A busca por juventude prolongada, melhor desempenho físico e soluções rápidas para questões estéticas tem impulsionado um mercado cada vez mais aquecido de tratamentos e substâncias que prometem resultados quase milagrosos.
Nas redes sociais, influenciadores digitais e clínicas especializadas ajudam a popularizar tendências que rapidamente ganham espaço entre consumidores em busca de bem-estar, beleza e longevidade. No entanto, especialistas alertam que nem todas essas promessas são respaldadas pela ciência, e algumas podem representar riscos à saúde.
Foi justamente esse cenário que inspirou um vídeo de humor da divulgadora científica Mari Krüger, publicado no Instagram, que viralizou ao abordar o uso indiscriminado de peptídeos. Na gravação, um anjo informa a Deus sobre a crescente popularização dessas substâncias na Terra, especialmente em clínicas de estética e nas redes sociais. A publicação ultrapassou 5,6 milhões de visualizações e acumula milhares de comentários.
“A repercussão desse vídeo foi completamente inesperada. Não é uma bobagem, é um assunto muito sério”, afirmou Mari. Segundo ela, o humor foi utilizado como ferramenta para facilitar a compreensão de um tema complexo sem minimizar os riscos envolvidos.
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Peptídeos ganham espaço no mercado da estética
Nos últimos anos, os peptídeos se tornaram uma das principais apostas dos segmentos de estética, performance física e antienvelhecimento. Divulgados como substâncias capazes de estimular a produção de colágeno, acelerar a recuperação muscular, melhorar a composição corporal e até retardar o envelhecimento, eles passaram a ser oferecidos em clínicas e comercializados pela internet.
Apesar da popularidade crescente, especialistas ressaltam que muitos dos benefícios atribuídos a essas substâncias não possuem comprovação científica robusta. Além disso, grande parte dos peptídeos vendidos para fins estéticos não conta com autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O que são os peptídeos?
Peptídeos são pequenas cadeias de aminoácidos, os mesmos componentes que formam as proteínas. A principal diferença entre ambos está no tamanho: enquanto as proteínas são estruturas maiores e mais complexas, os peptídeos possuem cadeias menores.
Essas moléculas desempenham funções essenciais no organismo, atuando como hormônios, mensageiros celulares e reguladores de diversos processos biológicos, como crescimento, metabolismo, cicatrização e resposta imunológica.
“Esses peptídeos funcionam como mensageiros biológicos e enviam uma mensagem para a célula realizar determinada função”, explica a cirurgiã plástica Elisa Minami, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).
Nas últimas décadas, pesquisadores passaram a desenvolver versões sintéticas dessas moléculas com o objetivo de reproduzir ou potencializar funções naturais do corpo.
Remédios aprovados não significam segurança
Entre os exemplos mais conhecidos de peptídeos estão a insulina, utilizada no tratamento do diabetes, e os análogos do GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, presentes em medicamentos para obesidade e controle glicêmico.
Esses fármacos passaram por extensos estudos clínicos e foram aprovados por órgãos reguladores, incluindo a Anvisa. No entanto, especialistas alertam que a existência de medicamentos peptídicos aprovados não significa que todas as substâncias comercializadas como peptídeos apresentem o mesmo perfil de segurança e eficácia.
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Atualmente, no Brasil, a autorização da Anvisa contempla medicamentos como insulina, semaglutida, liraglutida, tirzepatida e cosméticos tópicos que contenham peptídeos em suas fórmulas.
Já outros compostos comercializados para fins estéticos ou de performance física permanecem sem regulamentação e sem comprovação científica adequada.
Os Peptídeos mais divulgados
Entre os peptídeos mais promovidos nas redes sociais e em clínicas de estética estão o GHK-Cu, o BPC-157 e o TB-500.
Segundo a Anvisa, nenhum desses produtos possui registro ou autorização para uso em saúde no Brasil.
“Estes produtos não estão regularizados na Anvisa em nenhuma categoria, sendo ilegais para qualquer uso em saúde, inclusive estético. Produtos como estes não têm qualquer garantia de segurança, origem e composição”, informou a agência em nota.
A principal promessa associada a essas substâncias envolve o estímulo à produção de colágeno, regeneração de tecidos, redução de rugas, recuperação muscular acelerada e combate aos efeitos do envelhecimento.
Entretanto, as evidências científicas disponíveis são limitadas. Grande parte dos estudos que apontam benefícios foi realizada apenas em laboratório ou em modelos animais, sem comprovação consistente em seres humanos.
O GHK-Cu, conhecido como peptídeo de cobre, pode ser utilizado em cosméticos de aplicação tópica, como cremes e séruns, para auxiliar no cuidado da pele. Porém, sua utilização por via injetável não é autorizada.
Da mesma forma, o BPC-157 e o TB-500 apresentaram resultados promissores em pesquisas com animais, mas ainda carecem de estudos clínicos robustos em humanos.
“Embora existam estudos laboratoriais e em animais mostrando resultados interessantes, as evidências clínicas em seres humanos ainda são limitadas”, afirma Patricia Erazo, coordenadora científica de Cosmiatria da SBCP.
O que é permitido e o que é proibido
Uma das maiores dúvidas dos consumidores está relacionada à diferença entre peptídeos aprovados e substâncias experimentais.
Os medicamentos peptídicos regulamentados podem ser prescritos para condições específicas, como diabetes, obesidade e algumas doenças raras, sempre sob supervisão médica.
Também são permitidos cosméticos contendo peptídeos para uso externo, como cremes e séruns.
Por outro lado, não existe autorização para peptídeos injetáveis destinados a fins estéticos no Brasil.
A Anvisa reforça que produtos comercializados como peptídeos injetáveis não são considerados cosméticos e não possuem registro válido para esse tipo de utilização.
Especialistas alertam para riscos à saúde
Médicos destacam que a ideia de que peptídeos seriam substâncias naturais e, portanto, livres de riscos, é equivocada.
Entre os efeitos adversos relatados estão retenção de líquidos, alterações hormonais, dores articulares, aumento da pressão arterial, alterações metabólicas e reações no local da aplicação.
Outro fator de preocupação é a procedência dos produtos comercializados de forma irregular. Sem fiscalização adequada, essas substâncias podem apresentar dosagens incorretas, contaminação microbiológica ou até conter componentes diferentes daqueles informados nos rótulos.
Além disso, especialistas apontam que os efeitos de longo prazo permanecem desconhecidos, já que muitos desses compostos nunca foram amplamente estudados em seres humanos.
“Os riscos dos injetados são muito sérios. Pode haver contaminação, reação inflamatória ou infecção. A pessoa não sabe usar a dose certa, então usa a dose errada e também há ausência de estudos robustos e segurança”, alerta Elisa Minami.
A dermatologista Alessandra Romiti, assessora do Departamento de Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), também chama atenção para os perigos associados a produtos sem procedência.
“Pode haver infecção por bactérias, a maneira de fabricação pode não ser adequada. Além disso, a gente não sabe se mais para frente vai ter algum prejuízo do uso desses produtos de maneira injetável, porque eles não são estudados”, conclui.
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