acho precário. Não tem segurança pra nós. É muito perigoso. Aqui ela não vem mais’’, diz.
A aposentada Maria Celina, 55 anos, lamenta a falta de um ambiente apropriado para as crianças, que ainda assim, insistem em procurar por diversão em meio ao abandono. Coitadinhas. Aqui não tem nada. A rodinha logo que inaugurou quebrou. Se não vão ajeitar, então tirem essa porcaria daqui. Tem criança que ainda vem brincar no mato velho e lamaçal”.
O carioca Diogo Machado, 49 anos, está em Belém desde a metade de maio. Embora reconheça as belezas do Estado, ressalta a importante do cuidado pelos espaços públicos. “Tem a necessidade de ter mais cuidado. Os moradores vêm aqui com frequência. Estou por aqui todas as manhãs fazendo caminhada. Realmente precisa de melhorias como limpeza”, frisa o turista.
PREFEITURA
Em nota, a prefeitura afirma que a Guarda Municipal de Belém (GMB) realiza rondas diárias tanto na praça Waldemar Henrique quanto na Aldeia Amazônica e em seu entorno, 24 horas por dia e que conta com o apoio da Polícia Militar. Diz que na Aldeia, a GMB ainda tem a parceria da empresa de segurança que presta serviço para a Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (Sejel), instalada no local.
A nota diz ainda que a Fundação Papa João XXIII (Funpapa) realiza o resgate frequente de pessoas em situação de risco ou de abandono nas ruas de Belém mas que, como estabelece a lei, é vedado o recolhimento compulsório, ou seja, contra a vontade destas pessoas.
Afirma ainda que a prefeitura mantém dois Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua e dois espaços de Acolhimento para pessoas em situação de rua, que são os abrigos.
(Diário do Pará)
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